domingo, 7 de dezembro de 2014

Capítulo 9


Pleno Verão e nem uma ida à praia. Nem uma ida à brisa do tranquilo velejar, ao areal granítico do sossego, ao fedor do iodo na maresia em algas de conforto, à frescura lancinante entranhada nas canelas do salgado - que vai e vem, vai e vem, vai e sente-se a saudade do vem (porque sabemos que vem). Nem uma ida ao estender do corpo na toalha do serenar da aura, contemplando-se, mescla de cores, na corrente do perpassar tépido dos raios cósmicos. Na verdade, Maria, ganhou completa aversão ao sol, à luz, à claridade, ao calor.

 No regresso do hospital. Seis da tarde, e ainda 40 graus. Impressionante. Incêndios de um lado e do outro da estrada, labaredas gigantescas a transformar em cinza o verdejante amarelado de fim de estação; os troncos seculares e imponentes completamente chamuscados e áridos da seiva do estar, o negro da alma a pairar no parco azul já escasso de céu. E o odor a inferno, a alcatrão derretido no choque alaranjado negro e putrefacto da resignação. A borboleta simétrica retorna. Traz à mente de Maria imagens de um anjo negro da morte. Conheceu-o num filme, anos antes. Não era nada de especial, nem sequer tinha cenas violentas, mas para si, para a sua mente, foi  extenuante. Pessoas, próximas da morte, avistavam um vulto negro: uma borboleta simétrica. Desenhavam-na no papel para mostrar aos que não viam. Sobressaltavam-se perante o som seco de um objecto afiado a cortar o vento. O voo. Foi aquele anjo da morte que Maria viu nas costas da mãe, o mesmo desenho das personagens condenadas, exactamente a mesma forma, só que tatuada nas costas da sua procriadora. Um arrepio percorreu toda a sua coluna, de baixo para cima: embateu na nuca. Começou a sentir-se indisposta. Era o calor. Insuportável.

                Parou numa bomba de gasolina. Entrou. Pediu uma garrafa de água. Agradeceu a Deus o ar condicionado e rezou para não desfalecer ali. Sentia o bater do coração, pancadas fortes e aceleradas na nuca. Receou ter um derrame ou algo do género. Um AVC. Colocou a garrafa gelada na nuca, encostou a cabeça para trás. Pediu outra garrafa. Enquanto bebia, encostava o copo à testa, deslizava-o pelas faces. Verteu um pouco de água gélida nas costas e no peito. Não estava a suportar tamanho calor, tamanha dor de corpo e alma. E rezou para que os contínuos baques na nuca parassem. Receava que alguma veia explodisse no cérebro de tanto sangue fervido bombear. Ou, no mínimo, o sangue solidificasse de tão cozido a temperatura alta. Era um problema pensar que teria de regressar ao carro, sem ar condicionado, e  continuar a viagem. Comprou um saco de gelo. Entrou no carro. Colocou-o nas costas e reclinou-se; segurou-o, pela vida, no encosto do banco. Mais adiante, com a mão esquerda, transportou-o para o peito (a direita no volante e o olhar sempre na estrada), deixou-o deslizar até ao colo. As imagens da mãe com o saco a tiracolo. O saco transparente dos líquidos expelidos das zonas da operação. As imagens da mãe a drenar uma água amarela ensanguentada. As imagens da mãe a acenar o adeus da janela longínqua no sétimo andar daquele monstruoso edifício de betão cinzento. A surdina das vozes das ambulâncias. As letras no espelho. O avesso da vida. A morte em todo o lado, a morte por toda ela, a presença constante da morte em vida. Só morte  e mais morte. A imagem do acidentado ali, na estrada, a jorrar sangue pelo orifício, tornado minúsculo, da boca, às golfadas. E o bombeiro com a mangueira a jorrar água no matagal a arder. A mesma quantidade de líquido, à mesma velocidade luz. Nem no CSI. Dizem,  e é verdade,  a vida real consegue ser mil vezes mais cruel e aterradora do que a ficção. Aquele outrora vivo acidentado, esvaído em 90% de água tingida de vermelho, e o corpo seco, completamente árido, tal como os troncos enegrecidos e já sem seiva das árvores. Aquele corpo. Onde estaria a alma? Dentro ou fora? Tranquila ou ainda a sofrer? Com ou sem líquido? Quente ou fria? Rosa, branca ou preta? Onde?

- Pára, mulher! Vai correr bem. Não chores, porque choras? Vá, Maria, pára de soluçar. Tens uma mania de te desfazer em pranto no interior deste carro. Esta chapa já nem te pode ver.

- É o único sítio do mundo onde ninguém me vê chorar. Só mesmo tu e a chapa do carro. Odeio que me vejam chorar. Chorar é muito dentro. Chorar não interessa a ninguém, nem ao próprio. Se eu conseguisse, garanto-te que nem na tua frente chorava.

- Chora, mulher! Se precisas de chorar, chora. Vives sufocada entre possibilidades de locais para chorar que não tens. Desfaz esses nós na garganta. Chora. Deita cá para fora esse aperto no peito. Alivia-te desse peso, dessa dor. Chora. Juro que não conto a ninguém que estiveste a chorar. A tua mãe, embora penses que lhe mentes, embora ela saiba quem tu és, ainda acredita que és forte ( e és! ) e que estás a segurar tudo e todos na breve ausência dela. Portanto, chora tudo o que tens a chorar aqui.

- Odeio este calor. Não suporto as alterações climáticas. Odeio o efeito de estufa. Abomino o consumismo moderno e a ganância do ser humano. É por isso que a minha mãe está doente. É por isso que ela está a passá-las no hospital. Uma pessoa de bem a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos gananciosos. Árvores de bem a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos gananciosos. Odeio-os a todos. Estou toda molhada, o banco do carro está todo molhado, amanhã será um cheiro nauseabundo aqui dentro. Tudo por causa dos bancos e do roubo consentido, das margens espantosamente ofensivas de lucro, do capitalismo, do consumismo desenfreado, da poluição. Odeio-os a todos e a mim própria por abanar a cabeça ao escandalosamente ofensivo da inteligência humana, por declarar abertamente: “roubem-me vinte vezes mais acima daquilo que estava à espera de ser roubada, roubem-me que eu pago calada para a minha mãe morrer já no hospital”.

- Que estás para aí a dizer, Maria? Tu pagas para a tua mãe morrer?

- Estou a pagar aos bancos o dinheiro que fez e faz falta à saúde da minha mãe. Porque sou cumpridora, preferi pagar a casa e os juros inacreditáveis do empréstimo. Deveria ter deixado o empréstimo e o constante abuso do banco por pagar, deveria ter pensado em aplicar esse dinheiro que me está a ser roubado, sem dó nem piedade, na prevenção da saúde da minha mãe. Porque não me lembrei disso antes? Formiguinha atrás do sistema corrupto, ganancioso e perverso, é isso que eu sou, formiguinha.

- Não podes deixar de pagar a casa. E ias viver onde? A tua família ia viver onde? Debaixo da ponte? Orienta-te, Maria. A tua mãe já foi operada. Não levou enxerto de pele. Não está a fazer quimioterapia. Deve ser bom sinal, não?

- É. Pensando bem, é.  Embora a conversa com o médico só aconteça daqui a um par de semanas. E lá estou eu a soltar as lágrimas outra vez. Aquela frase. Aquela frase dita por ela. Dita precisamente por ela: “Não é contigo, pois não? Se fosse contigo a conversa seria outra. Não és tu que as estás a passar.” O acidentado a apontar-me o dedo. Porque é que tu te esvaíste em sangue e eu na posição de olhar para ti? Porque não eu a esvair-me em sangue e tu na posição de olhares para mim? Estranho. Estranho o acontecer ininterrupto do tempo no espaço, o contínuo girar da roda, o não saber como, quando e onde vai parar e quem estará lá só e apenas  por estar.

                No regresso a casa, ao seu quarto, Maria lembrou-se da sugestão dada por Elvira, sua colega de trabalho e professora de Língua Portuguesa. Na tarde do dia anterior, antes da visita habitual à sua mãe, tinham estado na esplanada do café, no parque da cidade. Maria havia-lhe mostrado a colectânea de poemas que estava a compilar, inclusive alguns redigidos naquela semana mesmo. Ponderava enviá-los para uma editora. Gostaria de os publicar. A aceitabilidade na rede social estava a ser grande. Um número cada vez maior de pessoas interessava-se pela sua poesia e pela sua escrita.

                Tinha essa noção, desde o momento em que decidiu abrir um blog , a conselho de uma amiga actriz internauta que, amavelmente, assim do nada, redigiu uma extensa mensagem privada e usou a palavra intuição, “feeling”, para dizer que o blog seria a montra indicada para  a projecção dos seus poemas. Que, através do blog, notaria a diferença e conseguiria ver o número de cliques nas suas letras, inclusive de que parte do mundo é que eles proviriam.

                Na esplanada, Elvira alterna entre a leitura dos poemas de Maria e umas lambidelas num gelado de limão.

-Oh!, dear God! Por momentos pensei estar a ler o Nuno. O mesmo estilo. A fragmentação do eu. Conheces?

-Quem? Não.

                - Procura na rede, nas minhas amizades: Nuno Fernando Filho. Vais ver se não tenho razão.

                E, Maria, assim fez. O impacto da leitura dos fragmentos dele foi tão forte que, de imediato, lhe deixou uma mensagem de parabéns no mural.

 

                  A Literatura é uma área pela qual me interesso bastante. Com tempo irei explorar mais a sua obra, pois gosto da sua forma de estar na escrita. O meu eu projecta na minha mente o Nuno como um homem fiel à natureza do ser humano e vejo na sua escrita ( aquela que li ) essa fidelidade, sem  filtros, nem hipocrisia...a alma em estado bruto. Despertou o meu interesse, também, a forma como brinca com as palavras, conseguindo expressar sentimentos e pensamentos com uma precisão acutilante. Espero poder continuar a usufruir das suas palavras. Quando der um curso de escrita criativa nesta cidade, informe. Parabéns e cumprimentos.

Maria Sousa ”

 Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce.Porque o milagre é acreditar."

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