Capítulo 24
-Bem, pela sua
ficha, vejo que se chama Filipe Barros. Tem 33 anos, dois filhos adolescentes e
é casado. Correcto?
-Sim,
Sr. Dr.
-
Está aqui porque…
-Hmmm…
bem… eu gostaria de sofrer um desgosto tal que me permitisse tornar esquizo… digo,
esquizofrénico.
-Sim.
Indicaram-lhe o nosso consultório de clarividência? Quem?
-Um
amigo dum amigo que esteve aqui a encomendar um desgosto.
-Ah!,
um amigo dum amigo…está a par dos procedimentos?
-Não.
Estou totalmente a zero; mas quero muito sofrer um desgosto.
-Antes
de lhe passarmos a receita para a sua desventura, precisamos que responda a um
questionário simples. Tem de ser completamente honesto. De acordo?
-0k.
Força.
-Então,
Sr. Filipe. É feliz no seu casamento?
-Sim.
Não tenho do que me queixar. A minha mulher está um bocadito gorda e até
acabada; mas é boa mãe, boa esposa, trata bem da casa, das roupas, dá para o gasto.
-E
com os seus filhos? Está tudo bem? Dá-se bem com eles?
-Hummmm!
Essa é um pouco difícil de responder; pois , na verdade, não os acompanho
muito. É mais a mãe. Sei que passaram de ano, acho eu. P’ra dizer bem a
verdade, nem tenho a certeza. Mas parecem-me felizes. Agora que pergunta
raramente os vejo, é um facto. A mãe trata bem deles e eu…bem, eu…até esqueço que tenho dois filhos. Se me dou bem com
eles? Nem bem, nem mal…apercebi-me agora mesmo que pouco tenho estado com eles,
por isso não dá para saber.
-
E no emprego? Como estão as coisas? É seguro? É um bom profissional?
-Sim,
sim. Aí sou 100% eficiente. Não posso perder o meu ganha-pão.
-Está
apaixonado por alguém, neste momento?
-Assim,
apaixonado de caixão à cova? Não. Completamente disponível no coração.
-E
amigos? Tem?
-Sim.
A troupe do costume. Todas as sextas-feiras saímos p’ra noite; e sábados e
domingos o futebol é sagrado. São amigalhaços do peito mesmo. Não somos nada
uns sem os outros.
-Empréstimos
bancários?
-Sim.
A casa , o carro e ainda uns cartões de crédito a pagar.
-Quanto
paga pela sua casa ao banco?
-400
euros.
-E
pelo carro?
-150
euros mensais.
-Ok,
Sr. Filipe. Agora há um segundo aspecto que temos de falar.
-Diga,
diga, Sr. Dr.
-Tudo,
mesmo tudo, o que se passar neste consultório não pode ser comentado lá fora.
Sigilo absoluto. Nem nomes, nem receitas, nem verbas, nada. Só assim é que
avançamos com o negócio. Entendido?
-Sim,
Sr. Dr. ; mas garante que saio daqui esquizo?
-Claro
que sai. É garantido. Tem é de cumprir a receita à risca, de forma a evitar os
efeitos secundários. Se não cumprir à risca, além de não se tornar esquizo,
pode sofrer danos irreparáveis na sua vida e na sua pessoa . Compreende?
-Sim,
compreendo. Sei que é assim.
-Como
é que sabe?
-Comenta-se
lá fora.
-Mais
uma vez, Sr. Filipe. O que se passar aqui tem de morrer aqui. Nada de
comentários no exterior.
-Não
se preocupe, Sr.Dr.
-Terceiro
assunto: o pagamento. O tratamento na totalidade fica por 3000 euros, 500 euros
mensais durante seis meses. O ideal é pagar tudo à cabeça.
-Não
tenho hipótese. Ou facilitam, ou tenho de desistir do negócio.
-Tem
hipótese, tem. O pagamento é compatível com o tratamento que lhe vamos dar.
-É?
Tenho?
-Sim.
Passo a explicar. Permite-me?
-Sim,
sim, Sr. Dr.
-Quer
o seu desgosto, não quer? Quer ser esquizo?
-Sim,
é tudo o que quero. Por isso aqui estou. Quando conseguir ser esquizo, vou
tornar-me clarividente. Posso prever o futuro e ganhar milhões, não é?
-A
ideia é essa. Mas para ganhar muito vai ter de perder muito primeiro. Vai ter
de sofrer o seu desgosto. Bater no fundo? Está ciente disso?
-Sim,
sim, Sr. Dr.; diga lá, qual é a receita?
-
Então, preste atenção. Já está aqui tudo alinhavado neste papel. E tem de
seguir à risca.
-Ok,
ok. Diga, Sr. Dr.
-Primeiro,
o dinheiro que supostamente iria depositar no banco para pagar a casa e o
carro, vai entregá-lo aqui: 500 euros mensais, durante 6 meses.
-Mas…
assim corro o risco de ficar sem a casa e sem o carro.
-A
ideia é essa. Vamos começar por aí. Quer o seu desgosto ou não?
-Ah!,
estou a perceber. Ok, de acordo.
-Quando
lhe tirarem a casa e o carro, a sua família vai desmembrar-se. A sua mulher
gorda vai pedir o divórcio, e os seus filhos esquecidos vão desaparecer de vez.
-Maravilha!
-Então?
É suposto ser um desgosto…
-Ah!,
sim, sim. Um desgosto. Tem de ser mais forte do que isso.
-E
vai ser. O seu patrão, quando se aperceber de que lhe estão a descontar parte
do salário para pagar dívidas, vai despedi-lo.
-Oh!,
isso não!
-Oh!,
isso sim. Aí é que está o seu ponto fraco: o seu desgosto. Mas lembre-se de que
se tornará forte, pois vai sofrer imenso com a situação. Nessa altura, surge a
circunstância oportunista. Sem casa, sem carro, sem mulher, sem filhos, sem
emprego, sem amigos, totalmente na miséria e só, nessa altura, o Filipe torna-se esquizofrénico; mas tenha
noção de que ainda demora a acontecer.
-Demora?
-Sim.
Há pessoas mais resistentes do que outras. Há pessoas que precisam de estar na mó de baixo, no fundo do poço, meses
e até anos.
-Anos???
-Quer
ser esquizo ou não? Lembre-se que, no momento em que se tornar esquizo,
recupera tudo.
-Sim,
sim. Há apenas um senão. Os meus amigos não me vão abandonar. Vão querer
deitar-me a mão.
-Não
esteja tão certo disso. Já vimos esta receita funcionar inúmeras vezes.
Garanto-lhe que ninguém irá deitar-lhe a mão. Ninguém deita a mão a um sem-abrigo.
-Sem-abrigo?
-Sim.
É nisso que se tornará, entretanto. Irá
mesmo ficar convencido de que perdeu tudo em troca de nada. É essa a ideia.
Porque enquanto pensar que no fim valerá a pena, a receita não funcionará. Terá
de chegar aquele ponto de duvidar de nós, da receita, ao ponto da descrença
total, do desespero absoluto. E atenção aos efeitos secundários.
-Efeitos
secundários?
-Sim.
Haverá momentos em que, como disse, duvidará da receita e quererá recuperar a
sua vida e desistir de sofrer o desgosto. Lembre-se: o caminho é em frente. Não
pode desistir. A desistência não trará a sua vida de volta: nem casa, nem
carro, nem família, nem emprego, nem amigos. A desistência só lhe trará a
garantia de que não se transformará num esquizo. O efeito secundário é a morte.
Os desistentes perante a perda total
suicidam-se.
-Sim,
eu sei. Já vi acontecer.
-Ainda
está determinado em ser esquizofrénico?
-Sim.
A minha vida não vale um corno e não, por isso seja o que tiver de ser. Esquizo
serei. Não sou desistente. Leve o tempo que levar.
-Ora,
assim é que é falar. Mais uma coisa. Se lhe perguntarem para onde desvia o
dinheiro, não diga que é para o nosso consultório. Tem de o entregar em
envelope fechado a mim, no parque. Diga que o gasta no jogo.
-Ok,
é um pouco estranho, mas ok.
-Faz
parte da receita. Se disser que encomendou um desgosto e está a pagar por isso,
não o vão levar a sério. Aí sim, tentarão ajudá-lo. Tem de apimentar o
mal-estar dizendo que é viciado no jogo. Assim, mais facilmente , perderá tudo.
-Oh!,
compreendo.
-Negócio
feito, então?
-Sim,
Sr.Dr.; negócio feito. O Sr.Dr. é esquizofrénico e clarividente. Se me diz
que seguindo esta receita, não
desistindo, me vou tornar esquizo, eu acredito.
-Comece
já no final deste mês a seguir a receita. Bom tratamento e força. Vêm tempos
duros por aí. Nada de fraquejar. Lembre-se: se desistir perde tudo na
totalidade.
-Ok.
Obrigada, Sr.Dr. Até breve.
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."
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