quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Capítulo 17 ( continua...)


-É ela? É mesmo ela. É linda. Estou fodido. Deixa-me estar de costas. Nem sei como hei-de reagir. Já deve estar a subir as escadas. P’ra que é que a convidei para este curso? Já sabia que isto ia acontecer. Já supunha. Maio, o mês do mais. É hora do mais.

-Acalma-te, rapaz. Cabeça erguida. Área de másculo. Olha o estatuto. Sou eu, o teu amigo, o velho, aquele que sabe. Deixa-te estar de costas. A ver o que ela faz. Assim, já ficas a saber quem ela é de verdade. E aproveita o mais em Maio. Se gostas assim tanto dela, aproveita. Tira o máximo de proveito do tempo que te é concedido com ela, pois esse não volta mais. A tômbola parou, mas vai voltar a rodar. Aproveita. Será que te ignora como todos os outros? Vamos já ver isso. Está a chegar. Mantém-te de costas. Ignora-a. É agora.

-Nuno?

-Sim, sim.

                -Maria, prazer!

                -Ah!, olá. Pode sentar. Acomode-se. O curso começa dentro de instantes.

                -É linda , velho. Viste aqueles olhos? Quase que induzem um gajo em hipnose de tão verdes, de tão buraco negro. A espiral. A minha Maria, a personagem do meu primeiro livro, “carnificada”. Voltou a acontecer. Acho que despertei algo. Reparaste como sorriu? Sorriso franco. Adoro sorrisos. E as covas na face. É linda. E tão pequena. Tão pequena. Os cabelos: são selvagens. Parece uma leoa. Cheira bem. A pele dela, o toque da pele dela quando me beijou: cheira bem. Tem rugas de vida, trabalho e dor em torno dos olhos. É madura. É como eu gosto. Tão cheirosa.

                -Tu continuas o mesmo desengonçado. Tão bruto a beijar. Tão desajeitado. Não é preciso tanta força. Até parece que nunca beijaste. E custou-te baixar a cabeça e o corpo para ela te chegar. Custou-te. Até parece que não gostas de beijos. Mortinho que estás por mais toque dela.

                -Cala-te um pouco, agora, velho. Sabes que, sendo ela, a do meu livro, vou fazê-la sofrer. É o que está escrito. E não quero fazê-la sofrer. A aura dela é mercúrio: queima. Custou-me baixar porque tostei. O melhor é afastar-me. Já me arrependi de a chamar. Tenho de trabalhar. Vou ser-lhe útil. Vou ajudá-la. Começo pelos sinais de pontuação. Ela falha muito nisso. Mas, pelo ar, já vi que é esperta. Ora repara lá tu, velho. Não posso olhá-la directamente nos olhos senão entro em transe e denuncio-me. E não é por aqui que eu quero ir. Tenho a Joana. Tenho uma carreira a manter. Estou fodido. É forte. E sei que vou fazê-la sofrer. É o que está escrito.

                -Pois vais. Mas não é pelo que está escrito no livro. É pelo que tu és. Perante sentimentos fortes, avassaladores,  és um cobarde. Sempre foste. Vais ignorá-la. Vais querer fugir-lhe. Vais querer fugir-te. Sabes que alimentar um sentimento intenso por ela arruma contigo. E tu queres dominar a situação, não é? És um cobarde. Criar um mundo completamente diferente do anterior dói; pôr um ponto final no antes dói. E tu és cobarde. Não vais querer criar esse mundo. Vá! Começa lá o jogo! Já tens tudo planeado. Começa a mandar as mensagens subliminares para o intelecto dela. É esperta: a dada altura vai perceber.

                - Os dois pontos são um elo de ligação. Por exemplo: “Não sabe o que fazer: parvo.” Pronto, comecei.

                -Olha-a. Podes olhar agora que ela não está a ver. Está concentrada no exercício. Repara como põe a mão esquerda no peito quando escreve. É tique. Cá p’ra mim está a segurar o ritmo cardíaco. Não deve conseguir estar no mesmo espaço físico que tu. Sente-se demasiado próxima. Não a sentes constrangida? Olha como respira fundo. Até parece que tem falta de ar.

                -Cala-te, velho. Já estás a começar a enervar-me. Vês o que fizeste? Ela topou que eu estava a olhar. Merda! Estou a queimar. Vê lá se não tenho gotas de suor a escorrer pela cara. Caraças, esqueci o livro que me encomendou no carro.

                -Fácil. No final, leva-la contigo até ao carro. Aproveitas o mais em Maio: dás-lhe uns amassos. ‘Tás mortinho por isso e há meses. Sempre a sonhar acordado com a foto dela, com o sorriso contido dela, com as letras dela. Agora tens a tua Maria,  aí, em pele, carne e osso. O que te impede?

                -É casada, velho. Não vês? É casada. Apanhei um desgosto quando vi a aliança na mão esquerda. É casada. E não só isso. Sabes bem que entretanto as circunstâncias modificaram.

                -E… já não seria a primeira a apaixonar-se por ti, mesmo casada. E o escritor és tu. Deverias dizer: está casada. Não: é. Está. Tão depressa está como pode deixar de estar. Repara como gosta de ti. É óbvio. Sentes? Não sentes o algo que percorre o trajecto que vai de um ao outro, dela até ti e vice-versa. Não sentes o algo? Olha as partículas de luz a moverem-se. Uma espécie de aurora boreal, uma poeira entre auras.

                - Sinto, mas não quero sentir. Vejo, mas não quero ver. E até ouço o vibrar da corda, o eco do metal tibetano, mas não quero ouvir. Está casada. Arrumou. Há muita mulher por aí. E eu tenho a Joana: a Joana  que já não é a Joana. A Joana que já não é a Joana, as fãs, e a minha carreira já dão muito que fazer.

                -E a letra dela… tão traço, tão feminina, tão nevoeiro: mais de metade do desenho das letras ficam no vácuo. O movimento da mão já não as capta, só restos, só vestígios do que um dia foram, símbolos completos do que está dentro e perde força à chegada. É uma estudiosa, sem dúvida. É uma viciada em escrita. És tu. Pára de a contemplar. Vai apanhar-te outra vez.

                - Já parei. Ela não olha, mas está a ver. Eu sinto-a.

                - Trouxe o livro?

                -Sim, sim. Está no carro. Mas a Maria espera e eu vou buscá-lo num instante.

                -Não. Eu vou consigo até ao carro. Gosto de caminhar na minha cidade.

                -Ok. O seu raio-x está bom.

                -Como?

                -O seu texto está bom. Tem qualidade.

                -Obrigada. Não repare. Estou a tomar comprimidos; por isso estou um pouco lenta.

                - Mas porquê? Anda triste, é?

                -Mais ou menos.

                -Comprimidos não interessam a ninguém.

                -Eu sei. Mas tem de ser. Costuma vir cá muitas vezes?

                -Cada vez mais. Uma cidade pequena tem tudo o que uma cidade grande tem.

                -Quanto é o livro?

                -19 euros. Mas este é oferecido.

                -Oh!, não. Nem pensar. É o seu ganha - pão.

                -Ok. Quer que a leve até ao carro. Entre, entre. Eu levo-a.

                -Agradecida. Estou com um bocado de medo de ir sozinha. Está num sítio feio.

                -Mais uma coincidência. Tem um carro da marca do meu.

                -É? Não sei. Eu de carros percebo pouco. Bem. Obrigada, mais uma vez. Gosto muito de si.

                -Eu também gosto muito de si.

                -Viste? Deu-te um beijo na cara. E demorado. E afagou-te. E tu, como sempre: desastrado. Parecias uma presa a fugir do predador. Até a deixaste sem jeito. Foi só um beijo de agradecimento. Um carinho. E tu: bruto. Fugiste com a cara. Acho que até a magoaste nos lábios com a barba de tanta velocidade na fuga. Foi só um beijo de agradecimento.

                -Pára, velho. Tenho a Joana que já não é a Joana à espera. Pára.

                -Não gostaste da atitude? Não mintas.

                -Claro que gostei. Um beijo roubado, se consentido, deixa de ser um beijo roubado. Claro que gostei. O problema é esse. Gostei até demais. Gosto da loucura dela. Gosto muito dela. Não ouviste? Mas estou assustado com a ousadia e a ternura dela. E disse-me: “gosto muito de si”. Deixa-me sonhar, velho, apenas sonhar. Tenho a Joana, e esta é casada.

                -E as coincidências? A mesma linguagem textual, o mesmo ímpeto, a mesma freguesia, a mesma cidade, as fobias, a marca do carro, o feitio. Onde fica isso tudo? Não achas que são coincidências a mais?

                -Meras coincidências, velho. A quente assusta. Mas a frio são meras coincidências, nada mais. Tenho de ir buscar a Joana e mais alguém. Não te esqueças de que está grávida. Agora cala-te com a Maria que a Joana já fez longa viagem p’ra chegar até aqui.

                -Grávida? E como conseguiste essa proeza?

                -Eu menti-te, velho. Eu tomava medicação para a esquizofrenia. Menti também aos investigadores. Mas foi por pouco tempo. Já tinham saído os relatórios. Eles perceberam que a minha disfunção eréctil estava relacionada com a toma da medicação e com traumas de infância. Deixei de a tomar e passei a tomar a Maria. Foi assim que engravidei a Joana. E estou feliz. Vou ser pai pela primeira vez na vida. Estou radiante. Pensava precisamente o oposto: que não queria filhos. O meu relógio biológico pregou-me uma partida. Estou a adorar. Vou ser pai!

                -Estás a adorar? Tu? Tu que um dia disseste à Joana que se engravidasse teria de fazer um aborto.

                -Ai dela! Quero este filho mais do que tudo na vida. Quero sentir o que é amar e ser amado por um filho. Se há coisa que os versos da Maria me ensinaram foi isso: curiosidade em sentir o amor pai-filho.  No amor, é só o que me resta saber. Amar e ser amado por um filho. Pai: amo-te. Filho: amo-te. A génesis da vida.

 

                Ao ver-te, meu amor, tudo parou: tudo acelerou.

                Nem sei se diga, nem sei se faça,

                Nem sei se siga, nem sei se nasça.

                Tudo começou e tudo acabou.

                Ao ver-te, meu amor, o meu coração rompeu:

                Em todas e direcção alguma.

                Nem sei se corra, nem sei se pare,

                Nem sei se mate ou se morra.

                Ao ver-te, meu amor, a minha loucura gemeu

                Na tremura em  que te senti,

                Em mim teu olhar doeu;

                Petrifiquei : ardor suado - vivo

                Consumido, amor, no fado meu: sofro .”

 

                (NFF)

 

                -P’ra ti Maria, pelo beijo que me roubaste e que senti cá dentro, bem fundo. Sei que te minto, mas tu sabes. Tu sabes. Pronto: postado. Meia-noite e meia. Pode ser que ainda o veja hoje. Não te posso dar a minha pessoa, mas posso, momentaneamente,  dar-te toda a minha alma. Toma-a. É tua, Maria.

 
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

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