domingo, 30 de novembro de 2014

Capítulo 37


Capítulo 37
              Maria, de chave cambaleante, abriu a porta. Toda ela tremia perante a ameaça tão próxima e familiar. Uma arma é sempre uma arma, esteja na mão de quem estiver. É a morte a anunciar-se. Desconhecia se, de facto, iria conseguir demover o companheiro de uma vida daquele seu intento, daquela demoníaca hora que se apoderou da sua razão. Não tinha outra opção. Ou tudo ou nada. Entrou, como que anestesiada, numa espécie de constante chegar a lado nenhum, aterrorizada pelo revólver de calças que insistia em vociferar: “ mata-os! ”. O maldito envenenava o dono das calças: “ Como podes andar na rua de cabeça erguida? Como podes enfrentar-te e ao mundo sabendo que te tomaram a mulher? Como podes ousar sequer acordar sabendo-te despojado da tua casa, da vida que tinhas com os teus filhos? Mata-os!”

                Francisco apontou novamente a ansiosa bala à cabeça de Maria. Nesse instante, a espiral petrificou-se no búzio, orgulhosamente, exposto no parapeito da lareira, com o letreiro: vende-se a quem, com amor, quiser comprar. A filha de ambos havia caçado este tesouro raríssimo no mar gelado do norte do país: “ Foram os piratas das Caraíbas que o abandonaram aqui, papá!” O cheiro a iodo. O lodo a diluir-se. E a espiral helicoidal no interior do seu sistema auricular sugava o som das vagas do Além, do p’ra lá do horizonte, do p’ra lá da membrana. Ensurdeceu para o mundo. Retumbou o eco dos oceanos misteriosos e profundos da providência. Soltou a visão caleidoscópica de um redemoinho, a espiral no sentido decrescente, na direcção do abismo. Do outro lado, soavam os ventos tempestuosos em mar alto, vibrações timbradas e fustigadas pelo negrume da nebulosa a formar-se ad eternum: o furacão. A espiral crescente a suspender a ordem pacífica e provisória , a força, simultaneamente, criadora e destruidora.

                Maria, colocada bem no centro de todas estas espirais, testemunhava (alerta, zonza e confusa) as suas movimentações; embriagava-se delas em todas as direcções. Comprimiu-se na alucinação do buraco negro a rodar centrifugamente em torno do seu espaço, sugada pelo redemoinho. O símbolo cósmico, fonte de luz, que carrega em si a viagem da alma até à morada do criador. A permanência do ser sob a fugacidade do momento. A bala a olhar para ela.

                -Baixa a arma, Francisco. Tu não queres fazer isso.

                -Que te aconteceu? Não escutaste nada do que eu disse, pois não?

                -Disseste alguma coisa?

                -Para onde olhas tanto, mulher? Estás com uma arma apontada à cabeça e ages como se nada fosse. Pareces uma zombie.

                -É o búzio, Francisco. O búzio da nossa filha.

                -Ah!, “Vende-se a quem, com amor, quiser comprar”. O búzio.

                -Sim. O búzio da nossa filha está a soprar-me ao ouvido umas coisas que deverias saber.

                -Enlouqueces, Maria?

                -Escuta-o. Carrega-me ao colo nos murmúrios com que me brinda. É Deus. Ouve.

                -Não ouço nada, Maria.

                -Escuta. Tudo isto que nos está a acontecer é maior do que nós dois. Não é daqui. Não é da terra, percebes?

                -Não. Não dizes coisa com coisa.

                -Escuta-me, por favor.

                -Fala. Estou a ouvir.

                - O búzio soltou alguns nomes na minha mente: Jesus Cristo, João Baptista, Joana D’Arc, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá.

                -Sim, sei, e…

                -A espiral solidificada no interior do búzio ecoa continuamente, ao meu ouvido,  os feitos magníficos destas pessoas. Sacrificaram as suas vidas em prol da humanidade. São detentoras de um coração enorme na sua entrega incondicional ao mundo por amor ao próximo. Não se trata de posse, Francisco. Não se trata de “é meu!”. Trata-se de desprendimento, de libertar, de sofrer nesse soltar para ver o outro feliz e bem. Ninguém se sente feliz de verdade se enjaular quem diz que ama. Matar, então! Ora pensa lá bem.

                -Sempre foste uma obcecada por espirais, mulher!

                -Queres saber porquê? Vou desenhar-te uma. Repara. Sabes o que simboliza?

                - Não. Tenho a sensação de que me vais explicar.

                -Experimenta desenhar uma, enquanto te explico. Começa de um ponto, de um centro, e vai girando em torno desse ponto; vai soltando todos os teus problemas, receios, constrangimentos, mágoas. Toda a tua dor : nesse movimento giratório. Repara que, se quiseres, a espiral não tem fim. É uma sensação de libertação, de serenidade, de tranquilidade. É magnífico. É catártico.

                -Vamos lá ver isso. Ok. Já  comecei a desenhá-la. Experimento.

                -A espiral simboliza a evolução num movimento ascendente e progressivo, normalmente positivo e construtivo. Dá a impressão de que existem diversos patamares em altura a um mesmo nível de posição espacial: várias dimensões. Tudo na vida, embora se mantendo na mesma posição, evolui para cima, no sentido ascendente, compreendes? Nada é estático. Nada está parado; embora, por vezes, aparente estar. Olha o planeta Terra, por exemplo. Gira em torno de si mesmo e, de forma elíptica, em torno do sol. No entanto, a sensação que temos é a de que está parado e que o que gira é o sol ou a lua.  É próprio das pessoas também evoluírem.

                -Não percebo onde queres chegar.

                -Quando nos conhecemos, Francisco, éramos adolescentes. Mediante o que tínhamos vivido até aí, identificámo-nos, aproximámo-nos, amámo-nos. Entretanto a vida não parou, Francisco. Tal como essa espiral que estás aí a construir, a vida segue o seu rumo. As pessoas continuam a ser desenhadas no seu percurso elíptico em direcção ao infinito; continuam a interagir com o meio cósmico, com a realidade em redor.

                -Sim, explica-te melhor.

                -Tal como essa espiral, as pessoas buscam, procuram e encontram-se, em determinado momento, com outras pessoas com as quais se identificam. Sabes disso, perfeitamente.

                -Sei?

                -Sabes, Francisco. Eu refresco-te a memória. Nunca te falei, mas sei que tens te encontrado com algumas pessoas fora do nosso casamento.

                -Certo. Não te vou mentir.

                -A diferença entre nós é que, quando aconteceu comigo, eu confidenciei-te. És acima de tudo o meu companheiro, o meu amigo.

                -Mas isso dói, Maria.

                -Eu sei. Dói mais sabermo-nos enganados. Eu não te menti, nunca. Posso ter omitido uns tempos; mentir, não. E nunca te apontei uma arma à cabeça.

                - Desculpa, Maria.

                -Eu conheço-te. Sei que não serias capaz.

                -Gosto de desenhar esta espiral. Tens razão, acalma. Está a ficar bonita. Ainda gostas de mim?

                -Claro que sim. Nunca se deixa de gostar. Vivemos bons momentos juntos. A espiral plana está associada a movimentos de evolução e de involução. Todos nós temos esses momentos em que progredimos e regredimos. A espiral dupla traduz o todo, a união dos contrários, o nascimento e a morte. Assim como a vida , a espiral projecta-se para o infinito e, aparentemente, não tem fim.

                -Verdade. Se quiser posso continuar nesta cena horas. Bem…horas, não. Até acabar o papel.

                -Ora aí está. Não se trata das pessoas só. Pressinto que o papel está a acabar. O mundo. Algo de maior vai passar-se.

                -A sério?

                -Sim. Vamos aguardar p’ra ver. Está p’ra breve uma mudança radical.

                -Gostas?

                -Está fantástica a tua espiral.  Parece uma helicoidal, em forma de hélice. Estas aparecem em várias culturas.  Está associada à lua, à água, ao feminino, à evolução cíclica, à vida e à fertilidade. E é representada em muitas divindades femininas do paleolítico. É o símbolo erótico da vulva. Também ela uma espiral. A origem: por onde nascem os bebés.

                -Muito me contas.

                -Nas filosofias hindus surge associada aos movimentos dos chacras. Na Índia, a espiral é a energia Kundalini, que dorme enroscada (como a serpente ígnea) na base da coluna vertebral, em estado latente, pronta a ser despertada.

                -Realmente assemelha-se ao enroscar de uma serpente.

                -Apesar de ser movimento constante, indica equilíbrio e ordem inseridos numa permanente mudança.

                -Percebo o que estás a querer dizer-me, Maria. Sempre foste uma pessoa especial. Não quero perder-te, é isso.

                -Francisco, não vais perder-me.  Tu tens o teu lugar em mim. Nunca se sai de um amor. O que muda é a forma como vivemos esse amor, a forma como nos relacionamos. O amor que sinto por ti, é. Não vai deixar de ser nunca. É calmo, é de irmãos, é de sangue. Estarei sempre disponível para ti, para o que precisares.

                -Eu sei. Conheço-te bem.

                -Tens de compreender que evoluímos, temos mais quinze anos de vivências, desde o primeiro momento em que nos vimos. É natural que estejamos diferentes. Tudo , no universo, se transforma. Nada é imutável. Nós mudamos e crescemos. Não vale a pena insistir numa forma de relacionamento que já não é a que encaixa em nós. Também tu tens sentido desejo por outras mulheres, sabes disso. É isso que sentes que tens de respeitar.

                -Sei, sim.

                -Eu estarei aqui, no meu lugar, na minha nova posição. Serei sempre tua amiga, tua irmã. Não me perdes. Ganhas-me numa outra dimensão, mais madura, mais saudável.

                -Eu sei. Dá-me tempo. Tudo se compõe. Esta espiral está fantástica.

                -A espiral plana representa o labirinto e tanto pode indicar expansão  como compressão para o centro. Em África, em certas tribos, é o deus masculino, o movimento das almas e dos espíritos, a criação da vida e do mundo. Em culturas muito antigas, representa relógios solares; e como dança do solstício provoca êxtase, facilita a evasão do mundo terrestre e a invasão do Além.

                -Toda esta explicação por causa dos murmúrios de um búzio à venda para quem, com amor, o quiser comprar.

                -É mesmo.

                -Vais mesmo fazer vida com ele?

                -Se ele me quiser. É mesmo dele a filha que trago dentro de mim.

                -Não é minha?

                -Não. Fiz o teste e deu negativo. Entretanto, tenho estado com o Nuno.

                -(…)

                -Eu sei que dói, mas é isto que sinto. Vamos ter juízo porque os nossos filhos precisam da mãe viva e do pai fora da prisão. E agradecem a ausência de traumas maiores do que a  própria vida.

                -Certo, desculpa.

                -Eu abro-te a porta.

                -Ok.

                -Oh!, estavas aí, Nuno?

                - Está tudo bem?

                -Sim. Não se preocupem, não vos causarei mais problemas. Maria, sossega. Está tudo bem.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Capítulo 17 ( continua...)


-É ela? É mesmo ela. É linda. Estou fodido. Deixa-me estar de costas. Nem sei como hei-de reagir. Já deve estar a subir as escadas. P’ra que é que a convidei para este curso? Já sabia que isto ia acontecer. Já supunha. Maio, o mês do mais. É hora do mais.

-Acalma-te, rapaz. Cabeça erguida. Área de másculo. Olha o estatuto. Sou eu, o teu amigo, o velho, aquele que sabe. Deixa-te estar de costas. A ver o que ela faz. Assim, já ficas a saber quem ela é de verdade. E aproveita o mais em Maio. Se gostas assim tanto dela, aproveita. Tira o máximo de proveito do tempo que te é concedido com ela, pois esse não volta mais. A tômbola parou, mas vai voltar a rodar. Aproveita. Será que te ignora como todos os outros? Vamos já ver isso. Está a chegar. Mantém-te de costas. Ignora-a. É agora.

-Nuno?

-Sim, sim.

                -Maria, prazer!

                -Ah!, olá. Pode sentar. Acomode-se. O curso começa dentro de instantes.

                -É linda , velho. Viste aqueles olhos? Quase que induzem um gajo em hipnose de tão verdes, de tão buraco negro. A espiral. A minha Maria, a personagem do meu primeiro livro, “carnificada”. Voltou a acontecer. Acho que despertei algo. Reparaste como sorriu? Sorriso franco. Adoro sorrisos. E as covas na face. É linda. E tão pequena. Tão pequena. Os cabelos: são selvagens. Parece uma leoa. Cheira bem. A pele dela, o toque da pele dela quando me beijou: cheira bem. Tem rugas de vida, trabalho e dor em torno dos olhos. É madura. É como eu gosto. Tão cheirosa.

                -Tu continuas o mesmo desengonçado. Tão bruto a beijar. Tão desajeitado. Não é preciso tanta força. Até parece que nunca beijaste. E custou-te baixar a cabeça e o corpo para ela te chegar. Custou-te. Até parece que não gostas de beijos. Mortinho que estás por mais toque dela.

                -Cala-te um pouco, agora, velho. Sabes que, sendo ela, a do meu livro, vou fazê-la sofrer. É o que está escrito. E não quero fazê-la sofrer. A aura dela é mercúrio: queima. Custou-me baixar porque tostei. O melhor é afastar-me. Já me arrependi de a chamar. Tenho de trabalhar. Vou ser-lhe útil. Vou ajudá-la. Começo pelos sinais de pontuação. Ela falha muito nisso. Mas, pelo ar, já vi que é esperta. Ora repara lá tu, velho. Não posso olhá-la directamente nos olhos senão entro em transe e denuncio-me. E não é por aqui que eu quero ir. Tenho a Joana. Tenho uma carreira a manter. Estou fodido. É forte. E sei que vou fazê-la sofrer. É o que está escrito.

                -Pois vais. Mas não é pelo que está escrito no livro. É pelo que tu és. Perante sentimentos fortes, avassaladores,  és um cobarde. Sempre foste. Vais ignorá-la. Vais querer fugir-lhe. Vais querer fugir-te. Sabes que alimentar um sentimento intenso por ela arruma contigo. E tu queres dominar a situação, não é? És um cobarde. Criar um mundo completamente diferente do anterior dói; pôr um ponto final no antes dói. E tu és cobarde. Não vais querer criar esse mundo. Vá! Começa lá o jogo! Já tens tudo planeado. Começa a mandar as mensagens subliminares para o intelecto dela. É esperta: a dada altura vai perceber.

                - Os dois pontos são um elo de ligação. Por exemplo: “Não sabe o que fazer: parvo.” Pronto, comecei.

                -Olha-a. Podes olhar agora que ela não está a ver. Está concentrada no exercício. Repara como põe a mão esquerda no peito quando escreve. É tique. Cá p’ra mim está a segurar o ritmo cardíaco. Não deve conseguir estar no mesmo espaço físico que tu. Sente-se demasiado próxima. Não a sentes constrangida? Olha como respira fundo. Até parece que tem falta de ar.

                -Cala-te, velho. Já estás a começar a enervar-me. Vês o que fizeste? Ela topou que eu estava a olhar. Merda! Estou a queimar. Vê lá se não tenho gotas de suor a escorrer pela cara. Caraças, esqueci o livro que me encomendou no carro.

                -Fácil. No final, leva-la contigo até ao carro. Aproveitas o mais em Maio: dás-lhe uns amassos. ‘Tás mortinho por isso e há meses. Sempre a sonhar acordado com a foto dela, com o sorriso contido dela, com as letras dela. Agora tens a tua Maria,  aí, em pele, carne e osso. O que te impede?

                -É casada, velho. Não vês? É casada. Apanhei um desgosto quando vi a aliança na mão esquerda. É casada. E não só isso. Sabes bem que entretanto as circunstâncias modificaram.

                -E… já não seria a primeira a apaixonar-se por ti, mesmo casada. E o escritor és tu. Deverias dizer: está casada. Não: é. Está. Tão depressa está como pode deixar de estar. Repara como gosta de ti. É óbvio. Sentes? Não sentes o algo que percorre o trajecto que vai de um ao outro, dela até ti e vice-versa. Não sentes o algo? Olha as partículas de luz a moverem-se. Uma espécie de aurora boreal, uma poeira entre auras.

                - Sinto, mas não quero sentir. Vejo, mas não quero ver. E até ouço o vibrar da corda, o eco do metal tibetano, mas não quero ouvir. Está casada. Arrumou. Há muita mulher por aí. E eu tenho a Joana: a Joana  que já não é a Joana. A Joana que já não é a Joana, as fãs, e a minha carreira já dão muito que fazer.

                -E a letra dela… tão traço, tão feminina, tão nevoeiro: mais de metade do desenho das letras ficam no vácuo. O movimento da mão já não as capta, só restos, só vestígios do que um dia foram, símbolos completos do que está dentro e perde força à chegada. É uma estudiosa, sem dúvida. É uma viciada em escrita. És tu. Pára de a contemplar. Vai apanhar-te outra vez.

                - Já parei. Ela não olha, mas está a ver. Eu sinto-a.

                - Trouxe o livro?

                -Sim, sim. Está no carro. Mas a Maria espera e eu vou buscá-lo num instante.

                -Não. Eu vou consigo até ao carro. Gosto de caminhar na minha cidade.

                -Ok. O seu raio-x está bom.

                -Como?

                -O seu texto está bom. Tem qualidade.

                -Obrigada. Não repare. Estou a tomar comprimidos; por isso estou um pouco lenta.

                - Mas porquê? Anda triste, é?

                -Mais ou menos.

                -Comprimidos não interessam a ninguém.

                -Eu sei. Mas tem de ser. Costuma vir cá muitas vezes?

                -Cada vez mais. Uma cidade pequena tem tudo o que uma cidade grande tem.

                -Quanto é o livro?

                -19 euros. Mas este é oferecido.

                -Oh!, não. Nem pensar. É o seu ganha - pão.

                -Ok. Quer que a leve até ao carro. Entre, entre. Eu levo-a.

                -Agradecida. Estou com um bocado de medo de ir sozinha. Está num sítio feio.

                -Mais uma coincidência. Tem um carro da marca do meu.

                -É? Não sei. Eu de carros percebo pouco. Bem. Obrigada, mais uma vez. Gosto muito de si.

                -Eu também gosto muito de si.

                -Viste? Deu-te um beijo na cara. E demorado. E afagou-te. E tu, como sempre: desastrado. Parecias uma presa a fugir do predador. Até a deixaste sem jeito. Foi só um beijo de agradecimento. Um carinho. E tu: bruto. Fugiste com a cara. Acho que até a magoaste nos lábios com a barba de tanta velocidade na fuga. Foi só um beijo de agradecimento.

                -Pára, velho. Tenho a Joana que já não é a Joana à espera. Pára.

                -Não gostaste da atitude? Não mintas.

                -Claro que gostei. Um beijo roubado, se consentido, deixa de ser um beijo roubado. Claro que gostei. O problema é esse. Gostei até demais. Gosto da loucura dela. Gosto muito dela. Não ouviste? Mas estou assustado com a ousadia e a ternura dela. E disse-me: “gosto muito de si”. Deixa-me sonhar, velho, apenas sonhar. Tenho a Joana, e esta é casada.

                -E as coincidências? A mesma linguagem textual, o mesmo ímpeto, a mesma freguesia, a mesma cidade, as fobias, a marca do carro, o feitio. Onde fica isso tudo? Não achas que são coincidências a mais?

                -Meras coincidências, velho. A quente assusta. Mas a frio são meras coincidências, nada mais. Tenho de ir buscar a Joana e mais alguém. Não te esqueças de que está grávida. Agora cala-te com a Maria que a Joana já fez longa viagem p’ra chegar até aqui.

                -Grávida? E como conseguiste essa proeza?

                -Eu menti-te, velho. Eu tomava medicação para a esquizofrenia. Menti também aos investigadores. Mas foi por pouco tempo. Já tinham saído os relatórios. Eles perceberam que a minha disfunção eréctil estava relacionada com a toma da medicação e com traumas de infância. Deixei de a tomar e passei a tomar a Maria. Foi assim que engravidei a Joana. E estou feliz. Vou ser pai pela primeira vez na vida. Estou radiante. Pensava precisamente o oposto: que não queria filhos. O meu relógio biológico pregou-me uma partida. Estou a adorar. Vou ser pai!

                -Estás a adorar? Tu? Tu que um dia disseste à Joana que se engravidasse teria de fazer um aborto.

                -Ai dela! Quero este filho mais do que tudo na vida. Quero sentir o que é amar e ser amado por um filho. Se há coisa que os versos da Maria me ensinaram foi isso: curiosidade em sentir o amor pai-filho.  No amor, é só o que me resta saber. Amar e ser amado por um filho. Pai: amo-te. Filho: amo-te. A génesis da vida.

 

                Ao ver-te, meu amor, tudo parou: tudo acelerou.

                Nem sei se diga, nem sei se faça,

                Nem sei se siga, nem sei se nasça.

                Tudo começou e tudo acabou.

                Ao ver-te, meu amor, o meu coração rompeu:

                Em todas e direcção alguma.

                Nem sei se corra, nem sei se pare,

                Nem sei se mate ou se morra.

                Ao ver-te, meu amor, a minha loucura gemeu

                Na tremura em  que te senti,

                Em mim teu olhar doeu;

                Petrifiquei : ardor suado - vivo

                Consumido, amor, no fado meu: sofro .”

 

                (NFF)

 

                -P’ra ti Maria, pelo beijo que me roubaste e que senti cá dentro, bem fundo. Sei que te minto, mas tu sabes. Tu sabes. Pronto: postado. Meia-noite e meia. Pode ser que ainda o veja hoje. Não te posso dar a minha pessoa, mas posso, momentaneamente,  dar-te toda a minha alma. Toma-a. É tua, Maria.

 
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

Capítulo 17


Capítulo 17

 

                Tudo era algodão, branco e almofadado. Tudo era algodão. Lindo. Só faltava avistar um anjo ou até mesmo Deus. Quem sabe? Um buraco? O que é aquilo? O oceano em tons de azul e esmeralda, uma paisagem crispada e encrostada de negro em redor, xisto. Camadas de rochas frias e duras, outrora lava quente e mole. O tempo. O trabalhar do tempo. A marca do tempo no buraco. Rectângulos em puzzle de múltiplas cores, cores vivas: telha, girassol, verde. Tantos rectângulos coloridos. Imensos rectângulos à descida no planar do país do amor. Os cadeados na ponte. As chaves no rio. As flores. Os nus em redor. Magnificentes estátuas vivas - de gentes de outros tempos, mortas. Gigantescas e pomposas esculturas despidas de mundo, vestidas de dor. A cidade do amor.

-Acho que estou a exagerar na dose. Sinto-me tão zonza; com os olhos tão pesados. E esta viagem de camioneta não me está a fazer nada bem. Que enjoo! Ainda vou ter um colapso. Já há quatro horas na estrada, cruzes! Esta  falta de ar que nunca mais passa. Que aflição. Raios partam o tórax  que não obedece. E o diafragma que não sobe e o ar que não entra. Há três semanas a tomar aquela porcaria e não há maneira de melhorar. Dois alprazolam e meio por dia. Quase a dormir. E o ar que não entra. Que desespero.

                -Sabes que a medicação ajuda, Maria. Mas o verdadeiro problema está na tua cabeça. Entro, não entro, no avião? Entraste. Entro, não entro, no metro? Entraste. Afinal, não é nada de especial. Tantos anos a evitá-los. Tanto filme. Não vou conseguir respirar, não vou poder abrir uma janela; vou sentir-me apertada, fechada. Lá em cima não posso abrir uma janela! Debaixo do chão é escuro, apertado. E a falta de ar. Afinal, nem lá em cima, nem lá em baixo, é apertado. Afinal, há muita claridade. Afinal, sentes o ar fresco a correr e respiras. A tua cabeça é que é apertada e fechada e escura. É  aí que tens de abrir a janela: as janelas. E as portas. E tudo mais que houver para abrir. É já Abril. Abril: abrir. Percebes? Começa. Já começaste? Agora continua.

                -Comecei, pois,  com a muleta. Sempre com a muleta: as pastilhas. Sou uma triste, é o que é. Espera. Tenho de respirar. Não consigo. Devagarinho, Maria, vá. Devagarinho. Como aquela aluna te explicou. Aquela que sofre de ansiedade crónica. “Inspire e expire devagarinho, Setora. E, se tiver um saco de papel, melhor.” Inspira, vá. Agora expira para o saco. Torna a inspirar. Sentes-te melhor? Nem por isso. O músculo do peito não obedece. Não sobe, nem desce. Porra! Vou levantar-me. Vou dobrar-me sobre mim mesma e deixar as mãos a balançar, quase a tocar no chão. Agora inspira. Pronto. Conseguiste! O ar entrou bem fundo e chegou a todos os poros que tinha de chegar. Sentiste-o? Sim. Que alívio. Tenho ar para mais cinco minutos.

                -Essa posição resulta sempre, Maria. Não é? Bem. Nem sempre. Mas quase sempre. Ao fim de alguns minutos largos de sufoco, resulta. Como? A distribuir balões e a mandar enchê-los a caminho do Parlamento Europeu? Estou lixada. Se nem ar tenho para mim, vou ter para os balões! Não me parece boa ideia, mas eles é que são os organizadores; eles lá sabem. Se um rebenta vai pôr aquela segurança toda em sentido. Um ataque terrorista! Help! Enfim. Sinceramente. Há gente que não pensa.

                - Lá estás tu com os teus medos. É por isso que não consegues respirar, não é? Parlamento Europeu e tal…ataques terroristas. O teu pavor perante situações de risco, situações que não podes controlar, perante a morte. As tuas fobias todas explicam-se à luz deste sentimento comum: algo deixar de estar nas tuas mãos; não seres tu a controlar a situação. Ora pensa lá bem: multidões, fogo de artifício, elevadores, aviões, metropolitanos, alturas,  cancro, velocidade, amores não correspondidos, cidades amplamente divulgadas e centros nevrálgicos do mundo. Em Bruxelas há 90% de hipóteses de ocorrer um atentado, é o coração da Europa. Se bem que de sentimentos relativos ao coração nada tenha. Minto. Tem os chocolates. E nem os vi.

                -Sim, sim. Já conheço de cor essa ladainha. Não tens mais nada p’ra me dizer? Algo novo? Uma verdadeira novidade. É disso que eu preciso. De coisas velhas, caquécticas, usadas, remexidas, conspurcadas, definhadas, já estou eu farta. Algo novo. Vá! Tenho de me dobrar outra vez. Inspira. Expira. Que alívio! Veio-me à memória a operação às amígdalas; tinha os meus seis anos. Para me dar a anestesia a enfermeira sentou-me no colo dela, prendeu as minhas mãos nas dela, entrelaçou os meus pés nos dela e, de repente, um funil na minha boca. Que aflição! Foi a primeira vez que me lembro de me ter faltado o ar: uma coisa fresca a entrar pela garganta abaixo (mesmo fresca); um ar que não servia aos pulmões, um desespero, um estrebuchar e…tudo escuro, o vazio, o nada. A primeira vez que me senti violentada. A primeira vez que morri.

                - Oh!, esquece isso. Manda lá para o fundo do baú . Queres algo novo? Deixa lá pensar. Já há quatro dias que vives algo completamente novo. Novidade atrás de novidade e nem por isso pareces satisfeita. Viagem de avião, conhecer gente de oito países, falar quatro línguas (todas misturadas que nem uma caldeirada porque do outro lado não as sabem e não as querem falar), viagem de metro. Conheceres a imponência de um império que os livros de história não conseguem, nas suas imagens, fidelizar; olhar, com esses teus olhos gigantes, para as paisagens miraculosamente agrícolas de dois países diferentes do teu. E nem assim ficas satisfeita. O problema és tu. Já sabias. Mas agora ficaste com a completa certeza. Vais ter de criar uma verdadeira revolução dentro de ti. Não há lugar no mundo que te resolva de ti. De que te adianta teres todos os outros, e tudo em teu redor, se não te tens a ti?

                - Isso dos outros não saberem falar línguas estrangeiras, ou não quererem, é verdade. É uma autêntica desilusão. E uma dor de cabeça tentar falar com erros para que me percebam. Fazer todo o percurso para trás, à caranguejo. Regressar ao início, ao nada saber: precisamente por sentir que o outro lado não se esforça por cá chegar, ao fim. Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. E nem só isso. Os miúdos apresentaram o trabalho melhor concebido e melhor alicerçado em termos de multimédia. Foram excelentes na apresentação numa língua que não a sua. É preciso recordar que eles se intitulavam os “inaptos”: um gago, uma surda, uma afónica e dois imigrantes. Eu acrescento: e uma multifóbica.  E os “inaptos” foram eleitos os melhores no seu país. E não vamos esquecer que, não fora a equipa que nos acompanha, a do nosso país, nenhum trabalho seria devidamente apresentado. Fomos nós que preparámos toda a parte de multimédia. Os outros não sabiam: fichas, fios, cabos, computadores, software, projectores, todo um mundo a desligar. Nem a organização estava minimamente preocupada. Mais uma vez pediram-nos para abdicar da parte multimédia, para passar uma esponja em todo o mérito e fazer apenas uma apresentação oral, sem suporte técnico. Mais uma vez o caranguejo. Afinal, o que é que se passa? Sempre pensei que a minha terra e as gentes da minha terra fossem menos sabedoras e conhecedoras do que os outros das outras terras. O que dizem nas notícias é que lá fora é que estão os génios. Lá fora é que sabem tudo. Nós somos uns ignorantes. Mas agora eu estou lá fora. E apercebo-me que lá fora pouco sabem. Nem sequer se dão ao trabalho de saber. Não precisam. Têm os criados de lá dentro. Têm os desenrascados e os perfeccionistas de lá dentro. Têm os trabalhadores, os escravos, de lá dentro.

                -Sabes, Maria, os de lá dentro são sábios, são prestáveis, são grandes. Mas falta-lhes uma coisa importante. Essa, que só os de lá fora têm: o estatuto. E quem tem o estatuto não precisa de se esforçar, nem sequer de trabalhar. Tem o estatuto, tem quem trabalhe p’ra eles, tem o rendimento garantido, tem o poder nas mãos. Tem a pequenez de espírito, a preguiça incutida, o mete-nojo na alma, mas o trabalho feito e o rendimento garantido. E o de lá fora ganha sempre, ganha sempre. Mesmo que o trabalho do de lá dentro seja o top da excelência, o de lá fora ganha sempre. De uma maneira ou de outra, ganha. Seja porque tem o estatuto e a competição já está ganha mesmo antes de haver competição. Se pensarmos bem nem podemos chamar de competição. É um tapar da peneira. É um bode expiatório para recordar aos de lá dentro que os de lá fora são sempre os vencedores, sempre. Nem que seja (e principalmente porque é) à custa do trabalho, da inteligência, da genialidade, do mérito, da submissão dos de lá dentro. E tenho dito.

                -Estás inspirada, Maria. Já tiraste o relógio e o cinto? Olha que a segurança aqui é apertada. Não tinhas reparado? Afinal, já passámos pela máquina. O que estás tão atenta a ouvir?

                -Tchiu! Só um segundo! Inacreditável! Não posso crer no que estou a ouvir. E os nossos representantes? Não dizem nada? Se calhar não compreendem a língua.

- Estás a ser inocente. É claro que compreendem. Não querem é dizer. Pelo que vejo, nem tiraste o relógio nem o cinto. Diz tu.

-Não precisei. A máquina ainda não tem poder para captar o material deste tipo de relógio e de cinto. Vou dizer.

-Olha. Aquele olhar de lado da Drª. Abanou ligeiramente a cabeça quando te viu levantar. Senta-te. É p’ra não intervires. Parece que a máquina captou. Ela lá sabe. Tem mais experiência nisto da política. É melhor acalmares-te. Senta-te.

- Sentei. Está a ser difícil de engolir. Tu estás a ouvir o que estão a dizer sobre o nosso povo? Tu estás a ouvir bem , como eu estou a ouvir? Não sei se vou conseguir segurar-me. Fervo toda cá dentro. É uma injustiça o que dizem: tudo falso. Uma realidade completamente diferente da que vivemos. Estão a humilhar-nos o mais que podem, sem dó nem piedade e na base de falsidades. É Deus. Podia estar tudo sossegado. Não. Tinham de nos enxovalhar. Logo hoje que estou aqui, logo agora que entrei. Nem era suposto eu estar aqui. Mas estou. É Deus. Deus está a forçar-me a tomar uma atitude. Já percebi porque tinha de entrar num avião. Já percebi porque tinha de vir onde vêm os terroristas. Já percebi. Está na hora do meu tipo de terrorismo, do tipo de terrorismo de Deus: o da verdade, da justiça e do amor. É o relógio. Está na hora. E é o cinto: estou farta de o apertar. Está na hora de o tirar. Vou falar. Levantei-me.

-Excuse me! May I speak? Desculpe, posso falar. (Engasgou-se. Do outro lado, não estava à espera, mas deu-me a palavra). Do you understand English? O deputado respondeu que sim e que não havia problema porque tinha o tradutor, o assistente. Então comecei. E foi assim, perante a assistência de oito países e mais alguns:

“Chamo-me Maria. Já há cerca de meia-hora que ouço, daquele lado dali, uma série de intervenções relativas ao meu país e à sua gente totalmente desfasadas da realidade e, por isso,  falsas. Chamo-me Maria, vivo nesse país,  do qual tanto falam, há 36  anos. Se me ouvirem, ficam a saber o que é viver nesse país, e ser alma e sangue desse país no contexto da União Europeia. E vou falar com o meu coração porque sinto-me triste, ofendida e magoada com o que ouvi. Vou falar com o meu coração. Não se sintam ofendidos. Ouçam apenas alguém que fala com o coração. O povo do meu país é trabalhador. É um povo que se sente enganado e sacrificado pelos seus governantes, pelas políticas da União Europeia, pelo rumo capitalista que a época e o mundo insistem em seguir. Mais uma vez, não se ofendam. Mas são vocês, as pessoas importantes, os políticos, que podem mudar a direcção da corrente. E p’ra mim, para os 99% da população mundial que não têm o poder decisório, a crise é fácil de resolver. A solução está na palavra: partilha. Quando uma minoria deixar de ser gananciosa e deixar de zelar apenas pelos seus próprios interesses, quando essa minoria, que detém o poder, decidir que é hora de pensar efectivamente no que aquela estátua demonstra lá fora, na união, na partilha, no espírito de comunhão e interajuda, tudo se resolve bem para todos. É falso dizerem que não queremos trabalhar. Nós somos um povo sacrificado em trabalho. Não fazemos outra coisa senão trabalhar; mesmo quando as políticas europeias de cotas nos limitam nesse trabalho. Se servimos para entrar na União Europeia, se servimos para ter uma moeda única, porque é que não servimos para usufruir de salários mínimos comuns, níveis de vida comuns? A impressão que dá, é que entramos para nos anularem dos mercados, para acabarem com a concorrência, e nos explorarem os recursos. Para nos colocarem uma pedra em cima e nos sugarem.  A agricultura é praticamente inexistente, actualmente, no nosso país. Eu fiquei perplexa com os enormes campos coloridos que vi pelo caminho. No meu país já não há destas paisagens. É tudo árido. É tudo seco. Foram criados subsídios para desincentivar os agricultores de cultivar, de produzir leite. Foi dada uma esmola aos pobres que se agarraram a ela como se lhes tivesse saído o euromilhões; e em troca foi-lhes decretado que não cultivassem. É a política do não. Há alguma lógica nisto? Termos os recursos, as terras, a mão-de-obra, a sabedoria; pagarem-nos para não rentabilizarmos o que somos é uma violência. Apesar de sermos um país rodeado de mar a toda a volta, estamos limitados na nossa pesca. O país vizinho pesca mais nas nossas águas do que nós. A indústria têxtil morreu na minha cidade. Uma indústria outrora em ampla expansão: agora monumentos, de um cinzento sujo, desertos de gente e vida. Era evidente que, ao fim de alguns anos, não teríamos competitividade para acompanhar os restantes países. Essa ajuda financeira que virá daqui, deste centro político, é uma ajuda que não sinto como tal. É uma dívida a ser-nos paga, uma dívida de longa data por nos terem impedido de crescer, de evoluir. Por causa da nossa inactividade, muitos países da união lucraram nas suas produções. É fácil chegar aqui e dizer que determinado povo não trabalha e não sabe gerir o dinheiro. É fácil dizer que determinado povo não merece ser ajudado. Mas pensem bem nas circunstâncias que divergem amplamente entre países que pertencem a uma mesma união. Pensem bem nas políticas que partem daqui e que são aplicadas, quase que a dedo cirúrgico, em cada nação. Pensem bem nas desigualdades criadas, nos grandes fossos em todas as áreas. Pensem bem se, de facto, temos união só p’ra alguns. Para os outros, há servidão. As nossas famílias, na actualidade, ou trabalham de sol a sol (dois e três empregos diários) para conseguir cumprir os seus compromissos bancários, manter a sua casa e ter comida na mesa, ou emigram para o efeito. Ou nem sequer conseguem emprego. Há famílias inteiras divididas, em que, apesar de viverem na mesma casa, pais não têm tempo nem humor para conversar com os seus filhos. Outras estão com os seus elementos espalhados pelo mundo para sobreviver. São famílias criadas à distância. Temos toda uma geração ao abandono. E muitas famílias estão a passar fome. É esta a nossa participação na união. De quem é a culpa, se o povo trabalha e quer trabalhar, mas cortam-lhe as pernas? De quem é a culpa, se o povo trabalha e mata-se a trabalhar, mas não recebe o salário justo pelo seu trabalho? É do poder decisório, é daqui. Não se ofendam. Mas não sejamos hipócritas. A culpa está na distorção de valores. Nas más práticas. Na má fé. No egoísmo. No cada um por si. Nessa selvajaria que é a política bancária. No roubo consentido. Nos juros macabros. Na política suja. Na ganância desmedida de alguns. Se o povo tem dívidas, não é culpa do povo; é culpa do polvo que nunca está satisfeito com o montante do roubo. O problema não está nos humildes trabalhadores, como querem amplamente fazer crer. Não no seu sacrifício diário. Não na sua fome e nas suas dores de costas. Estamos a sofrer uma espécie de ocupação territorial; só que, hoje em dia, as armas não são as espadas nem os canhões, nem sequer são óbvias. São armas dissimuladas. Ultimamente até são claramente declaradas. É a psicologia do vai com todos, do formigueiro. E, porque um aceita ser ofensivamente roubado no dízimo que tem de pagar ao banco, os outros têm de alinhar. Pelo empréstimo concedido para um bem, pagar de juros cinco vezes mais do que se paga por esse bem é um escândalo. Multiplicar essa factura por biliões torna-se uma catástrofe à escala global. E os biliões aceitarem, passarem fome, escravizarem-se no trabalho, destruírem a sua saúde, sentirem-se culpados e ainda fazerem  vénia à meia-dúzia que comete essa atrocidade, é uma imbecilidade. Somos pobres, somos humildes, somos até ignorantes, mas alguns de nós esforçaram-se no estudo, no empenho, no aperfeiçoamento (os poucos, a quem foi dada a oportunidade); alguns de nós conseguem pensar e ver, mediante os conhecimentos que têm. E esses, de todos os ofendidos, têm a obrigação maior de falar. Mesmo que se saibam pequenos e impotentes, como é o caso. Falei.”

-E o que disse o deputado?

-Ficou a olhar para mim uns segundos largos, surpreso. Senti um olhar de admiração. De “não posso crer que pessoas assim ainda existam”; de “não se vê políticos a falar assim”. Até o tradutor ficou abismado e sem pio. Na verdade, acho que toda a assistência ficou repentinamente silenciosa: nem um tossir, nem um remexer de bolsa ou de telemóvel. Até eu fiquei muda perante mim própria. No final, tirámos fotografias. O tradutor deu-me os parabéns em nome do deputado e disse-me:“if one has the occasion one must take advantage of it, your word was heard” (se alguém tem a oportunidade, esse alguém deve aproveitá-la; a sua palavra foi ouvida). E alguns dos responsáveis de outros países vieram dar-me um enorme abraço bem apertado. Não me conheciam de lado algum a não ser daquele contexto e deram-me alguns dos abraços da minha vida. Disseram-me ao ouvido: “nós sentimos exactamente o mesmo; no nosso país tudo se passa assim como disse; parabéns pela coragem”.

-No entanto, o deputado colocou-te uma questão no final. Mesmo antes da fotografia. Lembras-te?

-Lembro. Mas percebi que não gostou da resposta. Desviou o assunto e terminou a sessão.

-Era sobre a movimentação político/social  em torno da esquizofrenia. Perguntou-te o que pensavas a respeito.

-E eu respondi: “Sou esquizofrénica e não o aconselho a ninguém. Cada um nasce como nasce, deve aceitar-se como tal. Não sou a favor de tratamentos antinaturais: ingestão de drogas, indução de desgostos e implante de genes”.

-E respondeste bem. Foste tu própria. E o deputado comentou: “Agora percebo porque consideram a esquizofrenia um dom.”

- Agora percebi porque a Susana insistiu tanto para que entrasse no avião e acompanhasse os nossos 60 alunos ao exterior. Apesar de eu ter dito que não, a seguir veio o pedido para que me responsabilizasse pelo projecto do Parlamento. Eu recusei esse trabalho. Já tinha a minha vida assoberbada de projectos e trabalho. Voltaram a pedir: não havia ninguém para orientar os alunos. Não iriam poder participar. Acabei por aceder. Disse: se forem eleitos os melhores, não entro no avião. É preciso alguém que vá, na minha vez, representar-nos no estrangeiro. Na minha ideia nunca venceríamos. Eu não tinha experiência alguma e as outras escolas tinham mais traquejo. Mas, na hora H, os meus miúdos, os “inaptos”, foram mesmo eleitos os melhores. E eu pensei: estou lixada, agora tenho de entrar no avião. Eu, a inapta - mor.

-Pois é. Já te conheces bem. Já sabes que não  abandonas o barco a meio. E por amor fazes tudo. Por amor aos alunos, para que não desmotivassem, lá te meteste na falta de ar, nas pastilhas, e entraste no avião. Também por amor aos teus filhos: querias que te vissem como uma mãe corajosa e exemplar. Não quiseste que herdassem os teus medos. E foste. E vieste. E agora compreendeste. Por amor aos teus,  ao teu país, vieste. Foi Deus.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 8


Capítulo 8

-Granja, leste o artigo que saiu na “Nature” sobre a mais recente descoberta científica aqui no nosso país? Temos investigadores de ponta ali na zona centro. Descobriram algo que vai revolucionar o planeta.

-Sr. Ministro da Saúde, p’ra estar com esse entusiasmo todo é porque já está a pensar em obter dividendos do assunto. Mas diga lá: que inovadora descoberta é essa?

-É que não tenhas a menor dúvida. Isto é um vento que vai mudar a corrente para uma nova direcção. E eu faço questão de estar dentro desse barco, bem lá na frente, na proa. O mundo não será o mesmo, a partir de hoje, a partir deste artigo.

- Correia, que diz esse artigo? Vá: estou curioso. É sobre quê?

- Esquizofrenia. Deixou de ser considerada doença e passou a ser entendida pelos especialistas como sendo dom.

- Cruzes! Estamos a entrar no campo do sobrenatural, é? Ora explica lá isso melhor.

-Não. Não tem nada de sobrenatural nisto. Está tudo, cientificamente, muito bem fundamentado e documentado. Ora presta atenção.

“ A origem genética da esquizofrenia está no efeito conjunto de um número alargado de genes. Parte da vulnerabilidade genética da esquizofrenia é partilhada pela síndrome bipolar. Cada gene, individualmente, tem um efeito muito pequeno. Só a soma de todos os genes é que determina o efeito geral. Há associações significativas num gene do cromossoma 22, numa vasta região do cromossoma 6, e num gene localizado no cromossoma 2.”

-Oh!, Correia! Isso que estás a ler não comprova que é dom. Apenas indica a origem genética da esquizofrenia.

-Não me interrompa, Sr. Ministro da Administração Interna. A amostra, que reuniu dados recolhidos ao longo de vários anos por diversos centros de investigação europeus, envolveu 3322 europeus com esquizofrenia e 3587 pessoas no grupo de controlo sem a doença. O estudo comparou ainda os resultados obtidos com amostras de sujeitos bipolares, concluindo que uma boa parte das variações genéticas são comuns às duas situações: esquizofrenia e bipolaridade.

- Correia, avança, avança! Daqui a pouco começa o congresso e nem me adoçaste o bico. Vamos lá! Despacha isso.

-Calma, isto ainda tem muito que explicar. O congresso espera. Isto é mais importante. Ora, desses europeus com esquizofrenia, foi observado um grupo mais restrito, aqueles considerados criativos. Foram realizados, além dos testes médicos, testes psicológicos, testes ao Q.I e foram observados os seus comportamentos no terreno durante largos meses. Pelo que compreendi da leitura do artigo, foram feitas entrevistas aos vários intervenientes no meio social onde se inserem. As suas vidas foram minuciosamente analisadas, desde o momento em que nasceram até à presente data. Uma análise em todas as vertentes: biológica, anatómica, individual, social, económica, evolutiva. Colocaram-nos mediante  circunstâncias específicas e gravaram as suas reacções, analisando-as e estudando-as posteriormente.

- Por exemplo…

-Por exemplo, referem dois dos sujeitos: Maria Sousa e Nuno Fernando Filho. Ambos considerados extremamente criativos, direccionando essa capacidade para a escrita. Ambos com um percurso intelectual e de estudos bem consolidado. Ambos com curso superior na área das letras. Ambos com enorme sentido de humanidade. Ambos esquizofrénicos dotados de clarividência. Não se conhecem, mas mediante o mesmo teste tiveram a mesmíssima reacção.

-E o teste, Correia? Qual foi o teste?

- Ora, colocaram-nos dentro de um quarto vazio, só com uma mesa ao centro e uma cadeira. Apenas uma luz branca no tecto, e muito branda. Não havia rigorosamente nada nas paredes. Era o vazio autêntico. Não lhes disseram quanto tempo iriam lá ficar e observaram o seu comportamento. O que é que tu farias?

- Sentar-me-ia na cadeira e, ao fim de algum tempo, dormiria um sono com a cabeça pousada em cima da mesa.

- Granja, isso seria o que eu faria também. Mas eles não. Primeiro deram voltas e mais voltas à mesa. Não se sentaram uma única vez. Enquanto davam voltas falavam para si próprios como se estivessem a falar com alguém. Gesticulavam. Coçavam a cara. De vez em quando, paravam, assim, de repente. Colocavam a mão sobre a boca. Coçavam o nariz. Continuavam a rodar a mesa e a falar, bem como a gesticular. Olhavam a toda a volta do quarto, faseadamente. Ora para uma parede, ora para outra. Por fim, deitaram-se sobre a mesa, de barriga para o ar. Colocaram as mãos sobre o estômago, entrelaçaram uma perna sobre a outra e olharam para o tecto. Com os olhos bem abertos ficaram nessa posição horas, sem se mover, quase sem pestanejar. De vez em quando, sorriam. Muitas vezes sorriram. A dada altura, levantaram a mão e movimentaram o dedo indicador no sentido do e contra o relógio, dava a sensação de que estariam a escrever.

- Qual foi a explicação que deram, Correia, quando lhes foi perguntado o que falavam? Com quem falavam? Porque sorriam? E o que estariam a escrever?

-  Nuno disse que falou com personagens dos seus livros, ora um velho sem nome, ora uma sofrida Maria. Maria disse que falava com outra de si própria. Tiveram conversas relacionadas com o seu próprio comportamento e pensamentos. Sorriam porque decidiram sonhar de olhos abertos com algo que os fizesse sentir bem, algo de muito positivo. Ambos decidiram sonhar com pares românticos. Ambos escreveram no vazio, vezes sem conta, a palavra AMO-TE. Dizem que a dirigiam, primeiro, a si próprios: AMO-TE. Ao próprio ego. Explicaram ainda que enquanto sonham e escrevem não pensam, abstraem-se de tudo o que é negativo, da realidade nua e crua, que dão sentido às suas vidas e que o tempo, no quarto vazio a meia-luz, não foi perdido. Mais tarde, em casa, passaram para o papel toda aquela experiência e criaram uma realidade positiva a partir dela. Acreditam que a sua clarividência está aí: na capacidade de desenvolverem a imaginação, através do isolamento no vazio. Acreditam que o acto criativo acontece pela projecção na escrita, pelo poder da palavra. Estão certos de, assim, conseguirem alterar o real, o concreto e positivamente.

- E os investigadores, Correia? A que conclusões chegaram?

- Granja, presta lá muita atenção a isto, agora. Tal como a de Cristo, começa, neste preciso momento, uma nova era. Os esquizofrénicos criativos precisam de colmatar o vazio e a negatividade com actividade cerebral. Dormir, para eles, seria impensável; pois, dormindo, não estariam a produzir, seria pura perda de tempo. Além de que não conseguiriam. Perante situações problemáticas, têm necessidade de racionalizar, de exercitar o intelecto, de ocupar a mente, de estar plenamente activos no andar de cima. Um quarto vazio e o desconhecimento do tempo que lá iriam ficar são situações problemáticas. Com a tendência que ambos têm (havendo brechas no espaço e no tempo) para a negatividade, não tiveram outra solução senão distrair o cérebro, produzindo, ficcionando uma realidade extra numa outra dimensão. Os investigadores acreditam que aquelas personagens e conversas se tornaram, de facto, reais. Existiram, de facto, numa outra dimensão. Tudo o que o pensamento deles projectou no vazio, ocorreu em pleno: o sonhar acordado, o falar com e escutar alguém, o escrever no ar. Uma realidade extra criada pela capacidade extra de ficcionar na não existência ou de suplantar a negatividade enchendo as brechas do vazio com o que o intelecto decide. E o que o intelecto cria, ao ser criado, pensado, torna-se real,  ainda que não seja observado a olho nu e palpável. Há um espaço e um tempo extra-sensorial ao qual um cérebro esquizofrénico , potenciado pelo exercício intelectual de uma vida, consegue chegar. Aí, comunica-se realmente, e até de forma apurada e mais eficiente; embora aparentemente sem palavras, nem voz, nem objectos concretos, nem matéria.

- Telepatia ? Estás a falar de telepatia?

- kind of. Mais ou menos. Clarividência e comunicação entre intelectos sem a necessidade de passarem pelo filtro da matéria. Por vezes (foi comprovado na investigação também) até chegar a esse patamar percorrem um caminho que passa por ir abandonando a matéria. Na natureza tudo é energia. A matéria é energia condensada; a energia é matéria em estado radiante. Tudo é energia em graus variados de densidade. Os esquizofrénicos estudados deixaram a linguagem e o sentido óbvio das palavras completamente de parte e foram comunicando através de sinais: imagens soltas dentro de imagens, pormenores em fotografias; silêncios dentro das palavras; o subtexto, palavras dentro de palavras, sentidos diversos dentro de sentidos óbvios; sons específicos que encaminham para contextos subentendidos; símbolos, a linguagem pela linguagem, a linguagem com vida própria, energia em estado bruto.

- Eh! Já estás a complicar, Correia. Olha que eu não sou clarividente, nem esquizofrénico. Há conceitos que não atinjo.

-Ok, ok , Granja! O importante a reter nisto é que, de facto, a esquizofrenia, que até aqui era considerada doença, com os resultados bem documentados e cientificamente comprovados dos investigadores , os de agora e os do passado, passou a ser vista pela comunidade científica como um dom. O esquizofrénico criativo, cujo intelecto foi potenciado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes, com exercício cerebral baseado no trabalho e no empenho académico, tem o que os investigadores denominam por sétimo sentido. Mas para conseguir ter o insight, a noção do mesmo, precisa de grandes doses de modéstia, abertura mental, sentido de ética e generosidade. Para discernir, em si mesmo, completa lucidez da autêntica capacidade de sabedoria, necessita de um desenvolvimento espiritual que exige trabalho no esforço do aprimoramento da consciência; tem de haver um crescimento interno no sentido da ampliação do amor, da maturidade da alma e um respeito inabalável pelo próximo.

-Sétimo sentido, Correia?

-Sim, sétimo sentido. O sexto é a intuição, que o esquizofrénico também possui amplamente desenvolvido. O sétimo é a clarividência.

- O congresso,  Correia: o congresso !

-O congresso espera, Granja. Queres ouvir ou não?

-Sim, sim. Continua. Afinal, hoje não vamos palestrar. Então diz lá: sétimo sentido.

- Pois bem, o sétimo sentido. A clarividência que os esquizofrénicos criativos possuem. Clarividência. Do latim “clarus” (claro) “videre” ( ver), ou seja, a capacidade supranormal e parapsíquica de perceber imagens independentemente do sentido normal da visão. Essa capacidade é anímica e natural. De acordo com os investigadores, reside na potencialidade de exercitação dos chacras (dos centros de energia) frontal e coronário, que estão conectados às duas principais glândulas do sistema endócrino: a pineal (epífise) e a pituitária (hipófise). Contudo o potencial clarividente é uma faculdade anímica, vem da própria alma. Até aqui, compreendes, Granja?

-Mais ou menos, no geral. Mas continua, Correia, continua.

-Os cientistas desmistificam o significado da palavra vidência. Dizem que vidência é a visão normal, a percepção visual natural. Explicam que para vermos alguma coisa precisamos da reflexão da luz em cima desse algo. Sem luz não conseguimos ver. Se as partículas luminosas incidirem sobre algo transparente (o vidro ou a água), essas partículas serão refractadas, atravessarão os objectos, daí que se torne difícil percebê-los através da visão normal. Mas eles estão lá. Tanto estão que, por vezes, as pessoas e os animais batem violentamente com o corpo neles porque, precisamente, não os conseguiram ver.

- Verdade, Correia. Tantas vezes bati com a cabeça no vidro.

- Pois. Agora, se o objecto é opaco, a luz é absorvida, e o objecto torna-se visível. Portanto é tudo uma conjugação de factores físicos e químicos. Os cientistas garantem que há toda uma realidade concreta que existe, está ali perante os nossos olhos, mas, nós, seres humanos normais, não a conseguimos ver. O esquizofrénico criativo e clarividente consegue porque não vê com os olhos, mas sim com os chacras frontal e coronário. E quando quer ver ainda mais longe faz meditação: fecha os olhos, roda-os para dentro e para cima, na direcção da testa, dos chacras, e a clarividência dá-se de imediato. Um cego esquizofrénico criativo pode ser clarividente. Os melhores momentos de clarividência dão-se nos estados alterados de consciência, momentos entre o sono e o despertar, entre o sono e a vigília. Estás a acompanhar, Granja?

-Sim, sim. Continua.

-O esquizofrénico clarividente consegue ver a aura do ser humano. Ela existe, mas não é vista por nós porque, precisamente, é atravessada pela luz. Ficou comprovado, mesmo através de fotos kirlian, que o esquizofrénico consegue ver a aura nas suas três dimensões: a do corpo físico, a do corpo extrafísico (alma, emoções) e a do corpo mental (pensamentos). Ele vê uma espécie de campo magnético em torno do corpo físico, um corpo luminoso mesclado por várias cores, camadas vibratórias, sopros de ar. Sabes que “aura” no latim significa sopro de ar?

- Não sabia, Correia. Estou fascinado com esses resultados. Com esse sétimo sentido.

- Ficou comprovado que o esquizofrénico criativo é uma pessoa que percebe algo à distância, goza de uma “clarividência viajora”, a sua percepção como que se subdivide: uma parte está centrada no próprio corpo, a outra observa “in loco” o acontecimento de algo. Esse “in loco” (no local) tem a ver com o espaço, mas também viaja no tempo.

-Como assim, Correia?

-Já explico melhor. Os investigadores concluíram que o grupo alvo estudado gozava de clarividência no momento presente, mas têm a capacidade de retro-cognição, isto é, conseguem viajar, mentalmente, no tempo, para o passado da sua vida, ou de vidas anteriores à sua. Observaram fenómenos psicométricos também, ou seja, além de perceberem as suas próprias memórias, também têm potencial para perceber as dos outros, pessoas, objectos e ambiente. Concluíram que o esquizofrénico criativo goza, acima de tudo, da capacidade de precognição, comummente conhecida como premonição. Adivinham, contextualizando, e até mesmo criando, actos e acontecimentos futuros . E aqui, Granja, é que está a Nova Era, o ouro.

- Ah! Percebi. Hummmmmm!

-Temos todo o interesse em direccionar esquizofrénicos clarividentes para as altas e mais importantes posições na sociedade. Os melhores postos de trabalho terão de ser dados a esquizofrénicos: as posições de destaque na política, na economia, na medicina, na arte, no desporto terão de ser atribuídos a esquizofrénicos. Só assim é que o país evolui, só assim é que o poder regressa às nossas mãos.

-E nós, Correia? Não somos esquizofrénicos! Vamos varrer as ruas e arrumar carros, é?

- Calma, Granja. Pelo que li, há a hipótese de nos tornarmos esquizofrénicos.

-Há? Como?

-Teremos de aguardar um pouco, porque ainda estão em fase de pesquisa e testes laboratoriais. Mas afigura-se a hipótese de clonagem dos genes responsáveis pela esquizofrenia e de posterior  implante em todos os que desejem tornar-se clarividentes por essa via.

-Ui! Que loucura, homem! Que loucura! Tu estás louco! Louco!

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."