segunda-feira, 31 de agosto de 2015


 A tendência da população em geral é a direita; Maria contraria a sua:  escolhe o atalho da esquerda. É valsa a dança da brisa na verde folhagem – o rio aguarda sua vez de bailar. O sol, atrevido e arredio fogo , furta a passada da dama, da tímida chuva, que se aproxima para o amar. O céu cobre-se de cinzento, é verdade. A sua alma também. E ambos são saudade: vida e vontade. Uma picada de abelha. Merda! Arde. Dói. Lembra-se de quando era criança, tinha talvez uns seis anos, e, propositadamente, resolveu segurar na mão uma abelha. Queria muito sentir a picada, a dor de que tanto as outras crianças falavam. Apertou-a bem fechada na mão, espremeu-a, encolheu os ombros, cerrou os olhos, e sentiu. Deliciosamente sentiu a queimadura. Só largou quando o ardor terminou. E observou, repentinamente entristecida, o bicho cair morto no chão. Involuntariamente, matou o rival na competição ao sugar-lhe o veneno. Não achou piada ao inchaço e à vermelhidão que se seguiram. Mas, finalmente, pôde dizer : “Sei o que é a picada de uma abelha”. Odeia o odor a ignorância. Mesmo na dor. Pena a culpa a ter abraçado no momento em que , pasma, se apercebeu ter causado a morte ao insecto. É sempre assim. Quando deseja muito algo, esse algo acaba por não resistir à força do seu intento: é uma assassina de tudo o que é intenso.
Conceição Sousa

domingo, 7 de dezembro de 2014

Capítulo 9


Pleno Verão e nem uma ida à praia. Nem uma ida à brisa do tranquilo velejar, ao areal granítico do sossego, ao fedor do iodo na maresia em algas de conforto, à frescura lancinante entranhada nas canelas do salgado - que vai e vem, vai e vem, vai e sente-se a saudade do vem (porque sabemos que vem). Nem uma ida ao estender do corpo na toalha do serenar da aura, contemplando-se, mescla de cores, na corrente do perpassar tépido dos raios cósmicos. Na verdade, Maria, ganhou completa aversão ao sol, à luz, à claridade, ao calor.

 No regresso do hospital. Seis da tarde, e ainda 40 graus. Impressionante. Incêndios de um lado e do outro da estrada, labaredas gigantescas a transformar em cinza o verdejante amarelado de fim de estação; os troncos seculares e imponentes completamente chamuscados e áridos da seiva do estar, o negro da alma a pairar no parco azul já escasso de céu. E o odor a inferno, a alcatrão derretido no choque alaranjado negro e putrefacto da resignação. A borboleta simétrica retorna. Traz à mente de Maria imagens de um anjo negro da morte. Conheceu-o num filme, anos antes. Não era nada de especial, nem sequer tinha cenas violentas, mas para si, para a sua mente, foi  extenuante. Pessoas, próximas da morte, avistavam um vulto negro: uma borboleta simétrica. Desenhavam-na no papel para mostrar aos que não viam. Sobressaltavam-se perante o som seco de um objecto afiado a cortar o vento. O voo. Foi aquele anjo da morte que Maria viu nas costas da mãe, o mesmo desenho das personagens condenadas, exactamente a mesma forma, só que tatuada nas costas da sua procriadora. Um arrepio percorreu toda a sua coluna, de baixo para cima: embateu na nuca. Começou a sentir-se indisposta. Era o calor. Insuportável.

                Parou numa bomba de gasolina. Entrou. Pediu uma garrafa de água. Agradeceu a Deus o ar condicionado e rezou para não desfalecer ali. Sentia o bater do coração, pancadas fortes e aceleradas na nuca. Receou ter um derrame ou algo do género. Um AVC. Colocou a garrafa gelada na nuca, encostou a cabeça para trás. Pediu outra garrafa. Enquanto bebia, encostava o copo à testa, deslizava-o pelas faces. Verteu um pouco de água gélida nas costas e no peito. Não estava a suportar tamanho calor, tamanha dor de corpo e alma. E rezou para que os contínuos baques na nuca parassem. Receava que alguma veia explodisse no cérebro de tanto sangue fervido bombear. Ou, no mínimo, o sangue solidificasse de tão cozido a temperatura alta. Era um problema pensar que teria de regressar ao carro, sem ar condicionado, e  continuar a viagem. Comprou um saco de gelo. Entrou no carro. Colocou-o nas costas e reclinou-se; segurou-o, pela vida, no encosto do banco. Mais adiante, com a mão esquerda, transportou-o para o peito (a direita no volante e o olhar sempre na estrada), deixou-o deslizar até ao colo. As imagens da mãe com o saco a tiracolo. O saco transparente dos líquidos expelidos das zonas da operação. As imagens da mãe a drenar uma água amarela ensanguentada. As imagens da mãe a acenar o adeus da janela longínqua no sétimo andar daquele monstruoso edifício de betão cinzento. A surdina das vozes das ambulâncias. As letras no espelho. O avesso da vida. A morte em todo o lado, a morte por toda ela, a presença constante da morte em vida. Só morte  e mais morte. A imagem do acidentado ali, na estrada, a jorrar sangue pelo orifício, tornado minúsculo, da boca, às golfadas. E o bombeiro com a mangueira a jorrar água no matagal a arder. A mesma quantidade de líquido, à mesma velocidade luz. Nem no CSI. Dizem,  e é verdade,  a vida real consegue ser mil vezes mais cruel e aterradora do que a ficção. Aquele outrora vivo acidentado, esvaído em 90% de água tingida de vermelho, e o corpo seco, completamente árido, tal como os troncos enegrecidos e já sem seiva das árvores. Aquele corpo. Onde estaria a alma? Dentro ou fora? Tranquila ou ainda a sofrer? Com ou sem líquido? Quente ou fria? Rosa, branca ou preta? Onde?

- Pára, mulher! Vai correr bem. Não chores, porque choras? Vá, Maria, pára de soluçar. Tens uma mania de te desfazer em pranto no interior deste carro. Esta chapa já nem te pode ver.

- É o único sítio do mundo onde ninguém me vê chorar. Só mesmo tu e a chapa do carro. Odeio que me vejam chorar. Chorar é muito dentro. Chorar não interessa a ninguém, nem ao próprio. Se eu conseguisse, garanto-te que nem na tua frente chorava.

- Chora, mulher! Se precisas de chorar, chora. Vives sufocada entre possibilidades de locais para chorar que não tens. Desfaz esses nós na garganta. Chora. Deita cá para fora esse aperto no peito. Alivia-te desse peso, dessa dor. Chora. Juro que não conto a ninguém que estiveste a chorar. A tua mãe, embora penses que lhe mentes, embora ela saiba quem tu és, ainda acredita que és forte ( e és! ) e que estás a segurar tudo e todos na breve ausência dela. Portanto, chora tudo o que tens a chorar aqui.

- Odeio este calor. Não suporto as alterações climáticas. Odeio o efeito de estufa. Abomino o consumismo moderno e a ganância do ser humano. É por isso que a minha mãe está doente. É por isso que ela está a passá-las no hospital. Uma pessoa de bem a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos gananciosos. Árvores de bem a padecer as consequências no planeta devido à ganância dos gananciosos. Odeio-os a todos. Estou toda molhada, o banco do carro está todo molhado, amanhã será um cheiro nauseabundo aqui dentro. Tudo por causa dos bancos e do roubo consentido, das margens espantosamente ofensivas de lucro, do capitalismo, do consumismo desenfreado, da poluição. Odeio-os a todos e a mim própria por abanar a cabeça ao escandalosamente ofensivo da inteligência humana, por declarar abertamente: “roubem-me vinte vezes mais acima daquilo que estava à espera de ser roubada, roubem-me que eu pago calada para a minha mãe morrer já no hospital”.

- Que estás para aí a dizer, Maria? Tu pagas para a tua mãe morrer?

- Estou a pagar aos bancos o dinheiro que fez e faz falta à saúde da minha mãe. Porque sou cumpridora, preferi pagar a casa e os juros inacreditáveis do empréstimo. Deveria ter deixado o empréstimo e o constante abuso do banco por pagar, deveria ter pensado em aplicar esse dinheiro que me está a ser roubado, sem dó nem piedade, na prevenção da saúde da minha mãe. Porque não me lembrei disso antes? Formiguinha atrás do sistema corrupto, ganancioso e perverso, é isso que eu sou, formiguinha.

- Não podes deixar de pagar a casa. E ias viver onde? A tua família ia viver onde? Debaixo da ponte? Orienta-te, Maria. A tua mãe já foi operada. Não levou enxerto de pele. Não está a fazer quimioterapia. Deve ser bom sinal, não?

- É. Pensando bem, é.  Embora a conversa com o médico só aconteça daqui a um par de semanas. E lá estou eu a soltar as lágrimas outra vez. Aquela frase. Aquela frase dita por ela. Dita precisamente por ela: “Não é contigo, pois não? Se fosse contigo a conversa seria outra. Não és tu que as estás a passar.” O acidentado a apontar-me o dedo. Porque é que tu te esvaíste em sangue e eu na posição de olhar para ti? Porque não eu a esvair-me em sangue e tu na posição de olhares para mim? Estranho. Estranho o acontecer ininterrupto do tempo no espaço, o contínuo girar da roda, o não saber como, quando e onde vai parar e quem estará lá só e apenas  por estar.

                No regresso a casa, ao seu quarto, Maria lembrou-se da sugestão dada por Elvira, sua colega de trabalho e professora de Língua Portuguesa. Na tarde do dia anterior, antes da visita habitual à sua mãe, tinham estado na esplanada do café, no parque da cidade. Maria havia-lhe mostrado a colectânea de poemas que estava a compilar, inclusive alguns redigidos naquela semana mesmo. Ponderava enviá-los para uma editora. Gostaria de os publicar. A aceitabilidade na rede social estava a ser grande. Um número cada vez maior de pessoas interessava-se pela sua poesia e pela sua escrita.

                Tinha essa noção, desde o momento em que decidiu abrir um blog , a conselho de uma amiga actriz internauta que, amavelmente, assim do nada, redigiu uma extensa mensagem privada e usou a palavra intuição, “feeling”, para dizer que o blog seria a montra indicada para  a projecção dos seus poemas. Que, através do blog, notaria a diferença e conseguiria ver o número de cliques nas suas letras, inclusive de que parte do mundo é que eles proviriam.

                Na esplanada, Elvira alterna entre a leitura dos poemas de Maria e umas lambidelas num gelado de limão.

-Oh!, dear God! Por momentos pensei estar a ler o Nuno. O mesmo estilo. A fragmentação do eu. Conheces?

-Quem? Não.

                - Procura na rede, nas minhas amizades: Nuno Fernando Filho. Vais ver se não tenho razão.

                E, Maria, assim fez. O impacto da leitura dos fragmentos dele foi tão forte que, de imediato, lhe deixou uma mensagem de parabéns no mural.

 

                  A Literatura é uma área pela qual me interesso bastante. Com tempo irei explorar mais a sua obra, pois gosto da sua forma de estar na escrita. O meu eu projecta na minha mente o Nuno como um homem fiel à natureza do ser humano e vejo na sua escrita ( aquela que li ) essa fidelidade, sem  filtros, nem hipocrisia...a alma em estado bruto. Despertou o meu interesse, também, a forma como brinca com as palavras, conseguindo expressar sentimentos e pensamentos com uma precisão acutilante. Espero poder continuar a usufruir das suas palavras. Quando der um curso de escrita criativa nesta cidade, informe. Parabéns e cumprimentos.

Maria Sousa ”

 Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce.Porque o milagre é acreditar."

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Capítulo 24


Capítulo 24

-Bem, pela sua ficha, vejo que se chama Filipe Barros. Tem 33 anos, dois filhos adolescentes e é casado. Correcto?

                -Sim, Sr. Dr.

                - Está aqui porque…

                -Hmmm… bem… eu gostaria de sofrer um desgosto tal que me permitisse tornar esquizo… digo, esquizofrénico.

                -Sim. Indicaram-lhe o nosso consultório de clarividência? Quem?

                -Um amigo dum amigo que esteve aqui a encomendar um desgosto.

                -Ah!, um amigo dum amigo…está a par dos procedimentos?

                -Não. Estou totalmente a zero; mas quero muito sofrer um desgosto.

                -Antes de lhe passarmos a receita para a sua desventura, precisamos que responda a um questionário simples. Tem de ser completamente honesto. De acordo?

                -0k. Força.

                -Então, Sr. Filipe. É feliz no seu casamento?

                -Sim. Não tenho do que me queixar. A minha mulher está um bocadito gorda e até acabada; mas é boa mãe, boa esposa, trata bem da casa, das roupas,  dá para o gasto.

                -E com os seus filhos? Está tudo bem? Dá-se bem com eles?

                -Hummmm! Essa é um pouco difícil de responder; pois , na verdade, não os acompanho muito. É mais a mãe. Sei que passaram de ano, acho eu. P’ra dizer bem a verdade, nem tenho a certeza. Mas parecem-me felizes. Agora que pergunta raramente os vejo, é um facto. A mãe trata bem deles e eu…bem, eu…até esqueço  que tenho dois filhos. Se me dou bem com eles? Nem bem, nem mal…apercebi-me agora mesmo que pouco tenho estado com eles, por isso não dá para saber.

                - E no emprego? Como estão as coisas? É seguro? É um bom profissional?

                -Sim, sim. Aí sou 100% eficiente. Não posso perder o meu ganha-pão.

                -Está apaixonado por alguém, neste momento?

                -Assim, apaixonado de caixão à cova? Não. Completamente disponível no coração.

                -E amigos? Tem?

                -Sim. A troupe do costume. Todas as sextas-feiras saímos p’ra noite; e sábados e domingos o futebol é sagrado. São amigalhaços do peito mesmo. Não somos nada uns sem os outros.

                -Empréstimos bancários?

                -Sim. A casa , o carro e ainda uns cartões de crédito a pagar.

                -Quanto paga pela sua casa ao banco?

                -400 euros.

                -E pelo carro?

                -150 euros mensais.

                -Ok, Sr. Filipe. Agora há um segundo aspecto que temos de falar.

                -Diga, diga, Sr. Dr.

                -Tudo, mesmo tudo, o que se passar neste consultório não pode ser comentado lá fora. Sigilo absoluto. Nem nomes, nem receitas, nem verbas, nada. Só assim é que avançamos com o negócio. Entendido?

                -Sim, Sr. Dr. ; mas garante que saio daqui esquizo?

                -Claro que sai. É garantido. Tem é de cumprir a receita à risca, de forma a evitar os efeitos secundários. Se não cumprir à risca, além de não se tornar esquizo, pode sofrer danos irreparáveis na sua vida e na sua pessoa . Compreende?

                -Sim, compreendo. Sei que é assim.

                -Como é que sabe?

                -Comenta-se lá fora.

                -Mais uma vez, Sr. Filipe. O que se passar aqui tem de morrer aqui. Nada de comentários no exterior.

                -Não se preocupe, Sr.Dr.

                -Terceiro assunto: o pagamento. O tratamento na totalidade fica por 3000 euros, 500 euros mensais durante seis meses. O ideal é pagar tudo à cabeça.

                -Não tenho hipótese. Ou facilitam, ou tenho de desistir do negócio.

                -Tem hipótese, tem. O pagamento é compatível com o tratamento que lhe vamos dar.

                -É? Tenho?

                -Sim. Passo a explicar. Permite-me?

                -Sim, sim, Sr. Dr.

                -Quer o seu desgosto, não quer? Quer ser esquizo?

                -Sim, é tudo o que quero. Por isso aqui estou. Quando conseguir ser esquizo, vou tornar-me clarividente. Posso prever o futuro e ganhar milhões, não é?

                -A ideia é essa. Mas para ganhar muito vai ter de perder muito primeiro. Vai ter de sofrer o seu desgosto. Bater no fundo? Está ciente disso?

                -Sim, sim, Sr. Dr.;  diga lá, qual é a receita?

                - Então, preste atenção. Já está aqui tudo alinhavado neste papel. E tem de seguir à risca.

                -Ok, ok. Diga, Sr. Dr.

                -Primeiro, o dinheiro que supostamente iria depositar no banco para pagar a casa e o carro, vai entregá-lo aqui: 500 euros mensais, durante 6 meses.

                -Mas… assim corro o risco de ficar sem a casa e sem o carro.

                -A ideia é essa. Vamos começar por aí. Quer o seu desgosto ou não?

                -Ah!, estou a perceber. Ok, de acordo.

                -Quando lhe tirarem a casa e o carro, a sua família vai desmembrar-se. A sua mulher gorda vai pedir o divórcio, e os seus filhos esquecidos vão desaparecer de vez.

                -Maravilha!

                -Então? É suposto ser um desgosto…

                -Ah!, sim, sim. Um desgosto. Tem de ser mais forte do que isso.

                -E vai ser. O seu patrão, quando se aperceber de que lhe estão a descontar parte do salário para pagar dívidas, vai despedi-lo.

                -Oh!, isso não!

                -Oh!, isso sim. Aí é que está o seu ponto fraco: o seu desgosto. Mas lembre-se de que se tornará forte, pois vai sofrer imenso com a situação. Nessa altura, surge a circunstância oportunista. Sem casa, sem carro, sem mulher, sem filhos, sem emprego, sem amigos, totalmente na miséria e só, nessa altura,  o Filipe torna-se esquizofrénico; mas tenha noção de que ainda demora a acontecer.

                -Demora?

                -Sim. Há pessoas mais resistentes do que outras. Há pessoas que precisam de  estar na mó de baixo, no fundo do poço, meses e até anos.

                -Anos???

                -Quer ser esquizo ou não? Lembre-se que, no momento em que se tornar esquizo, recupera tudo.

                -Sim, sim. Há apenas um senão. Os meus amigos não me vão abandonar. Vão querer deitar-me a mão.

                -Não esteja tão certo disso. Já vimos esta receita funcionar inúmeras vezes. Garanto-lhe que ninguém irá deitar-lhe a mão. Ninguém deita a mão a um sem-abrigo.

                -Sem-abrigo?

                -Sim. É nisso que se tornará, entretanto.  Irá mesmo ficar convencido de que perdeu tudo em troca de nada. É essa a ideia. Porque enquanto pensar que no fim valerá a pena, a receita não funcionará. Terá de chegar aquele ponto de duvidar de nós, da receita, ao ponto da descrença total, do desespero absoluto. E atenção aos efeitos secundários.

                -Efeitos secundários?

                -Sim. Haverá momentos em que, como disse, duvidará da receita e quererá recuperar a sua vida e desistir de sofrer o desgosto. Lembre-se: o caminho é em frente. Não pode desistir. A desistência não trará a sua vida de volta: nem casa, nem carro, nem família, nem emprego, nem amigos. A desistência só lhe trará a garantia de que não se transformará num esquizo. O efeito secundário é a morte. Os desistentes perante a  perda total suicidam-se.

                -Sim, eu sei. Já vi acontecer.

                -Ainda está determinado em ser esquizofrénico?

                -Sim. A minha vida não vale um corno e não, por isso seja o que tiver de ser. Esquizo serei. Não sou desistente. Leve o tempo que levar.

                -Ora, assim é que é falar. Mais uma coisa. Se lhe perguntarem para onde desvia o dinheiro, não diga que é para o nosso consultório. Tem de o entregar em envelope fechado a mim, no parque. Diga que o gasta no jogo.

                -Ok, é um pouco estranho, mas ok.

                -Faz parte da receita. Se disser que encomendou um desgosto e está a pagar por isso, não o vão levar a sério. Aí sim, tentarão ajudá-lo. Tem de apimentar o mal-estar dizendo que é viciado no jogo. Assim, mais facilmente , perderá tudo.

                -Oh!, compreendo.

                -Negócio feito, então?

                -Sim, Sr.Dr.; negócio feito. O Sr.Dr. é esquizofrénico e clarividente. Se me diz que  seguindo esta receita, não desistindo, me vou tornar esquizo, eu acredito.

                -Comece já no final deste mês a seguir a receita. Bom tratamento e força. Vêm tempos duros por aí. Nada de fraquejar. Lembre-se: se desistir perde tudo na totalidade.

                -Ok. Obrigada, Sr.Dr. Até breve.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

domingo, 30 de novembro de 2014

Capítulo 37


Capítulo 37
              Maria, de chave cambaleante, abriu a porta. Toda ela tremia perante a ameaça tão próxima e familiar. Uma arma é sempre uma arma, esteja na mão de quem estiver. É a morte a anunciar-se. Desconhecia se, de facto, iria conseguir demover o companheiro de uma vida daquele seu intento, daquela demoníaca hora que se apoderou da sua razão. Não tinha outra opção. Ou tudo ou nada. Entrou, como que anestesiada, numa espécie de constante chegar a lado nenhum, aterrorizada pelo revólver de calças que insistia em vociferar: “ mata-os! ”. O maldito envenenava o dono das calças: “ Como podes andar na rua de cabeça erguida? Como podes enfrentar-te e ao mundo sabendo que te tomaram a mulher? Como podes ousar sequer acordar sabendo-te despojado da tua casa, da vida que tinhas com os teus filhos? Mata-os!”

                Francisco apontou novamente a ansiosa bala à cabeça de Maria. Nesse instante, a espiral petrificou-se no búzio, orgulhosamente, exposto no parapeito da lareira, com o letreiro: vende-se a quem, com amor, quiser comprar. A filha de ambos havia caçado este tesouro raríssimo no mar gelado do norte do país: “ Foram os piratas das Caraíbas que o abandonaram aqui, papá!” O cheiro a iodo. O lodo a diluir-se. E a espiral helicoidal no interior do seu sistema auricular sugava o som das vagas do Além, do p’ra lá do horizonte, do p’ra lá da membrana. Ensurdeceu para o mundo. Retumbou o eco dos oceanos misteriosos e profundos da providência. Soltou a visão caleidoscópica de um redemoinho, a espiral no sentido decrescente, na direcção do abismo. Do outro lado, soavam os ventos tempestuosos em mar alto, vibrações timbradas e fustigadas pelo negrume da nebulosa a formar-se ad eternum: o furacão. A espiral crescente a suspender a ordem pacífica e provisória , a força, simultaneamente, criadora e destruidora.

                Maria, colocada bem no centro de todas estas espirais, testemunhava (alerta, zonza e confusa) as suas movimentações; embriagava-se delas em todas as direcções. Comprimiu-se na alucinação do buraco negro a rodar centrifugamente em torno do seu espaço, sugada pelo redemoinho. O símbolo cósmico, fonte de luz, que carrega em si a viagem da alma até à morada do criador. A permanência do ser sob a fugacidade do momento. A bala a olhar para ela.

                -Baixa a arma, Francisco. Tu não queres fazer isso.

                -Que te aconteceu? Não escutaste nada do que eu disse, pois não?

                -Disseste alguma coisa?

                -Para onde olhas tanto, mulher? Estás com uma arma apontada à cabeça e ages como se nada fosse. Pareces uma zombie.

                -É o búzio, Francisco. O búzio da nossa filha.

                -Ah!, “Vende-se a quem, com amor, quiser comprar”. O búzio.

                -Sim. O búzio da nossa filha está a soprar-me ao ouvido umas coisas que deverias saber.

                -Enlouqueces, Maria?

                -Escuta-o. Carrega-me ao colo nos murmúrios com que me brinda. É Deus. Ouve.

                -Não ouço nada, Maria.

                -Escuta. Tudo isto que nos está a acontecer é maior do que nós dois. Não é daqui. Não é da terra, percebes?

                -Não. Não dizes coisa com coisa.

                -Escuta-me, por favor.

                -Fala. Estou a ouvir.

                - O búzio soltou alguns nomes na minha mente: Jesus Cristo, João Baptista, Joana D’Arc, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá.

                -Sim, sei, e…

                -A espiral solidificada no interior do búzio ecoa continuamente, ao meu ouvido,  os feitos magníficos destas pessoas. Sacrificaram as suas vidas em prol da humanidade. São detentoras de um coração enorme na sua entrega incondicional ao mundo por amor ao próximo. Não se trata de posse, Francisco. Não se trata de “é meu!”. Trata-se de desprendimento, de libertar, de sofrer nesse soltar para ver o outro feliz e bem. Ninguém se sente feliz de verdade se enjaular quem diz que ama. Matar, então! Ora pensa lá bem.

                -Sempre foste uma obcecada por espirais, mulher!

                -Queres saber porquê? Vou desenhar-te uma. Repara. Sabes o que simboliza?

                - Não. Tenho a sensação de que me vais explicar.

                -Experimenta desenhar uma, enquanto te explico. Começa de um ponto, de um centro, e vai girando em torno desse ponto; vai soltando todos os teus problemas, receios, constrangimentos, mágoas. Toda a tua dor : nesse movimento giratório. Repara que, se quiseres, a espiral não tem fim. É uma sensação de libertação, de serenidade, de tranquilidade. É magnífico. É catártico.

                -Vamos lá ver isso. Ok. Já  comecei a desenhá-la. Experimento.

                -A espiral simboliza a evolução num movimento ascendente e progressivo, normalmente positivo e construtivo. Dá a impressão de que existem diversos patamares em altura a um mesmo nível de posição espacial: várias dimensões. Tudo na vida, embora se mantendo na mesma posição, evolui para cima, no sentido ascendente, compreendes? Nada é estático. Nada está parado; embora, por vezes, aparente estar. Olha o planeta Terra, por exemplo. Gira em torno de si mesmo e, de forma elíptica, em torno do sol. No entanto, a sensação que temos é a de que está parado e que o que gira é o sol ou a lua.  É próprio das pessoas também evoluírem.

                -Não percebo onde queres chegar.

                -Quando nos conhecemos, Francisco, éramos adolescentes. Mediante o que tínhamos vivido até aí, identificámo-nos, aproximámo-nos, amámo-nos. Entretanto a vida não parou, Francisco. Tal como essa espiral que estás aí a construir, a vida segue o seu rumo. As pessoas continuam a ser desenhadas no seu percurso elíptico em direcção ao infinito; continuam a interagir com o meio cósmico, com a realidade em redor.

                -Sim, explica-te melhor.

                -Tal como essa espiral, as pessoas buscam, procuram e encontram-se, em determinado momento, com outras pessoas com as quais se identificam. Sabes disso, perfeitamente.

                -Sei?

                -Sabes, Francisco. Eu refresco-te a memória. Nunca te falei, mas sei que tens te encontrado com algumas pessoas fora do nosso casamento.

                -Certo. Não te vou mentir.

                -A diferença entre nós é que, quando aconteceu comigo, eu confidenciei-te. És acima de tudo o meu companheiro, o meu amigo.

                -Mas isso dói, Maria.

                -Eu sei. Dói mais sabermo-nos enganados. Eu não te menti, nunca. Posso ter omitido uns tempos; mentir, não. E nunca te apontei uma arma à cabeça.

                - Desculpa, Maria.

                -Eu conheço-te. Sei que não serias capaz.

                -Gosto de desenhar esta espiral. Tens razão, acalma. Está a ficar bonita. Ainda gostas de mim?

                -Claro que sim. Nunca se deixa de gostar. Vivemos bons momentos juntos. A espiral plana está associada a movimentos de evolução e de involução. Todos nós temos esses momentos em que progredimos e regredimos. A espiral dupla traduz o todo, a união dos contrários, o nascimento e a morte. Assim como a vida , a espiral projecta-se para o infinito e, aparentemente, não tem fim.

                -Verdade. Se quiser posso continuar nesta cena horas. Bem…horas, não. Até acabar o papel.

                -Ora aí está. Não se trata das pessoas só. Pressinto que o papel está a acabar. O mundo. Algo de maior vai passar-se.

                -A sério?

                -Sim. Vamos aguardar p’ra ver. Está p’ra breve uma mudança radical.

                -Gostas?

                -Está fantástica a tua espiral.  Parece uma helicoidal, em forma de hélice. Estas aparecem em várias culturas.  Está associada à lua, à água, ao feminino, à evolução cíclica, à vida e à fertilidade. E é representada em muitas divindades femininas do paleolítico. É o símbolo erótico da vulva. Também ela uma espiral. A origem: por onde nascem os bebés.

                -Muito me contas.

                -Nas filosofias hindus surge associada aos movimentos dos chacras. Na Índia, a espiral é a energia Kundalini, que dorme enroscada (como a serpente ígnea) na base da coluna vertebral, em estado latente, pronta a ser despertada.

                -Realmente assemelha-se ao enroscar de uma serpente.

                -Apesar de ser movimento constante, indica equilíbrio e ordem inseridos numa permanente mudança.

                -Percebo o que estás a querer dizer-me, Maria. Sempre foste uma pessoa especial. Não quero perder-te, é isso.

                -Francisco, não vais perder-me.  Tu tens o teu lugar em mim. Nunca se sai de um amor. O que muda é a forma como vivemos esse amor, a forma como nos relacionamos. O amor que sinto por ti, é. Não vai deixar de ser nunca. É calmo, é de irmãos, é de sangue. Estarei sempre disponível para ti, para o que precisares.

                -Eu sei. Conheço-te bem.

                -Tens de compreender que evoluímos, temos mais quinze anos de vivências, desde o primeiro momento em que nos vimos. É natural que estejamos diferentes. Tudo , no universo, se transforma. Nada é imutável. Nós mudamos e crescemos. Não vale a pena insistir numa forma de relacionamento que já não é a que encaixa em nós. Também tu tens sentido desejo por outras mulheres, sabes disso. É isso que sentes que tens de respeitar.

                -Sei, sim.

                -Eu estarei aqui, no meu lugar, na minha nova posição. Serei sempre tua amiga, tua irmã. Não me perdes. Ganhas-me numa outra dimensão, mais madura, mais saudável.

                -Eu sei. Dá-me tempo. Tudo se compõe. Esta espiral está fantástica.

                -A espiral plana representa o labirinto e tanto pode indicar expansão  como compressão para o centro. Em África, em certas tribos, é o deus masculino, o movimento das almas e dos espíritos, a criação da vida e do mundo. Em culturas muito antigas, representa relógios solares; e como dança do solstício provoca êxtase, facilita a evasão do mundo terrestre e a invasão do Além.

                -Toda esta explicação por causa dos murmúrios de um búzio à venda para quem, com amor, o quiser comprar.

                -É mesmo.

                -Vais mesmo fazer vida com ele?

                -Se ele me quiser. É mesmo dele a filha que trago dentro de mim.

                -Não é minha?

                -Não. Fiz o teste e deu negativo. Entretanto, tenho estado com o Nuno.

                -(…)

                -Eu sei que dói, mas é isto que sinto. Vamos ter juízo porque os nossos filhos precisam da mãe viva e do pai fora da prisão. E agradecem a ausência de traumas maiores do que a  própria vida.

                -Certo, desculpa.

                -Eu abro-te a porta.

                -Ok.

                -Oh!, estavas aí, Nuno?

                - Está tudo bem?

                -Sim. Não se preocupem, não vos causarei mais problemas. Maria, sossega. Está tudo bem.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Capítulo 17 ( continua...)


-É ela? É mesmo ela. É linda. Estou fodido. Deixa-me estar de costas. Nem sei como hei-de reagir. Já deve estar a subir as escadas. P’ra que é que a convidei para este curso? Já sabia que isto ia acontecer. Já supunha. Maio, o mês do mais. É hora do mais.

-Acalma-te, rapaz. Cabeça erguida. Área de másculo. Olha o estatuto. Sou eu, o teu amigo, o velho, aquele que sabe. Deixa-te estar de costas. A ver o que ela faz. Assim, já ficas a saber quem ela é de verdade. E aproveita o mais em Maio. Se gostas assim tanto dela, aproveita. Tira o máximo de proveito do tempo que te é concedido com ela, pois esse não volta mais. A tômbola parou, mas vai voltar a rodar. Aproveita. Será que te ignora como todos os outros? Vamos já ver isso. Está a chegar. Mantém-te de costas. Ignora-a. É agora.

-Nuno?

-Sim, sim.

                -Maria, prazer!

                -Ah!, olá. Pode sentar. Acomode-se. O curso começa dentro de instantes.

                -É linda , velho. Viste aqueles olhos? Quase que induzem um gajo em hipnose de tão verdes, de tão buraco negro. A espiral. A minha Maria, a personagem do meu primeiro livro, “carnificada”. Voltou a acontecer. Acho que despertei algo. Reparaste como sorriu? Sorriso franco. Adoro sorrisos. E as covas na face. É linda. E tão pequena. Tão pequena. Os cabelos: são selvagens. Parece uma leoa. Cheira bem. A pele dela, o toque da pele dela quando me beijou: cheira bem. Tem rugas de vida, trabalho e dor em torno dos olhos. É madura. É como eu gosto. Tão cheirosa.

                -Tu continuas o mesmo desengonçado. Tão bruto a beijar. Tão desajeitado. Não é preciso tanta força. Até parece que nunca beijaste. E custou-te baixar a cabeça e o corpo para ela te chegar. Custou-te. Até parece que não gostas de beijos. Mortinho que estás por mais toque dela.

                -Cala-te um pouco, agora, velho. Sabes que, sendo ela, a do meu livro, vou fazê-la sofrer. É o que está escrito. E não quero fazê-la sofrer. A aura dela é mercúrio: queima. Custou-me baixar porque tostei. O melhor é afastar-me. Já me arrependi de a chamar. Tenho de trabalhar. Vou ser-lhe útil. Vou ajudá-la. Começo pelos sinais de pontuação. Ela falha muito nisso. Mas, pelo ar, já vi que é esperta. Ora repara lá tu, velho. Não posso olhá-la directamente nos olhos senão entro em transe e denuncio-me. E não é por aqui que eu quero ir. Tenho a Joana. Tenho uma carreira a manter. Estou fodido. É forte. E sei que vou fazê-la sofrer. É o que está escrito.

                -Pois vais. Mas não é pelo que está escrito no livro. É pelo que tu és. Perante sentimentos fortes, avassaladores,  és um cobarde. Sempre foste. Vais ignorá-la. Vais querer fugir-lhe. Vais querer fugir-te. Sabes que alimentar um sentimento intenso por ela arruma contigo. E tu queres dominar a situação, não é? És um cobarde. Criar um mundo completamente diferente do anterior dói; pôr um ponto final no antes dói. E tu és cobarde. Não vais querer criar esse mundo. Vá! Começa lá o jogo! Já tens tudo planeado. Começa a mandar as mensagens subliminares para o intelecto dela. É esperta: a dada altura vai perceber.

                - Os dois pontos são um elo de ligação. Por exemplo: “Não sabe o que fazer: parvo.” Pronto, comecei.

                -Olha-a. Podes olhar agora que ela não está a ver. Está concentrada no exercício. Repara como põe a mão esquerda no peito quando escreve. É tique. Cá p’ra mim está a segurar o ritmo cardíaco. Não deve conseguir estar no mesmo espaço físico que tu. Sente-se demasiado próxima. Não a sentes constrangida? Olha como respira fundo. Até parece que tem falta de ar.

                -Cala-te, velho. Já estás a começar a enervar-me. Vês o que fizeste? Ela topou que eu estava a olhar. Merda! Estou a queimar. Vê lá se não tenho gotas de suor a escorrer pela cara. Caraças, esqueci o livro que me encomendou no carro.

                -Fácil. No final, leva-la contigo até ao carro. Aproveitas o mais em Maio: dás-lhe uns amassos. ‘Tás mortinho por isso e há meses. Sempre a sonhar acordado com a foto dela, com o sorriso contido dela, com as letras dela. Agora tens a tua Maria,  aí, em pele, carne e osso. O que te impede?

                -É casada, velho. Não vês? É casada. Apanhei um desgosto quando vi a aliança na mão esquerda. É casada. E não só isso. Sabes bem que entretanto as circunstâncias modificaram.

                -E… já não seria a primeira a apaixonar-se por ti, mesmo casada. E o escritor és tu. Deverias dizer: está casada. Não: é. Está. Tão depressa está como pode deixar de estar. Repara como gosta de ti. É óbvio. Sentes? Não sentes o algo que percorre o trajecto que vai de um ao outro, dela até ti e vice-versa. Não sentes o algo? Olha as partículas de luz a moverem-se. Uma espécie de aurora boreal, uma poeira entre auras.

                - Sinto, mas não quero sentir. Vejo, mas não quero ver. E até ouço o vibrar da corda, o eco do metal tibetano, mas não quero ouvir. Está casada. Arrumou. Há muita mulher por aí. E eu tenho a Joana: a Joana  que já não é a Joana. A Joana que já não é a Joana, as fãs, e a minha carreira já dão muito que fazer.

                -E a letra dela… tão traço, tão feminina, tão nevoeiro: mais de metade do desenho das letras ficam no vácuo. O movimento da mão já não as capta, só restos, só vestígios do que um dia foram, símbolos completos do que está dentro e perde força à chegada. É uma estudiosa, sem dúvida. É uma viciada em escrita. És tu. Pára de a contemplar. Vai apanhar-te outra vez.

                - Já parei. Ela não olha, mas está a ver. Eu sinto-a.

                - Trouxe o livro?

                -Sim, sim. Está no carro. Mas a Maria espera e eu vou buscá-lo num instante.

                -Não. Eu vou consigo até ao carro. Gosto de caminhar na minha cidade.

                -Ok. O seu raio-x está bom.

                -Como?

                -O seu texto está bom. Tem qualidade.

                -Obrigada. Não repare. Estou a tomar comprimidos; por isso estou um pouco lenta.

                - Mas porquê? Anda triste, é?

                -Mais ou menos.

                -Comprimidos não interessam a ninguém.

                -Eu sei. Mas tem de ser. Costuma vir cá muitas vezes?

                -Cada vez mais. Uma cidade pequena tem tudo o que uma cidade grande tem.

                -Quanto é o livro?

                -19 euros. Mas este é oferecido.

                -Oh!, não. Nem pensar. É o seu ganha - pão.

                -Ok. Quer que a leve até ao carro. Entre, entre. Eu levo-a.

                -Agradecida. Estou com um bocado de medo de ir sozinha. Está num sítio feio.

                -Mais uma coincidência. Tem um carro da marca do meu.

                -É? Não sei. Eu de carros percebo pouco. Bem. Obrigada, mais uma vez. Gosto muito de si.

                -Eu também gosto muito de si.

                -Viste? Deu-te um beijo na cara. E demorado. E afagou-te. E tu, como sempre: desastrado. Parecias uma presa a fugir do predador. Até a deixaste sem jeito. Foi só um beijo de agradecimento. Um carinho. E tu: bruto. Fugiste com a cara. Acho que até a magoaste nos lábios com a barba de tanta velocidade na fuga. Foi só um beijo de agradecimento.

                -Pára, velho. Tenho a Joana que já não é a Joana à espera. Pára.

                -Não gostaste da atitude? Não mintas.

                -Claro que gostei. Um beijo roubado, se consentido, deixa de ser um beijo roubado. Claro que gostei. O problema é esse. Gostei até demais. Gosto da loucura dela. Gosto muito dela. Não ouviste? Mas estou assustado com a ousadia e a ternura dela. E disse-me: “gosto muito de si”. Deixa-me sonhar, velho, apenas sonhar. Tenho a Joana, e esta é casada.

                -E as coincidências? A mesma linguagem textual, o mesmo ímpeto, a mesma freguesia, a mesma cidade, as fobias, a marca do carro, o feitio. Onde fica isso tudo? Não achas que são coincidências a mais?

                -Meras coincidências, velho. A quente assusta. Mas a frio são meras coincidências, nada mais. Tenho de ir buscar a Joana e mais alguém. Não te esqueças de que está grávida. Agora cala-te com a Maria que a Joana já fez longa viagem p’ra chegar até aqui.

                -Grávida? E como conseguiste essa proeza?

                -Eu menti-te, velho. Eu tomava medicação para a esquizofrenia. Menti também aos investigadores. Mas foi por pouco tempo. Já tinham saído os relatórios. Eles perceberam que a minha disfunção eréctil estava relacionada com a toma da medicação e com traumas de infância. Deixei de a tomar e passei a tomar a Maria. Foi assim que engravidei a Joana. E estou feliz. Vou ser pai pela primeira vez na vida. Estou radiante. Pensava precisamente o oposto: que não queria filhos. O meu relógio biológico pregou-me uma partida. Estou a adorar. Vou ser pai!

                -Estás a adorar? Tu? Tu que um dia disseste à Joana que se engravidasse teria de fazer um aborto.

                -Ai dela! Quero este filho mais do que tudo na vida. Quero sentir o que é amar e ser amado por um filho. Se há coisa que os versos da Maria me ensinaram foi isso: curiosidade em sentir o amor pai-filho.  No amor, é só o que me resta saber. Amar e ser amado por um filho. Pai: amo-te. Filho: amo-te. A génesis da vida.

 

                Ao ver-te, meu amor, tudo parou: tudo acelerou.

                Nem sei se diga, nem sei se faça,

                Nem sei se siga, nem sei se nasça.

                Tudo começou e tudo acabou.

                Ao ver-te, meu amor, o meu coração rompeu:

                Em todas e direcção alguma.

                Nem sei se corra, nem sei se pare,

                Nem sei se mate ou se morra.

                Ao ver-te, meu amor, a minha loucura gemeu

                Na tremura em  que te senti,

                Em mim teu olhar doeu;

                Petrifiquei : ardor suado - vivo

                Consumido, amor, no fado meu: sofro .”

 

                (NFF)

 

                -P’ra ti Maria, pelo beijo que me roubaste e que senti cá dentro, bem fundo. Sei que te minto, mas tu sabes. Tu sabes. Pronto: postado. Meia-noite e meia. Pode ser que ainda o veja hoje. Não te posso dar a minha pessoa, mas posso, momentaneamente,  dar-te toda a minha alma. Toma-a. É tua, Maria.

 
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."