Pleno Verão e
nem uma ida à praia. Nem uma ida à brisa do tranquilo velejar, ao areal granítico
do sossego, ao fedor do iodo na maresia em algas de conforto, à frescura
lancinante entranhada nas canelas do salgado - que vai e vem, vai e vem, vai e
sente-se a saudade do vem (porque sabemos que vem). Nem uma ida ao estender do
corpo na toalha do serenar da aura, contemplando-se, mescla de cores, na
corrente do perpassar tépido dos raios cósmicos. Na verdade, Maria, ganhou
completa aversão ao sol, à luz, à claridade, ao calor.
No regresso do hospital. Seis da tarde, e
ainda 40 graus. Impressionante. Incêndios de um lado e do outro da estrada,
labaredas gigantescas a transformar em cinza o verdejante amarelado de fim de
estação; os troncos seculares e imponentes completamente chamuscados e áridos
da seiva do estar, o negro da alma a pairar no parco azul já escasso de céu. E
o odor a inferno, a alcatrão derretido no choque alaranjado negro e putrefacto
da resignação. A borboleta simétrica retorna. Traz à mente de Maria imagens de
um anjo negro da morte. Conheceu-o num filme, anos antes. Não era nada de
especial, nem sequer tinha cenas violentas, mas para si, para a sua mente,
foi extenuante. Pessoas, próximas da morte,
avistavam um vulto negro: uma borboleta simétrica. Desenhavam-na no papel para
mostrar aos que não viam. Sobressaltavam-se perante o som seco de um objecto
afiado a cortar o vento. O voo. Foi aquele anjo da morte que Maria viu nas
costas da mãe, o mesmo desenho das personagens condenadas, exactamente a mesma
forma, só que tatuada nas costas da sua procriadora. Um arrepio percorreu toda
a sua coluna, de baixo para cima: embateu na nuca. Começou a sentir-se
indisposta. Era o calor. Insuportável.
Parou
numa bomba de gasolina. Entrou. Pediu uma garrafa de água. Agradeceu a Deus o
ar condicionado e rezou para não desfalecer ali. Sentia o bater do coração,
pancadas fortes e aceleradas na nuca. Receou ter um derrame ou algo do género.
Um AVC. Colocou a garrafa gelada na nuca, encostou a cabeça para trás. Pediu
outra garrafa. Enquanto bebia, encostava o copo à testa, deslizava-o pelas
faces. Verteu um pouco de água gélida nas costas e no peito. Não estava a
suportar tamanho calor, tamanha dor de corpo e alma. E rezou para que os
contínuos baques na nuca parassem. Receava que alguma veia explodisse no
cérebro de tanto sangue fervido bombear. Ou, no mínimo, o sangue solidificasse
de tão cozido a temperatura alta. Era um problema pensar que teria de regressar
ao carro, sem ar condicionado, e
continuar a viagem. Comprou um saco de gelo. Entrou no carro. Colocou-o
nas costas e reclinou-se; segurou-o, pela vida, no encosto do banco. Mais
adiante, com a mão esquerda, transportou-o para o peito (a direita no volante e
o olhar sempre na estrada), deixou-o deslizar até ao colo. As imagens da mãe
com o saco a tiracolo. O saco transparente dos líquidos expelidos das zonas da
operação. As imagens da mãe a drenar uma água amarela ensanguentada. As imagens
da mãe a acenar o adeus da janela longínqua no sétimo andar daquele monstruoso
edifício de betão cinzento. A surdina das vozes das ambulâncias. As letras no
espelho. O avesso da vida. A morte em todo o lado, a morte por toda ela, a
presença constante da morte em vida. Só morte
e mais morte. A imagem do acidentado ali, na estrada, a jorrar sangue
pelo orifício, tornado minúsculo, da boca, às golfadas. E o bombeiro com a
mangueira a jorrar água no matagal a arder. A mesma quantidade de líquido, à
mesma velocidade luz. Nem no CSI. Dizem,
e é verdade, a vida real consegue
ser mil vezes mais cruel e aterradora do que a ficção. Aquele outrora vivo
acidentado, esvaído em 90% de água tingida de vermelho, e o corpo seco,
completamente árido, tal como os troncos enegrecidos e já sem seiva das
árvores. Aquele corpo. Onde estaria a alma? Dentro ou fora? Tranquila ou ainda
a sofrer? Com ou sem líquido? Quente ou fria? Rosa, branca ou preta? Onde?
- Pára,
mulher! Vai correr bem. Não chores, porque choras? Vá, Maria, pára de soluçar.
Tens uma mania de te desfazer em pranto no interior deste carro. Esta chapa já
nem te pode ver.
- É o único
sítio do mundo onde ninguém me vê chorar. Só mesmo tu e a chapa do carro. Odeio
que me vejam chorar. Chorar é muito dentro. Chorar não interessa a ninguém, nem
ao próprio. Se eu conseguisse, garanto-te que nem na tua frente chorava.
- Chora,
mulher! Se precisas de chorar, chora. Vives sufocada entre possibilidades de
locais para chorar que não tens. Desfaz esses nós na garganta. Chora. Deita cá
para fora esse aperto no peito. Alivia-te desse peso, dessa dor. Chora. Juro
que não conto a ninguém que estiveste a chorar. A tua mãe, embora penses que
lhe mentes, embora ela saiba quem tu és, ainda acredita que és forte ( e és! )
e que estás a segurar tudo e todos na breve ausência dela. Portanto, chora tudo
o que tens a chorar aqui.
- Odeio este
calor. Não suporto as alterações climáticas. Odeio o efeito de estufa. Abomino
o consumismo moderno e a ganância do ser humano. É por isso que a minha mãe
está doente. É por isso que ela está a passá-las no hospital. Uma pessoa de bem
a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos gananciosos.
Árvores de bem a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos
gananciosos. Odeio-os a todos. Estou toda molhada, o banco do carro está todo
molhado, amanhã será um cheiro nauseabundo aqui dentro. Tudo por causa dos
bancos e do roubo consentido, das margens espantosamente ofensivas de lucro, do
capitalismo, do consumismo desenfreado, da poluição. Odeio-os a todos e a mim
própria por abanar a cabeça ao escandalosamente ofensivo da inteligência
humana, por declarar abertamente: “roubem-me vinte vezes mais acima daquilo que
estava à espera de ser roubada, roubem-me que eu pago calada para a minha mãe
morrer já no hospital”.
- Que estás
para aí a dizer, Maria? Tu pagas para a tua mãe morrer?
- Estou a
pagar aos bancos o dinheiro que fez e faz falta à saúde da minha mãe. Porque
sou cumpridora, preferi pagar a casa e os juros inacreditáveis do empréstimo.
Deveria ter deixado o empréstimo e o constante abuso do banco por pagar,
deveria ter pensado em aplicar esse dinheiro que me está a ser roubado, sem dó
nem piedade, na prevenção da saúde da minha mãe. Porque não me lembrei disso
antes? Formiguinha atrás do sistema corrupto, ganancioso e perverso, é isso que
eu sou, formiguinha.
- Não podes
deixar de pagar a casa. E ias viver onde? A tua família ia viver onde? Debaixo
da ponte? Orienta-te, Maria. A tua mãe já foi operada. Não levou enxerto de
pele. Não está a fazer quimioterapia. Deve ser bom sinal, não?
- É. Pensando
bem, é. Embora a conversa com o médico
só aconteça daqui a um par de semanas. E lá estou eu a soltar as lágrimas outra
vez. Aquela frase. Aquela frase dita por ela. Dita precisamente por ela: “Não é
contigo, pois não? Se fosse contigo a conversa seria outra. Não és tu que as
estás a passar.” O acidentado a apontar-me o dedo. Porque é que tu te esvaíste
em sangue e eu na posição de olhar para ti? Porque não eu a esvair-me em sangue
e tu na posição de olhares para mim? Estranho. Estranho o acontecer ininterrupto
do tempo no espaço, o contínuo girar da roda, o não saber como, quando e onde
vai parar e quem estará lá só e apenas por estar.
No
regresso a casa, ao seu quarto, Maria lembrou-se da sugestão dada por Elvira,
sua colega de trabalho e professora de Língua Portuguesa. Na tarde do dia
anterior, antes da visita habitual à sua mãe, tinham estado na esplanada do
café, no parque da cidade. Maria havia-lhe mostrado a colectânea de poemas que
estava a compilar, inclusive alguns redigidos naquela semana mesmo. Ponderava
enviá-los para uma editora. Gostaria de os publicar. A aceitabilidade na rede
social estava a ser grande. Um número cada vez maior de pessoas interessava-se
pela sua poesia e pela sua escrita.
Tinha
essa noção, desde o momento em que decidiu abrir um blog , a conselho de uma
amiga actriz internauta que, amavelmente, assim do nada, redigiu uma extensa
mensagem privada e usou a palavra intuição, “feeling”, para dizer que o blog
seria a montra indicada para a projecção
dos seus poemas. Que, através do blog, notaria a diferença e conseguiria ver o
número de cliques nas suas letras, inclusive de que parte do mundo é que eles
proviriam.
Na
esplanada, Elvira alterna entre a leitura dos poemas de Maria e umas lambidelas
num gelado de limão.
-Oh!, dear
God! Por momentos pensei estar a ler o Nuno. O mesmo estilo. A fragmentação do
eu. Conheces?
-Quem? Não.
-
Procura na rede, nas minhas amizades: Nuno Fernando Filho. Vais ver se não
tenho razão.
E,
Maria, assim fez. O impacto da leitura dos fragmentos dele foi tão forte que,
de imediato, lhe deixou uma mensagem de parabéns no mural.
“ A
Literatura é uma área pela qual me interesso bastante. Com tempo irei explorar
mais a sua obra, pois gosto da sua forma de estar na escrita. O meu eu projecta
na minha mente o Nuno como um homem fiel à natureza do ser humano e vejo na sua
escrita ( aquela que li ) essa fidelidade, sem
filtros, nem hipocrisia...a alma em estado bruto. Despertou o meu
interesse, também, a forma como brinca com as palavras, conseguindo expressar
sentimentos e pensamentos com uma precisão acutilante. Espero poder continuar a
usufruir das suas palavras. Quando der um curso de escrita criativa nesta
cidade, informe. Parabéns e cumprimentos.
Maria Sousa ”