Capítulo 37
Maria, de chave
cambaleante, abriu a porta. Toda ela tremia perante a ameaça tão próxima e
familiar. Uma arma é sempre uma arma, esteja na mão de quem estiver. É a morte
a anunciar-se. Desconhecia se, de facto, iria conseguir demover o companheiro
de uma vida daquele seu intento, daquela demoníaca hora que se apoderou da sua
razão. Não tinha outra opção. Ou tudo ou nada. Entrou, como que anestesiada,
numa espécie de constante chegar a lado nenhum, aterrorizada pelo revólver de calças
que insistia em vociferar: “ mata-os! ”. O maldito envenenava o dono das
calças: “ Como podes andar na rua de cabeça erguida? Como podes enfrentar-te e
ao mundo sabendo que te tomaram a mulher? Como podes ousar sequer acordar sabendo-te
despojado da tua casa, da vida que tinhas com os teus filhos? Mata-os!”
Francisco
apontou novamente a ansiosa bala à cabeça de Maria. Nesse instante, a espiral
petrificou-se no búzio, orgulhosamente, exposto no parapeito da lareira, com o
letreiro: vende-se a quem, com amor, quiser comprar. A filha de ambos havia
caçado este tesouro raríssimo no mar gelado do norte do país: “ Foram os
piratas das Caraíbas que o abandonaram aqui, papá!” O cheiro a iodo. O lodo a
diluir-se. E a espiral helicoidal no interior do seu sistema auricular sugava o
som das vagas do Além, do p’ra lá do horizonte, do p’ra lá da membrana.
Ensurdeceu para o mundo. Retumbou o eco dos oceanos misteriosos e profundos da
providência. Soltou a visão caleidoscópica de um redemoinho, a espiral no
sentido decrescente, na direcção do abismo. Do outro lado, soavam os ventos
tempestuosos em mar alto, vibrações timbradas e fustigadas pelo negrume da
nebulosa a formar-se ad eternum: o furacão. A espiral crescente a suspender a
ordem pacífica e provisória , a força, simultaneamente, criadora e destruidora.
Maria,
colocada bem no centro de todas estas espirais, testemunhava (alerta, zonza e
confusa) as suas movimentações; embriagava-se delas em todas as direcções.
Comprimiu-se na alucinação do buraco negro a rodar centrifugamente em torno do
seu espaço, sugada pelo redemoinho. O símbolo cósmico, fonte de luz, que
carrega em si a viagem da alma até à morada do criador. A permanência do ser
sob a fugacidade do momento. A bala a olhar para ela.
-Baixa
a arma, Francisco. Tu não queres fazer isso.
-Que
te aconteceu? Não escutaste nada do que eu disse, pois não?
-Disseste
alguma coisa?
-Para
onde olhas tanto, mulher? Estás com uma arma apontada à cabeça e ages como se
nada fosse. Pareces uma zombie.
-É
o búzio, Francisco. O búzio da nossa filha.
-Ah!,
“Vende-se a quem, com amor, quiser comprar”. O búzio.
-Sim.
O búzio da nossa filha está a soprar-me ao ouvido umas coisas que deverias
saber.
-Enlouqueces,
Maria?
-Escuta-o.
Carrega-me ao colo nos murmúrios com que me brinda. É Deus. Ouve.
-Não
ouço nada, Maria.
-Escuta.
Tudo isto que nos está a acontecer é maior do que nós dois. Não é daqui. Não é
da terra, percebes?
-Não.
Não dizes coisa com coisa.
-Escuta-me,
por favor.
-Fala.
Estou a ouvir.
-
O búzio soltou alguns nomes na minha mente: Jesus Cristo, João Baptista, Joana
D’Arc, São Francisco de Assis, Mahatma Gandhi, Madre Teresa de Calcutá.
-Sim,
sei, e…
-A
espiral solidificada no interior do búzio ecoa continuamente, ao meu ouvido, os feitos magníficos destas pessoas.
Sacrificaram as suas vidas em prol da humanidade. São detentoras de um coração
enorme na sua entrega incondicional ao mundo por amor ao próximo. Não se trata
de posse, Francisco. Não se trata de “é meu!”. Trata-se de desprendimento, de
libertar, de sofrer nesse soltar para ver o outro feliz e bem. Ninguém se sente
feliz de verdade se enjaular quem diz que ama. Matar, então! Ora pensa lá bem.
-Sempre
foste uma obcecada por espirais, mulher!
-Queres
saber porquê? Vou desenhar-te uma. Repara. Sabes o que simboliza?
-
Não. Tenho a sensação de que me vais explicar.
-Experimenta
desenhar uma, enquanto te explico. Começa de um ponto, de um centro, e vai
girando em torno desse ponto; vai soltando todos os teus problemas, receios,
constrangimentos, mágoas. Toda a tua dor : nesse movimento giratório. Repara
que, se quiseres, a espiral não tem fim. É uma sensação de libertação, de
serenidade, de tranquilidade. É magnífico. É catártico.
-Vamos
lá ver isso. Ok. Já comecei a desenhá-la.
Experimento.
-A
espiral simboliza a evolução num movimento ascendente e progressivo,
normalmente positivo e construtivo. Dá a impressão de que existem diversos
patamares em altura a um mesmo nível de posição espacial: várias dimensões.
Tudo na vida, embora se mantendo na mesma posição, evolui para cima, no sentido
ascendente, compreendes? Nada é estático. Nada está parado; embora, por vezes,
aparente estar. Olha o planeta Terra, por exemplo. Gira em torno de si mesmo e,
de forma elíptica, em torno do sol. No entanto, a sensação que temos é a de que
está parado e que o que gira é o sol ou a lua.
É próprio das pessoas também evoluírem.
-Não
percebo onde queres chegar.
-Quando
nos conhecemos, Francisco, éramos adolescentes. Mediante o que tínhamos vivido
até aí, identificámo-nos, aproximámo-nos, amámo-nos. Entretanto a vida não
parou, Francisco. Tal como essa espiral que estás aí a construir, a vida segue
o seu rumo. As pessoas continuam a ser desenhadas no seu percurso elíptico em direcção
ao infinito; continuam a interagir com o meio cósmico, com a realidade em
redor.
-Sim,
explica-te melhor.
-Tal
como essa espiral, as pessoas buscam, procuram e encontram-se, em determinado
momento, com outras pessoas com as quais se identificam. Sabes disso, perfeitamente.
-Sei?
-Sabes,
Francisco. Eu refresco-te a memória. Nunca te falei, mas sei que tens te
encontrado com algumas pessoas fora do nosso casamento.
-Certo.
Não te vou mentir.
-A
diferença entre nós é que, quando aconteceu comigo, eu confidenciei-te. És
acima de tudo o meu companheiro, o meu amigo.
-Mas
isso dói, Maria.
-Eu
sei. Dói mais sabermo-nos enganados. Eu não te menti, nunca. Posso ter omitido
uns tempos; mentir, não. E nunca te apontei uma arma à cabeça.
-
Desculpa, Maria.
-Eu
conheço-te. Sei que não serias capaz.
-Gosto
de desenhar esta espiral. Tens razão, acalma. Está a ficar bonita. Ainda gostas
de mim?
-Claro
que sim. Nunca se deixa de gostar. Vivemos bons momentos juntos. A espiral
plana está associada a movimentos de evolução e de involução. Todos nós temos
esses momentos em que progredimos e regredimos. A espiral dupla traduz o todo,
a união dos contrários, o nascimento e a morte. Assim como a vida , a espiral projecta-se
para o infinito e, aparentemente, não tem fim.
-Verdade.
Se quiser posso continuar nesta cena horas. Bem…horas, não. Até acabar o papel.
-Ora
aí está. Não se trata das pessoas só. Pressinto que o papel está a acabar. O
mundo. Algo de maior vai passar-se.
-A
sério?
-Sim.
Vamos aguardar p’ra ver. Está p’ra breve uma mudança radical.
-Gostas?
-Está
fantástica a tua espiral. Parece uma
helicoidal, em forma de hélice. Estas aparecem em várias culturas. Está associada à lua, à água, ao feminino, à
evolução cíclica, à vida e à fertilidade. E é representada em muitas divindades
femininas do paleolítico. É o símbolo erótico da vulva. Também ela uma espiral.
A origem: por onde nascem os bebés.
-Muito
me contas.
-Nas
filosofias hindus surge associada aos movimentos dos chacras. Na Índia, a
espiral é a energia Kundalini, que dorme enroscada (como a serpente ígnea) na
base da coluna vertebral, em estado latente, pronta a ser despertada.
-Realmente
assemelha-se ao enroscar de uma serpente.
-Apesar
de ser movimento constante, indica equilíbrio e ordem inseridos numa permanente
mudança.
-Percebo
o que estás a querer dizer-me, Maria. Sempre foste uma pessoa especial. Não
quero perder-te, é isso.
-Francisco,
não vais perder-me. Tu tens o teu lugar
em mim. Nunca se sai de um amor. O que muda é a forma como vivemos esse amor, a
forma como nos relacionamos. O amor que sinto por ti, é. Não vai deixar de ser
nunca. É calmo, é de irmãos, é de sangue. Estarei sempre disponível para ti,
para o que precisares.
-Eu
sei. Conheço-te bem.
-Tens
de compreender que evoluímos, temos mais quinze anos de vivências, desde o
primeiro momento em que nos vimos. É natural que estejamos diferentes. Tudo , no
universo, se transforma. Nada é imutável. Nós mudamos e crescemos. Não vale a
pena insistir numa forma de relacionamento que já não é a que encaixa em nós.
Também tu tens sentido desejo por outras mulheres, sabes disso. É isso que
sentes que tens de respeitar.
-Sei,
sim.
-Eu
estarei aqui, no meu lugar, na minha nova posição. Serei sempre tua amiga, tua
irmã. Não me perdes. Ganhas-me numa outra dimensão, mais madura, mais saudável.
-Eu
sei. Dá-me tempo. Tudo se compõe. Esta espiral está fantástica.
-A
espiral plana representa o labirinto e tanto pode indicar expansão como compressão para o centro. Em África, em
certas tribos, é o deus masculino, o movimento das almas e dos espíritos, a
criação da vida e do mundo. Em culturas muito antigas, representa relógios
solares; e como dança do solstício provoca êxtase, facilita a evasão do mundo
terrestre e a invasão do Além.
-Toda
esta explicação por causa dos murmúrios de um búzio à venda para quem, com
amor, o quiser comprar.
-É
mesmo.
-Vais
mesmo fazer vida com ele?
-Se
ele me quiser. É mesmo dele a filha que trago dentro de mim.
-Não
é minha?
-Não.
Fiz o teste e deu negativo. Entretanto, tenho estado com o Nuno.
-(…)
-Eu
sei que dói, mas é isto que sinto. Vamos ter juízo porque os nossos filhos
precisam da mãe viva e do pai fora da prisão. E agradecem a ausência de traumas
maiores do que a própria vida.
-Certo,
desculpa.
-Eu
abro-te a porta.
-Ok.
-Oh!,
estavas aí, Nuno?
-
Está tudo bem?
-Sim.
Não se preocupem, não vos causarei mais problemas. Maria, sossega. Está tudo
bem.
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."
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