-É ela? É
mesmo ela. É linda. Estou fodido. Deixa-me estar de costas. Nem sei como hei-de
reagir. Já deve estar a subir as escadas. P’ra que é que a convidei para este
curso? Já sabia que isto ia acontecer. Já supunha. Maio, o mês do mais. É hora
do mais.
-Acalma-te,
rapaz. Cabeça erguida. Área de másculo. Olha o estatuto. Sou eu, o teu amigo, o
velho, aquele que sabe. Deixa-te estar de costas. A ver o que ela faz. Assim,
já ficas a saber quem ela é de verdade. E aproveita o mais em Maio. Se gostas
assim tanto dela, aproveita. Tira o máximo de proveito do tempo que te é
concedido com ela, pois esse não volta mais. A tômbola parou, mas vai voltar a
rodar. Aproveita. Será que te ignora como todos os outros? Vamos já ver isso.
Está a chegar. Mantém-te de costas. Ignora-a. É agora.
-Nuno?
-Sim, sim.
-Maria,
prazer!
-Ah!,
olá. Pode sentar. Acomode-se. O curso começa dentro de instantes.
-É
linda , velho. Viste aqueles olhos? Quase que induzem um gajo em hipnose de tão
verdes, de tão buraco negro. A espiral. A minha Maria, a personagem do meu
primeiro livro, “carnificada”. Voltou a acontecer. Acho que despertei algo.
Reparaste como sorriu? Sorriso franco. Adoro sorrisos. E as covas na face. É
linda. E tão pequena. Tão pequena. Os cabelos: são selvagens. Parece uma leoa.
Cheira bem. A pele dela, o toque da pele dela quando me beijou: cheira bem. Tem
rugas de vida, trabalho e dor em torno dos olhos. É madura. É como eu gosto.
Tão cheirosa.
-Tu
continuas o mesmo desengonçado. Tão bruto a beijar. Tão desajeitado. Não é
preciso tanta força. Até parece que nunca beijaste. E custou-te baixar a cabeça
e o corpo para ela te chegar. Custou-te. Até parece que não gostas de beijos.
Mortinho que estás por mais toque dela.
-Cala-te
um pouco, agora, velho. Sabes que, sendo ela, a do meu livro, vou fazê-la
sofrer. É o que está escrito. E não quero fazê-la sofrer. A aura dela é
mercúrio: queima. Custou-me baixar porque tostei. O melhor é afastar-me. Já me
arrependi de a chamar. Tenho de trabalhar. Vou ser-lhe útil. Vou ajudá-la.
Começo pelos sinais de pontuação. Ela falha muito nisso. Mas, pelo ar, já vi
que é esperta. Ora repara lá tu, velho. Não posso olhá-la directamente nos
olhos senão entro em transe e denuncio-me. E não é por aqui que eu quero ir.
Tenho a Joana. Tenho uma carreira a manter. Estou fodido. É forte. E sei que
vou fazê-la sofrer. É o que está escrito.
-Pois
vais. Mas não é pelo que está escrito no livro. É pelo que tu és. Perante
sentimentos fortes, avassaladores, és um
cobarde. Sempre foste. Vais ignorá-la. Vais querer fugir-lhe. Vais querer
fugir-te. Sabes que alimentar um sentimento intenso por ela arruma contigo. E
tu queres dominar a situação, não é? És um cobarde. Criar um mundo
completamente diferente do anterior dói; pôr um ponto final no antes dói. E tu
és cobarde. Não vais querer criar esse mundo. Vá! Começa lá o jogo! Já tens
tudo planeado. Começa a mandar as mensagens subliminares para o intelecto dela.
É esperta: a dada altura vai perceber.
-
Os dois pontos são um elo de ligação. Por exemplo: “Não sabe o que fazer:
parvo.” Pronto, comecei.
-Olha-a.
Podes olhar agora que ela não está a ver. Está concentrada no exercício. Repara
como põe a mão esquerda no peito quando escreve. É tique. Cá p’ra mim está a
segurar o ritmo cardíaco. Não deve conseguir estar no mesmo espaço físico que
tu. Sente-se demasiado próxima. Não a sentes constrangida? Olha como respira
fundo. Até parece que tem falta de ar.
-Cala-te,
velho. Já estás a começar a enervar-me. Vês o que fizeste? Ela topou que eu
estava a olhar. Merda! Estou a queimar. Vê lá se não tenho gotas de suor a
escorrer pela cara. Caraças, esqueci o livro que me encomendou no carro.
-Fácil.
No final, leva-la contigo até ao carro. Aproveitas o mais em Maio: dás-lhe uns
amassos. ‘Tás mortinho por isso e há meses. Sempre a sonhar acordado com a foto
dela, com o sorriso contido dela, com as letras dela. Agora tens a tua
Maria, aí, em pele, carne e osso. O que
te impede?
-É
casada, velho. Não vês? É casada. Apanhei um desgosto quando vi a aliança na
mão esquerda. É casada. E não só isso. Sabes bem que entretanto as circunstâncias
modificaram.
-E…
já não seria a primeira a apaixonar-se por ti, mesmo casada. E o escritor és
tu. Deverias dizer: está casada. Não: é. Está. Tão depressa está como pode
deixar de estar. Repara como gosta de ti. É óbvio. Sentes? Não sentes o algo que
percorre o trajecto que vai de um ao outro, dela até ti e vice-versa. Não
sentes o algo? Olha as partículas de luz a moverem-se. Uma espécie de aurora
boreal, uma poeira entre auras.
-
Sinto, mas não quero sentir. Vejo, mas não quero ver. E até ouço o vibrar da
corda, o eco do metal tibetano, mas não quero ouvir. Está casada. Arrumou. Há
muita mulher por aí. E eu tenho a Joana: a Joana que já não é a Joana. A Joana que já não é a
Joana, as fãs, e a minha carreira já dão muito que fazer.
-E
a letra dela… tão traço, tão feminina, tão nevoeiro: mais de metade do desenho
das letras ficam no vácuo. O movimento da mão já não as capta, só restos, só
vestígios do que um dia foram, símbolos completos do que está dentro e perde
força à chegada. É uma estudiosa, sem dúvida. É uma viciada em escrita. És tu. Pára
de a contemplar. Vai apanhar-te outra vez.
-
Já parei. Ela não olha, mas está a ver. Eu sinto-a.
-
Trouxe o livro?
-Sim,
sim. Está no carro. Mas a Maria espera e eu vou buscá-lo num instante.
-Não.
Eu vou consigo até ao carro. Gosto de caminhar na minha cidade.
-Ok.
O seu raio-x está bom.
-Como?
-O
seu texto está bom. Tem qualidade.
-Obrigada.
Não repare. Estou a tomar comprimidos; por isso estou um pouco lenta.
-
Mas porquê? Anda triste, é?
-Mais
ou menos.
-Comprimidos
não interessam a ninguém.
-Eu
sei. Mas tem de ser. Costuma vir cá muitas vezes?
-Cada
vez mais. Uma cidade pequena tem tudo o que uma cidade grande tem.
-Quanto
é o livro?
-19
euros. Mas este é oferecido.
-Oh!,
não. Nem pensar. É o seu ganha - pão.
-Ok.
Quer que a leve até ao carro. Entre, entre. Eu levo-a.
-Agradecida.
Estou com um bocado de medo de ir sozinha. Está num sítio feio.
-Mais
uma coincidência. Tem um carro da marca do meu.
-É?
Não sei. Eu de carros percebo pouco. Bem. Obrigada, mais uma vez. Gosto muito
de si.
-Eu
também gosto muito de si.
-Viste?
Deu-te um beijo na cara. E demorado. E afagou-te. E tu, como sempre:
desastrado. Parecias uma presa a fugir do predador. Até a deixaste sem jeito.
Foi só um beijo de agradecimento. Um carinho. E tu: bruto. Fugiste com a cara.
Acho que até a magoaste nos lábios com a barba de tanta velocidade na fuga. Foi
só um beijo de agradecimento.
-Pára,
velho. Tenho a Joana que já não é a Joana à espera. Pára.
-Não
gostaste da atitude? Não mintas.
-Claro
que gostei. Um beijo roubado, se consentido, deixa de ser um beijo roubado.
Claro que gostei. O problema é esse. Gostei até demais. Gosto da loucura dela.
Gosto muito dela. Não ouviste? Mas estou assustado com a ousadia e a ternura
dela. E disse-me: “gosto muito de si”. Deixa-me sonhar, velho, apenas sonhar.
Tenho a Joana, e esta é casada.
-E
as coincidências? A mesma linguagem textual, o mesmo ímpeto, a mesma freguesia,
a mesma cidade, as fobias, a marca do carro, o feitio. Onde fica isso tudo? Não
achas que são coincidências a mais?
-Meras
coincidências, velho. A quente assusta. Mas a frio são meras coincidências,
nada mais. Tenho de ir buscar a Joana e mais alguém. Não te esqueças de que
está grávida. Agora cala-te com a Maria que a Joana já fez longa viagem p’ra
chegar até aqui.
-Grávida?
E como conseguiste essa proeza?
-Eu
menti-te, velho. Eu tomava medicação para a esquizofrenia. Menti também aos
investigadores. Mas foi por pouco tempo. Já tinham saído os relatórios. Eles
perceberam que a minha disfunção eréctil estava relacionada com a toma da
medicação e com traumas de infância. Deixei de a tomar e passei a tomar a
Maria. Foi assim que engravidei a Joana. E estou feliz. Vou ser pai pela
primeira vez na vida. Estou radiante. Pensava precisamente o oposto: que não
queria filhos. O meu relógio biológico pregou-me uma partida. Estou a adorar.
Vou ser pai!
-Estás
a adorar? Tu? Tu que um dia disseste à Joana que se engravidasse teria de fazer
um aborto.
-Ai
dela! Quero este filho mais do que tudo na vida. Quero sentir o que é amar e
ser amado por um filho. Se há coisa que os versos da Maria me ensinaram foi
isso: curiosidade em sentir o amor pai-filho.
No amor, é só o que me resta saber. Amar e ser amado por um filho. Pai: amo-te.
Filho: amo-te. A génesis da vida.
“ Ao ver-te, meu amor, tudo parou: tudo
acelerou.
Nem sei se diga,
nem sei se faça,
Nem sei se siga,
nem sei se nasça.
Tudo começou e
tudo acabou.
Ao ver-te, meu
amor, o meu coração rompeu:
Em todas e direcção
alguma.
Nem sei se corra,
nem sei se pare,
Nem sei se mate ou
se morra.
Ao ver-te, meu
amor, a minha loucura gemeu
Na tremura em que te senti,
Em mim teu olhar
doeu;
Petrifiquei :
ardor suado - vivo
Consumido, amor,
no fado meu: sofro .”
(NFF)
-P’ra
ti Maria, pelo beijo que me roubaste e que senti cá dentro, bem fundo. Sei que
te minto, mas tu sabes. Tu sabes. Pronto: postado. Meia-noite e meia. Pode ser
que ainda o veja hoje. Não te posso dar a minha pessoa, mas posso,
momentaneamente, dar-te toda a minha
alma. Toma-a. É tua, Maria.
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