segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Capítulo 24


Capítulo 24

-Bem, pela sua ficha, vejo que se chama Filipe Barros. Tem 33 anos, dois filhos adolescentes e é casado. Correcto?

                -Sim, Sr. Dr.

                - Está aqui porque…

                -Hmmm… bem… eu gostaria de sofrer um desgosto tal que me permitisse tornar esquizo… digo, esquizofrénico.

                -Sim. Indicaram-lhe o nosso consultório de clarividência? Quem?

                -Um amigo dum amigo que esteve aqui a encomendar um desgosto.

                -Ah!, um amigo dum amigo…está a par dos procedimentos?

                -Não. Estou totalmente a zero; mas quero muito sofrer um desgosto.

                -Antes de lhe passarmos a receita para a sua desventura, precisamos que responda a um questionário simples. Tem de ser completamente honesto. De acordo?

                -0k. Força.

                -Então, Sr. Filipe. É feliz no seu casamento?

                -Sim. Não tenho do que me queixar. A minha mulher está um bocadito gorda e até acabada; mas é boa mãe, boa esposa, trata bem da casa, das roupas,  dá para o gasto.

                -E com os seus filhos? Está tudo bem? Dá-se bem com eles?

                -Hummmm! Essa é um pouco difícil de responder; pois , na verdade, não os acompanho muito. É mais a mãe. Sei que passaram de ano, acho eu. P’ra dizer bem a verdade, nem tenho a certeza. Mas parecem-me felizes. Agora que pergunta raramente os vejo, é um facto. A mãe trata bem deles e eu…bem, eu…até esqueço  que tenho dois filhos. Se me dou bem com eles? Nem bem, nem mal…apercebi-me agora mesmo que pouco tenho estado com eles, por isso não dá para saber.

                - E no emprego? Como estão as coisas? É seguro? É um bom profissional?

                -Sim, sim. Aí sou 100% eficiente. Não posso perder o meu ganha-pão.

                -Está apaixonado por alguém, neste momento?

                -Assim, apaixonado de caixão à cova? Não. Completamente disponível no coração.

                -E amigos? Tem?

                -Sim. A troupe do costume. Todas as sextas-feiras saímos p’ra noite; e sábados e domingos o futebol é sagrado. São amigalhaços do peito mesmo. Não somos nada uns sem os outros.

                -Empréstimos bancários?

                -Sim. A casa , o carro e ainda uns cartões de crédito a pagar.

                -Quanto paga pela sua casa ao banco?

                -400 euros.

                -E pelo carro?

                -150 euros mensais.

                -Ok, Sr. Filipe. Agora há um segundo aspecto que temos de falar.

                -Diga, diga, Sr. Dr.

                -Tudo, mesmo tudo, o que se passar neste consultório não pode ser comentado lá fora. Sigilo absoluto. Nem nomes, nem receitas, nem verbas, nada. Só assim é que avançamos com o negócio. Entendido?

                -Sim, Sr. Dr. ; mas garante que saio daqui esquizo?

                -Claro que sai. É garantido. Tem é de cumprir a receita à risca, de forma a evitar os efeitos secundários. Se não cumprir à risca, além de não se tornar esquizo, pode sofrer danos irreparáveis na sua vida e na sua pessoa . Compreende?

                -Sim, compreendo. Sei que é assim.

                -Como é que sabe?

                -Comenta-se lá fora.

                -Mais uma vez, Sr. Filipe. O que se passar aqui tem de morrer aqui. Nada de comentários no exterior.

                -Não se preocupe, Sr.Dr.

                -Terceiro assunto: o pagamento. O tratamento na totalidade fica por 3000 euros, 500 euros mensais durante seis meses. O ideal é pagar tudo à cabeça.

                -Não tenho hipótese. Ou facilitam, ou tenho de desistir do negócio.

                -Tem hipótese, tem. O pagamento é compatível com o tratamento que lhe vamos dar.

                -É? Tenho?

                -Sim. Passo a explicar. Permite-me?

                -Sim, sim, Sr. Dr.

                -Quer o seu desgosto, não quer? Quer ser esquizo?

                -Sim, é tudo o que quero. Por isso aqui estou. Quando conseguir ser esquizo, vou tornar-me clarividente. Posso prever o futuro e ganhar milhões, não é?

                -A ideia é essa. Mas para ganhar muito vai ter de perder muito primeiro. Vai ter de sofrer o seu desgosto. Bater no fundo? Está ciente disso?

                -Sim, sim, Sr. Dr.;  diga lá, qual é a receita?

                - Então, preste atenção. Já está aqui tudo alinhavado neste papel. E tem de seguir à risca.

                -Ok, ok. Diga, Sr. Dr.

                -Primeiro, o dinheiro que supostamente iria depositar no banco para pagar a casa e o carro, vai entregá-lo aqui: 500 euros mensais, durante 6 meses.

                -Mas… assim corro o risco de ficar sem a casa e sem o carro.

                -A ideia é essa. Vamos começar por aí. Quer o seu desgosto ou não?

                -Ah!, estou a perceber. Ok, de acordo.

                -Quando lhe tirarem a casa e o carro, a sua família vai desmembrar-se. A sua mulher gorda vai pedir o divórcio, e os seus filhos esquecidos vão desaparecer de vez.

                -Maravilha!

                -Então? É suposto ser um desgosto…

                -Ah!, sim, sim. Um desgosto. Tem de ser mais forte do que isso.

                -E vai ser. O seu patrão, quando se aperceber de que lhe estão a descontar parte do salário para pagar dívidas, vai despedi-lo.

                -Oh!, isso não!

                -Oh!, isso sim. Aí é que está o seu ponto fraco: o seu desgosto. Mas lembre-se de que se tornará forte, pois vai sofrer imenso com a situação. Nessa altura, surge a circunstância oportunista. Sem casa, sem carro, sem mulher, sem filhos, sem emprego, sem amigos, totalmente na miséria e só, nessa altura,  o Filipe torna-se esquizofrénico; mas tenha noção de que ainda demora a acontecer.

                -Demora?

                -Sim. Há pessoas mais resistentes do que outras. Há pessoas que precisam de  estar na mó de baixo, no fundo do poço, meses e até anos.

                -Anos???

                -Quer ser esquizo ou não? Lembre-se que, no momento em que se tornar esquizo, recupera tudo.

                -Sim, sim. Há apenas um senão. Os meus amigos não me vão abandonar. Vão querer deitar-me a mão.

                -Não esteja tão certo disso. Já vimos esta receita funcionar inúmeras vezes. Garanto-lhe que ninguém irá deitar-lhe a mão. Ninguém deita a mão a um sem-abrigo.

                -Sem-abrigo?

                -Sim. É nisso que se tornará, entretanto.  Irá mesmo ficar convencido de que perdeu tudo em troca de nada. É essa a ideia. Porque enquanto pensar que no fim valerá a pena, a receita não funcionará. Terá de chegar aquele ponto de duvidar de nós, da receita, ao ponto da descrença total, do desespero absoluto. E atenção aos efeitos secundários.

                -Efeitos secundários?

                -Sim. Haverá momentos em que, como disse, duvidará da receita e quererá recuperar a sua vida e desistir de sofrer o desgosto. Lembre-se: o caminho é em frente. Não pode desistir. A desistência não trará a sua vida de volta: nem casa, nem carro, nem família, nem emprego, nem amigos. A desistência só lhe trará a garantia de que não se transformará num esquizo. O efeito secundário é a morte. Os desistentes perante a  perda total suicidam-se.

                -Sim, eu sei. Já vi acontecer.

                -Ainda está determinado em ser esquizofrénico?

                -Sim. A minha vida não vale um corno e não, por isso seja o que tiver de ser. Esquizo serei. Não sou desistente. Leve o tempo que levar.

                -Ora, assim é que é falar. Mais uma coisa. Se lhe perguntarem para onde desvia o dinheiro, não diga que é para o nosso consultório. Tem de o entregar em envelope fechado a mim, no parque. Diga que o gasta no jogo.

                -Ok, é um pouco estranho, mas ok.

                -Faz parte da receita. Se disser que encomendou um desgosto e está a pagar por isso, não o vão levar a sério. Aí sim, tentarão ajudá-lo. Tem de apimentar o mal-estar dizendo que é viciado no jogo. Assim, mais facilmente , perderá tudo.

                -Oh!, compreendo.

                -Negócio feito, então?

                -Sim, Sr.Dr.; negócio feito. O Sr.Dr. é esquizofrénico e clarividente. Se me diz que  seguindo esta receita, não desistindo, me vou tornar esquizo, eu acredito.

                -Comece já no final deste mês a seguir a receita. Bom tratamento e força. Vêm tempos duros por aí. Nada de fraquejar. Lembre-se: se desistir perde tudo na totalidade.

                -Ok. Obrigada, Sr.Dr. Até breve.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

Sem comentários:

Enviar um comentário