quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Capítulo 17


Capítulo 17

 

                Tudo era algodão, branco e almofadado. Tudo era algodão. Lindo. Só faltava avistar um anjo ou até mesmo Deus. Quem sabe? Um buraco? O que é aquilo? O oceano em tons de azul e esmeralda, uma paisagem crispada e encrostada de negro em redor, xisto. Camadas de rochas frias e duras, outrora lava quente e mole. O tempo. O trabalhar do tempo. A marca do tempo no buraco. Rectângulos em puzzle de múltiplas cores, cores vivas: telha, girassol, verde. Tantos rectângulos coloridos. Imensos rectângulos à descida no planar do país do amor. Os cadeados na ponte. As chaves no rio. As flores. Os nus em redor. Magnificentes estátuas vivas - de gentes de outros tempos, mortas. Gigantescas e pomposas esculturas despidas de mundo, vestidas de dor. A cidade do amor.

-Acho que estou a exagerar na dose. Sinto-me tão zonza; com os olhos tão pesados. E esta viagem de camioneta não me está a fazer nada bem. Que enjoo! Ainda vou ter um colapso. Já há quatro horas na estrada, cruzes! Esta  falta de ar que nunca mais passa. Que aflição. Raios partam o tórax  que não obedece. E o diafragma que não sobe e o ar que não entra. Há três semanas a tomar aquela porcaria e não há maneira de melhorar. Dois alprazolam e meio por dia. Quase a dormir. E o ar que não entra. Que desespero.

                -Sabes que a medicação ajuda, Maria. Mas o verdadeiro problema está na tua cabeça. Entro, não entro, no avião? Entraste. Entro, não entro, no metro? Entraste. Afinal, não é nada de especial. Tantos anos a evitá-los. Tanto filme. Não vou conseguir respirar, não vou poder abrir uma janela; vou sentir-me apertada, fechada. Lá em cima não posso abrir uma janela! Debaixo do chão é escuro, apertado. E a falta de ar. Afinal, nem lá em cima, nem lá em baixo, é apertado. Afinal, há muita claridade. Afinal, sentes o ar fresco a correr e respiras. A tua cabeça é que é apertada e fechada e escura. É  aí que tens de abrir a janela: as janelas. E as portas. E tudo mais que houver para abrir. É já Abril. Abril: abrir. Percebes? Começa. Já começaste? Agora continua.

                -Comecei, pois,  com a muleta. Sempre com a muleta: as pastilhas. Sou uma triste, é o que é. Espera. Tenho de respirar. Não consigo. Devagarinho, Maria, vá. Devagarinho. Como aquela aluna te explicou. Aquela que sofre de ansiedade crónica. “Inspire e expire devagarinho, Setora. E, se tiver um saco de papel, melhor.” Inspira, vá. Agora expira para o saco. Torna a inspirar. Sentes-te melhor? Nem por isso. O músculo do peito não obedece. Não sobe, nem desce. Porra! Vou levantar-me. Vou dobrar-me sobre mim mesma e deixar as mãos a balançar, quase a tocar no chão. Agora inspira. Pronto. Conseguiste! O ar entrou bem fundo e chegou a todos os poros que tinha de chegar. Sentiste-o? Sim. Que alívio. Tenho ar para mais cinco minutos.

                -Essa posição resulta sempre, Maria. Não é? Bem. Nem sempre. Mas quase sempre. Ao fim de alguns minutos largos de sufoco, resulta. Como? A distribuir balões e a mandar enchê-los a caminho do Parlamento Europeu? Estou lixada. Se nem ar tenho para mim, vou ter para os balões! Não me parece boa ideia, mas eles é que são os organizadores; eles lá sabem. Se um rebenta vai pôr aquela segurança toda em sentido. Um ataque terrorista! Help! Enfim. Sinceramente. Há gente que não pensa.

                - Lá estás tu com os teus medos. É por isso que não consegues respirar, não é? Parlamento Europeu e tal…ataques terroristas. O teu pavor perante situações de risco, situações que não podes controlar, perante a morte. As tuas fobias todas explicam-se à luz deste sentimento comum: algo deixar de estar nas tuas mãos; não seres tu a controlar a situação. Ora pensa lá bem: multidões, fogo de artifício, elevadores, aviões, metropolitanos, alturas,  cancro, velocidade, amores não correspondidos, cidades amplamente divulgadas e centros nevrálgicos do mundo. Em Bruxelas há 90% de hipóteses de ocorrer um atentado, é o coração da Europa. Se bem que de sentimentos relativos ao coração nada tenha. Minto. Tem os chocolates. E nem os vi.

                -Sim, sim. Já conheço de cor essa ladainha. Não tens mais nada p’ra me dizer? Algo novo? Uma verdadeira novidade. É disso que eu preciso. De coisas velhas, caquécticas, usadas, remexidas, conspurcadas, definhadas, já estou eu farta. Algo novo. Vá! Tenho de me dobrar outra vez. Inspira. Expira. Que alívio! Veio-me à memória a operação às amígdalas; tinha os meus seis anos. Para me dar a anestesia a enfermeira sentou-me no colo dela, prendeu as minhas mãos nas dela, entrelaçou os meus pés nos dela e, de repente, um funil na minha boca. Que aflição! Foi a primeira vez que me lembro de me ter faltado o ar: uma coisa fresca a entrar pela garganta abaixo (mesmo fresca); um ar que não servia aos pulmões, um desespero, um estrebuchar e…tudo escuro, o vazio, o nada. A primeira vez que me senti violentada. A primeira vez que morri.

                - Oh!, esquece isso. Manda lá para o fundo do baú . Queres algo novo? Deixa lá pensar. Já há quatro dias que vives algo completamente novo. Novidade atrás de novidade e nem por isso pareces satisfeita. Viagem de avião, conhecer gente de oito países, falar quatro línguas (todas misturadas que nem uma caldeirada porque do outro lado não as sabem e não as querem falar), viagem de metro. Conheceres a imponência de um império que os livros de história não conseguem, nas suas imagens, fidelizar; olhar, com esses teus olhos gigantes, para as paisagens miraculosamente agrícolas de dois países diferentes do teu. E nem assim ficas satisfeita. O problema és tu. Já sabias. Mas agora ficaste com a completa certeza. Vais ter de criar uma verdadeira revolução dentro de ti. Não há lugar no mundo que te resolva de ti. De que te adianta teres todos os outros, e tudo em teu redor, se não te tens a ti?

                - Isso dos outros não saberem falar línguas estrangeiras, ou não quererem, é verdade. É uma autêntica desilusão. E uma dor de cabeça tentar falar com erros para que me percebam. Fazer todo o percurso para trás, à caranguejo. Regressar ao início, ao nada saber: precisamente por sentir que o outro lado não se esforça por cá chegar, ao fim. Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. E nem só isso. Os miúdos apresentaram o trabalho melhor concebido e melhor alicerçado em termos de multimédia. Foram excelentes na apresentação numa língua que não a sua. É preciso recordar que eles se intitulavam os “inaptos”: um gago, uma surda, uma afónica e dois imigrantes. Eu acrescento: e uma multifóbica.  E os “inaptos” foram eleitos os melhores no seu país. E não vamos esquecer que, não fora a equipa que nos acompanha, a do nosso país, nenhum trabalho seria devidamente apresentado. Fomos nós que preparámos toda a parte de multimédia. Os outros não sabiam: fichas, fios, cabos, computadores, software, projectores, todo um mundo a desligar. Nem a organização estava minimamente preocupada. Mais uma vez pediram-nos para abdicar da parte multimédia, para passar uma esponja em todo o mérito e fazer apenas uma apresentação oral, sem suporte técnico. Mais uma vez o caranguejo. Afinal, o que é que se passa? Sempre pensei que a minha terra e as gentes da minha terra fossem menos sabedoras e conhecedoras do que os outros das outras terras. O que dizem nas notícias é que lá fora é que estão os génios. Lá fora é que sabem tudo. Nós somos uns ignorantes. Mas agora eu estou lá fora. E apercebo-me que lá fora pouco sabem. Nem sequer se dão ao trabalho de saber. Não precisam. Têm os criados de lá dentro. Têm os desenrascados e os perfeccionistas de lá dentro. Têm os trabalhadores, os escravos, de lá dentro.

                -Sabes, Maria, os de lá dentro são sábios, são prestáveis, são grandes. Mas falta-lhes uma coisa importante. Essa, que só os de lá fora têm: o estatuto. E quem tem o estatuto não precisa de se esforçar, nem sequer de trabalhar. Tem o estatuto, tem quem trabalhe p’ra eles, tem o rendimento garantido, tem o poder nas mãos. Tem a pequenez de espírito, a preguiça incutida, o mete-nojo na alma, mas o trabalho feito e o rendimento garantido. E o de lá fora ganha sempre, ganha sempre. Mesmo que o trabalho do de lá dentro seja o top da excelência, o de lá fora ganha sempre. De uma maneira ou de outra, ganha. Seja porque tem o estatuto e a competição já está ganha mesmo antes de haver competição. Se pensarmos bem nem podemos chamar de competição. É um tapar da peneira. É um bode expiatório para recordar aos de lá dentro que os de lá fora são sempre os vencedores, sempre. Nem que seja (e principalmente porque é) à custa do trabalho, da inteligência, da genialidade, do mérito, da submissão dos de lá dentro. E tenho dito.

                -Estás inspirada, Maria. Já tiraste o relógio e o cinto? Olha que a segurança aqui é apertada. Não tinhas reparado? Afinal, já passámos pela máquina. O que estás tão atenta a ouvir?

                -Tchiu! Só um segundo! Inacreditável! Não posso crer no que estou a ouvir. E os nossos representantes? Não dizem nada? Se calhar não compreendem a língua.

- Estás a ser inocente. É claro que compreendem. Não querem é dizer. Pelo que vejo, nem tiraste o relógio nem o cinto. Diz tu.

-Não precisei. A máquina ainda não tem poder para captar o material deste tipo de relógio e de cinto. Vou dizer.

-Olha. Aquele olhar de lado da Drª. Abanou ligeiramente a cabeça quando te viu levantar. Senta-te. É p’ra não intervires. Parece que a máquina captou. Ela lá sabe. Tem mais experiência nisto da política. É melhor acalmares-te. Senta-te.

- Sentei. Está a ser difícil de engolir. Tu estás a ouvir o que estão a dizer sobre o nosso povo? Tu estás a ouvir bem , como eu estou a ouvir? Não sei se vou conseguir segurar-me. Fervo toda cá dentro. É uma injustiça o que dizem: tudo falso. Uma realidade completamente diferente da que vivemos. Estão a humilhar-nos o mais que podem, sem dó nem piedade e na base de falsidades. É Deus. Podia estar tudo sossegado. Não. Tinham de nos enxovalhar. Logo hoje que estou aqui, logo agora que entrei. Nem era suposto eu estar aqui. Mas estou. É Deus. Deus está a forçar-me a tomar uma atitude. Já percebi porque tinha de entrar num avião. Já percebi porque tinha de vir onde vêm os terroristas. Já percebi. Está na hora do meu tipo de terrorismo, do tipo de terrorismo de Deus: o da verdade, da justiça e do amor. É o relógio. Está na hora. E é o cinto: estou farta de o apertar. Está na hora de o tirar. Vou falar. Levantei-me.

-Excuse me! May I speak? Desculpe, posso falar. (Engasgou-se. Do outro lado, não estava à espera, mas deu-me a palavra). Do you understand English? O deputado respondeu que sim e que não havia problema porque tinha o tradutor, o assistente. Então comecei. E foi assim, perante a assistência de oito países e mais alguns:

“Chamo-me Maria. Já há cerca de meia-hora que ouço, daquele lado dali, uma série de intervenções relativas ao meu país e à sua gente totalmente desfasadas da realidade e, por isso,  falsas. Chamo-me Maria, vivo nesse país,  do qual tanto falam, há 36  anos. Se me ouvirem, ficam a saber o que é viver nesse país, e ser alma e sangue desse país no contexto da União Europeia. E vou falar com o meu coração porque sinto-me triste, ofendida e magoada com o que ouvi. Vou falar com o meu coração. Não se sintam ofendidos. Ouçam apenas alguém que fala com o coração. O povo do meu país é trabalhador. É um povo que se sente enganado e sacrificado pelos seus governantes, pelas políticas da União Europeia, pelo rumo capitalista que a época e o mundo insistem em seguir. Mais uma vez, não se ofendam. Mas são vocês, as pessoas importantes, os políticos, que podem mudar a direcção da corrente. E p’ra mim, para os 99% da população mundial que não têm o poder decisório, a crise é fácil de resolver. A solução está na palavra: partilha. Quando uma minoria deixar de ser gananciosa e deixar de zelar apenas pelos seus próprios interesses, quando essa minoria, que detém o poder, decidir que é hora de pensar efectivamente no que aquela estátua demonstra lá fora, na união, na partilha, no espírito de comunhão e interajuda, tudo se resolve bem para todos. É falso dizerem que não queremos trabalhar. Nós somos um povo sacrificado em trabalho. Não fazemos outra coisa senão trabalhar; mesmo quando as políticas europeias de cotas nos limitam nesse trabalho. Se servimos para entrar na União Europeia, se servimos para ter uma moeda única, porque é que não servimos para usufruir de salários mínimos comuns, níveis de vida comuns? A impressão que dá, é que entramos para nos anularem dos mercados, para acabarem com a concorrência, e nos explorarem os recursos. Para nos colocarem uma pedra em cima e nos sugarem.  A agricultura é praticamente inexistente, actualmente, no nosso país. Eu fiquei perplexa com os enormes campos coloridos que vi pelo caminho. No meu país já não há destas paisagens. É tudo árido. É tudo seco. Foram criados subsídios para desincentivar os agricultores de cultivar, de produzir leite. Foi dada uma esmola aos pobres que se agarraram a ela como se lhes tivesse saído o euromilhões; e em troca foi-lhes decretado que não cultivassem. É a política do não. Há alguma lógica nisto? Termos os recursos, as terras, a mão-de-obra, a sabedoria; pagarem-nos para não rentabilizarmos o que somos é uma violência. Apesar de sermos um país rodeado de mar a toda a volta, estamos limitados na nossa pesca. O país vizinho pesca mais nas nossas águas do que nós. A indústria têxtil morreu na minha cidade. Uma indústria outrora em ampla expansão: agora monumentos, de um cinzento sujo, desertos de gente e vida. Era evidente que, ao fim de alguns anos, não teríamos competitividade para acompanhar os restantes países. Essa ajuda financeira que virá daqui, deste centro político, é uma ajuda que não sinto como tal. É uma dívida a ser-nos paga, uma dívida de longa data por nos terem impedido de crescer, de evoluir. Por causa da nossa inactividade, muitos países da união lucraram nas suas produções. É fácil chegar aqui e dizer que determinado povo não trabalha e não sabe gerir o dinheiro. É fácil dizer que determinado povo não merece ser ajudado. Mas pensem bem nas circunstâncias que divergem amplamente entre países que pertencem a uma mesma união. Pensem bem nas políticas que partem daqui e que são aplicadas, quase que a dedo cirúrgico, em cada nação. Pensem bem nas desigualdades criadas, nos grandes fossos em todas as áreas. Pensem bem se, de facto, temos união só p’ra alguns. Para os outros, há servidão. As nossas famílias, na actualidade, ou trabalham de sol a sol (dois e três empregos diários) para conseguir cumprir os seus compromissos bancários, manter a sua casa e ter comida na mesa, ou emigram para o efeito. Ou nem sequer conseguem emprego. Há famílias inteiras divididas, em que, apesar de viverem na mesma casa, pais não têm tempo nem humor para conversar com os seus filhos. Outras estão com os seus elementos espalhados pelo mundo para sobreviver. São famílias criadas à distância. Temos toda uma geração ao abandono. E muitas famílias estão a passar fome. É esta a nossa participação na união. De quem é a culpa, se o povo trabalha e quer trabalhar, mas cortam-lhe as pernas? De quem é a culpa, se o povo trabalha e mata-se a trabalhar, mas não recebe o salário justo pelo seu trabalho? É do poder decisório, é daqui. Não se ofendam. Mas não sejamos hipócritas. A culpa está na distorção de valores. Nas más práticas. Na má fé. No egoísmo. No cada um por si. Nessa selvajaria que é a política bancária. No roubo consentido. Nos juros macabros. Na política suja. Na ganância desmedida de alguns. Se o povo tem dívidas, não é culpa do povo; é culpa do polvo que nunca está satisfeito com o montante do roubo. O problema não está nos humildes trabalhadores, como querem amplamente fazer crer. Não no seu sacrifício diário. Não na sua fome e nas suas dores de costas. Estamos a sofrer uma espécie de ocupação territorial; só que, hoje em dia, as armas não são as espadas nem os canhões, nem sequer são óbvias. São armas dissimuladas. Ultimamente até são claramente declaradas. É a psicologia do vai com todos, do formigueiro. E, porque um aceita ser ofensivamente roubado no dízimo que tem de pagar ao banco, os outros têm de alinhar. Pelo empréstimo concedido para um bem, pagar de juros cinco vezes mais do que se paga por esse bem é um escândalo. Multiplicar essa factura por biliões torna-se uma catástrofe à escala global. E os biliões aceitarem, passarem fome, escravizarem-se no trabalho, destruírem a sua saúde, sentirem-se culpados e ainda fazerem  vénia à meia-dúzia que comete essa atrocidade, é uma imbecilidade. Somos pobres, somos humildes, somos até ignorantes, mas alguns de nós esforçaram-se no estudo, no empenho, no aperfeiçoamento (os poucos, a quem foi dada a oportunidade); alguns de nós conseguem pensar e ver, mediante os conhecimentos que têm. E esses, de todos os ofendidos, têm a obrigação maior de falar. Mesmo que se saibam pequenos e impotentes, como é o caso. Falei.”

-E o que disse o deputado?

-Ficou a olhar para mim uns segundos largos, surpreso. Senti um olhar de admiração. De “não posso crer que pessoas assim ainda existam”; de “não se vê políticos a falar assim”. Até o tradutor ficou abismado e sem pio. Na verdade, acho que toda a assistência ficou repentinamente silenciosa: nem um tossir, nem um remexer de bolsa ou de telemóvel. Até eu fiquei muda perante mim própria. No final, tirámos fotografias. O tradutor deu-me os parabéns em nome do deputado e disse-me:“if one has the occasion one must take advantage of it, your word was heard” (se alguém tem a oportunidade, esse alguém deve aproveitá-la; a sua palavra foi ouvida). E alguns dos responsáveis de outros países vieram dar-me um enorme abraço bem apertado. Não me conheciam de lado algum a não ser daquele contexto e deram-me alguns dos abraços da minha vida. Disseram-me ao ouvido: “nós sentimos exactamente o mesmo; no nosso país tudo se passa assim como disse; parabéns pela coragem”.

-No entanto, o deputado colocou-te uma questão no final. Mesmo antes da fotografia. Lembras-te?

-Lembro. Mas percebi que não gostou da resposta. Desviou o assunto e terminou a sessão.

-Era sobre a movimentação político/social  em torno da esquizofrenia. Perguntou-te o que pensavas a respeito.

-E eu respondi: “Sou esquizofrénica e não o aconselho a ninguém. Cada um nasce como nasce, deve aceitar-se como tal. Não sou a favor de tratamentos antinaturais: ingestão de drogas, indução de desgostos e implante de genes”.

-E respondeste bem. Foste tu própria. E o deputado comentou: “Agora percebo porque consideram a esquizofrenia um dom.”

- Agora percebi porque a Susana insistiu tanto para que entrasse no avião e acompanhasse os nossos 60 alunos ao exterior. Apesar de eu ter dito que não, a seguir veio o pedido para que me responsabilizasse pelo projecto do Parlamento. Eu recusei esse trabalho. Já tinha a minha vida assoberbada de projectos e trabalho. Voltaram a pedir: não havia ninguém para orientar os alunos. Não iriam poder participar. Acabei por aceder. Disse: se forem eleitos os melhores, não entro no avião. É preciso alguém que vá, na minha vez, representar-nos no estrangeiro. Na minha ideia nunca venceríamos. Eu não tinha experiência alguma e as outras escolas tinham mais traquejo. Mas, na hora H, os meus miúdos, os “inaptos”, foram mesmo eleitos os melhores. E eu pensei: estou lixada, agora tenho de entrar no avião. Eu, a inapta - mor.

-Pois é. Já te conheces bem. Já sabes que não  abandonas o barco a meio. E por amor fazes tudo. Por amor aos alunos, para que não desmotivassem, lá te meteste na falta de ar, nas pastilhas, e entraste no avião. Também por amor aos teus filhos: querias que te vissem como uma mãe corajosa e exemplar. Não quiseste que herdassem os teus medos. E foste. E vieste. E agora compreendeste. Por amor aos teus,  ao teu país, vieste. Foi Deus.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

sábado, 15 de novembro de 2014

Capítulo 8


Capítulo 8

-Granja, leste o artigo que saiu na “Nature” sobre a mais recente descoberta científica aqui no nosso país? Temos investigadores de ponta ali na zona centro. Descobriram algo que vai revolucionar o planeta.

-Sr. Ministro da Saúde, p’ra estar com esse entusiasmo todo é porque já está a pensar em obter dividendos do assunto. Mas diga lá: que inovadora descoberta é essa?

-É que não tenhas a menor dúvida. Isto é um vento que vai mudar a corrente para uma nova direcção. E eu faço questão de estar dentro desse barco, bem lá na frente, na proa. O mundo não será o mesmo, a partir de hoje, a partir deste artigo.

- Correia, que diz esse artigo? Vá: estou curioso. É sobre quê?

- Esquizofrenia. Deixou de ser considerada doença e passou a ser entendida pelos especialistas como sendo dom.

- Cruzes! Estamos a entrar no campo do sobrenatural, é? Ora explica lá isso melhor.

-Não. Não tem nada de sobrenatural nisto. Está tudo, cientificamente, muito bem fundamentado e documentado. Ora presta atenção.

“ A origem genética da esquizofrenia está no efeito conjunto de um número alargado de genes. Parte da vulnerabilidade genética da esquizofrenia é partilhada pela síndrome bipolar. Cada gene, individualmente, tem um efeito muito pequeno. Só a soma de todos os genes é que determina o efeito geral. Há associações significativas num gene do cromossoma 22, numa vasta região do cromossoma 6, e num gene localizado no cromossoma 2.”

-Oh!, Correia! Isso que estás a ler não comprova que é dom. Apenas indica a origem genética da esquizofrenia.

-Não me interrompa, Sr. Ministro da Administração Interna. A amostra, que reuniu dados recolhidos ao longo de vários anos por diversos centros de investigação europeus, envolveu 3322 europeus com esquizofrenia e 3587 pessoas no grupo de controlo sem a doença. O estudo comparou ainda os resultados obtidos com amostras de sujeitos bipolares, concluindo que uma boa parte das variações genéticas são comuns às duas situações: esquizofrenia e bipolaridade.

- Correia, avança, avança! Daqui a pouco começa o congresso e nem me adoçaste o bico. Vamos lá! Despacha isso.

-Calma, isto ainda tem muito que explicar. O congresso espera. Isto é mais importante. Ora, desses europeus com esquizofrenia, foi observado um grupo mais restrito, aqueles considerados criativos. Foram realizados, além dos testes médicos, testes psicológicos, testes ao Q.I e foram observados os seus comportamentos no terreno durante largos meses. Pelo que compreendi da leitura do artigo, foram feitas entrevistas aos vários intervenientes no meio social onde se inserem. As suas vidas foram minuciosamente analisadas, desde o momento em que nasceram até à presente data. Uma análise em todas as vertentes: biológica, anatómica, individual, social, económica, evolutiva. Colocaram-nos mediante  circunstâncias específicas e gravaram as suas reacções, analisando-as e estudando-as posteriormente.

- Por exemplo…

-Por exemplo, referem dois dos sujeitos: Maria Sousa e Nuno Fernando Filho. Ambos considerados extremamente criativos, direccionando essa capacidade para a escrita. Ambos com um percurso intelectual e de estudos bem consolidado. Ambos com curso superior na área das letras. Ambos com enorme sentido de humanidade. Ambos esquizofrénicos dotados de clarividência. Não se conhecem, mas mediante o mesmo teste tiveram a mesmíssima reacção.

-E o teste, Correia? Qual foi o teste?

- Ora, colocaram-nos dentro de um quarto vazio, só com uma mesa ao centro e uma cadeira. Apenas uma luz branca no tecto, e muito branda. Não havia rigorosamente nada nas paredes. Era o vazio autêntico. Não lhes disseram quanto tempo iriam lá ficar e observaram o seu comportamento. O que é que tu farias?

- Sentar-me-ia na cadeira e, ao fim de algum tempo, dormiria um sono com a cabeça pousada em cima da mesa.

- Granja, isso seria o que eu faria também. Mas eles não. Primeiro deram voltas e mais voltas à mesa. Não se sentaram uma única vez. Enquanto davam voltas falavam para si próprios como se estivessem a falar com alguém. Gesticulavam. Coçavam a cara. De vez em quando, paravam, assim, de repente. Colocavam a mão sobre a boca. Coçavam o nariz. Continuavam a rodar a mesa e a falar, bem como a gesticular. Olhavam a toda a volta do quarto, faseadamente. Ora para uma parede, ora para outra. Por fim, deitaram-se sobre a mesa, de barriga para o ar. Colocaram as mãos sobre o estômago, entrelaçaram uma perna sobre a outra e olharam para o tecto. Com os olhos bem abertos ficaram nessa posição horas, sem se mover, quase sem pestanejar. De vez em quando, sorriam. Muitas vezes sorriram. A dada altura, levantaram a mão e movimentaram o dedo indicador no sentido do e contra o relógio, dava a sensação de que estariam a escrever.

- Qual foi a explicação que deram, Correia, quando lhes foi perguntado o que falavam? Com quem falavam? Porque sorriam? E o que estariam a escrever?

-  Nuno disse que falou com personagens dos seus livros, ora um velho sem nome, ora uma sofrida Maria. Maria disse que falava com outra de si própria. Tiveram conversas relacionadas com o seu próprio comportamento e pensamentos. Sorriam porque decidiram sonhar de olhos abertos com algo que os fizesse sentir bem, algo de muito positivo. Ambos decidiram sonhar com pares românticos. Ambos escreveram no vazio, vezes sem conta, a palavra AMO-TE. Dizem que a dirigiam, primeiro, a si próprios: AMO-TE. Ao próprio ego. Explicaram ainda que enquanto sonham e escrevem não pensam, abstraem-se de tudo o que é negativo, da realidade nua e crua, que dão sentido às suas vidas e que o tempo, no quarto vazio a meia-luz, não foi perdido. Mais tarde, em casa, passaram para o papel toda aquela experiência e criaram uma realidade positiva a partir dela. Acreditam que a sua clarividência está aí: na capacidade de desenvolverem a imaginação, através do isolamento no vazio. Acreditam que o acto criativo acontece pela projecção na escrita, pelo poder da palavra. Estão certos de, assim, conseguirem alterar o real, o concreto e positivamente.

- E os investigadores, Correia? A que conclusões chegaram?

- Granja, presta lá muita atenção a isto, agora. Tal como a de Cristo, começa, neste preciso momento, uma nova era. Os esquizofrénicos criativos precisam de colmatar o vazio e a negatividade com actividade cerebral. Dormir, para eles, seria impensável; pois, dormindo, não estariam a produzir, seria pura perda de tempo. Além de que não conseguiriam. Perante situações problemáticas, têm necessidade de racionalizar, de exercitar o intelecto, de ocupar a mente, de estar plenamente activos no andar de cima. Um quarto vazio e o desconhecimento do tempo que lá iriam ficar são situações problemáticas. Com a tendência que ambos têm (havendo brechas no espaço e no tempo) para a negatividade, não tiveram outra solução senão distrair o cérebro, produzindo, ficcionando uma realidade extra numa outra dimensão. Os investigadores acreditam que aquelas personagens e conversas se tornaram, de facto, reais. Existiram, de facto, numa outra dimensão. Tudo o que o pensamento deles projectou no vazio, ocorreu em pleno: o sonhar acordado, o falar com e escutar alguém, o escrever no ar. Uma realidade extra criada pela capacidade extra de ficcionar na não existência ou de suplantar a negatividade enchendo as brechas do vazio com o que o intelecto decide. E o que o intelecto cria, ao ser criado, pensado, torna-se real,  ainda que não seja observado a olho nu e palpável. Há um espaço e um tempo extra-sensorial ao qual um cérebro esquizofrénico , potenciado pelo exercício intelectual de uma vida, consegue chegar. Aí, comunica-se realmente, e até de forma apurada e mais eficiente; embora aparentemente sem palavras, nem voz, nem objectos concretos, nem matéria.

- Telepatia ? Estás a falar de telepatia?

- kind of. Mais ou menos. Clarividência e comunicação entre intelectos sem a necessidade de passarem pelo filtro da matéria. Por vezes (foi comprovado na investigação também) até chegar a esse patamar percorrem um caminho que passa por ir abandonando a matéria. Na natureza tudo é energia. A matéria é energia condensada; a energia é matéria em estado radiante. Tudo é energia em graus variados de densidade. Os esquizofrénicos estudados deixaram a linguagem e o sentido óbvio das palavras completamente de parte e foram comunicando através de sinais: imagens soltas dentro de imagens, pormenores em fotografias; silêncios dentro das palavras; o subtexto, palavras dentro de palavras, sentidos diversos dentro de sentidos óbvios; sons específicos que encaminham para contextos subentendidos; símbolos, a linguagem pela linguagem, a linguagem com vida própria, energia em estado bruto.

- Eh! Já estás a complicar, Correia. Olha que eu não sou clarividente, nem esquizofrénico. Há conceitos que não atinjo.

-Ok, ok , Granja! O importante a reter nisto é que, de facto, a esquizofrenia, que até aqui era considerada doença, com os resultados bem documentados e cientificamente comprovados dos investigadores , os de agora e os do passado, passou a ser vista pela comunidade científica como um dom. O esquizofrénico criativo, cujo intelecto foi potenciado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes, com exercício cerebral baseado no trabalho e no empenho académico, tem o que os investigadores denominam por sétimo sentido. Mas para conseguir ter o insight, a noção do mesmo, precisa de grandes doses de modéstia, abertura mental, sentido de ética e generosidade. Para discernir, em si mesmo, completa lucidez da autêntica capacidade de sabedoria, necessita de um desenvolvimento espiritual que exige trabalho no esforço do aprimoramento da consciência; tem de haver um crescimento interno no sentido da ampliação do amor, da maturidade da alma e um respeito inabalável pelo próximo.

-Sétimo sentido, Correia?

-Sim, sétimo sentido. O sexto é a intuição, que o esquizofrénico também possui amplamente desenvolvido. O sétimo é a clarividência.

- O congresso,  Correia: o congresso !

-O congresso espera, Granja. Queres ouvir ou não?

-Sim, sim. Continua. Afinal, hoje não vamos palestrar. Então diz lá: sétimo sentido.

- Pois bem, o sétimo sentido. A clarividência que os esquizofrénicos criativos possuem. Clarividência. Do latim “clarus” (claro) “videre” ( ver), ou seja, a capacidade supranormal e parapsíquica de perceber imagens independentemente do sentido normal da visão. Essa capacidade é anímica e natural. De acordo com os investigadores, reside na potencialidade de exercitação dos chacras (dos centros de energia) frontal e coronário, que estão conectados às duas principais glândulas do sistema endócrino: a pineal (epífise) e a pituitária (hipófise). Contudo o potencial clarividente é uma faculdade anímica, vem da própria alma. Até aqui, compreendes, Granja?

-Mais ou menos, no geral. Mas continua, Correia, continua.

-Os cientistas desmistificam o significado da palavra vidência. Dizem que vidência é a visão normal, a percepção visual natural. Explicam que para vermos alguma coisa precisamos da reflexão da luz em cima desse algo. Sem luz não conseguimos ver. Se as partículas luminosas incidirem sobre algo transparente (o vidro ou a água), essas partículas serão refractadas, atravessarão os objectos, daí que se torne difícil percebê-los através da visão normal. Mas eles estão lá. Tanto estão que, por vezes, as pessoas e os animais batem violentamente com o corpo neles porque, precisamente, não os conseguiram ver.

- Verdade, Correia. Tantas vezes bati com a cabeça no vidro.

- Pois. Agora, se o objecto é opaco, a luz é absorvida, e o objecto torna-se visível. Portanto é tudo uma conjugação de factores físicos e químicos. Os cientistas garantem que há toda uma realidade concreta que existe, está ali perante os nossos olhos, mas, nós, seres humanos normais, não a conseguimos ver. O esquizofrénico criativo e clarividente consegue porque não vê com os olhos, mas sim com os chacras frontal e coronário. E quando quer ver ainda mais longe faz meditação: fecha os olhos, roda-os para dentro e para cima, na direcção da testa, dos chacras, e a clarividência dá-se de imediato. Um cego esquizofrénico criativo pode ser clarividente. Os melhores momentos de clarividência dão-se nos estados alterados de consciência, momentos entre o sono e o despertar, entre o sono e a vigília. Estás a acompanhar, Granja?

-Sim, sim. Continua.

-O esquizofrénico clarividente consegue ver a aura do ser humano. Ela existe, mas não é vista por nós porque, precisamente, é atravessada pela luz. Ficou comprovado, mesmo através de fotos kirlian, que o esquizofrénico consegue ver a aura nas suas três dimensões: a do corpo físico, a do corpo extrafísico (alma, emoções) e a do corpo mental (pensamentos). Ele vê uma espécie de campo magnético em torno do corpo físico, um corpo luminoso mesclado por várias cores, camadas vibratórias, sopros de ar. Sabes que “aura” no latim significa sopro de ar?

- Não sabia, Correia. Estou fascinado com esses resultados. Com esse sétimo sentido.

- Ficou comprovado que o esquizofrénico criativo é uma pessoa que percebe algo à distância, goza de uma “clarividência viajora”, a sua percepção como que se subdivide: uma parte está centrada no próprio corpo, a outra observa “in loco” o acontecimento de algo. Esse “in loco” (no local) tem a ver com o espaço, mas também viaja no tempo.

-Como assim, Correia?

-Já explico melhor. Os investigadores concluíram que o grupo alvo estudado gozava de clarividência no momento presente, mas têm a capacidade de retro-cognição, isto é, conseguem viajar, mentalmente, no tempo, para o passado da sua vida, ou de vidas anteriores à sua. Observaram fenómenos psicométricos também, ou seja, além de perceberem as suas próprias memórias, também têm potencial para perceber as dos outros, pessoas, objectos e ambiente. Concluíram que o esquizofrénico criativo goza, acima de tudo, da capacidade de precognição, comummente conhecida como premonição. Adivinham, contextualizando, e até mesmo criando, actos e acontecimentos futuros . E aqui, Granja, é que está a Nova Era, o ouro.

- Ah! Percebi. Hummmmmm!

-Temos todo o interesse em direccionar esquizofrénicos clarividentes para as altas e mais importantes posições na sociedade. Os melhores postos de trabalho terão de ser dados a esquizofrénicos: as posições de destaque na política, na economia, na medicina, na arte, no desporto terão de ser atribuídos a esquizofrénicos. Só assim é que o país evolui, só assim é que o poder regressa às nossas mãos.

-E nós, Correia? Não somos esquizofrénicos! Vamos varrer as ruas e arrumar carros, é?

- Calma, Granja. Pelo que li, há a hipótese de nos tornarmos esquizofrénicos.

-Há? Como?

-Teremos de aguardar um pouco, porque ainda estão em fase de pesquisa e testes laboratoriais. Mas afigura-se a hipótese de clonagem dos genes responsáveis pela esquizofrenia e de posterior  implante em todos os que desejem tornar-se clarividentes por essa via.

-Ui! Que loucura, homem! Que loucura! Tu estás louco! Louco!

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Capítulo 21


Capítulo 21

 

Chapéus de cano alto e negros fraques bem engomados; as plumas femininas a pender no verde macio do veludo; colares - incontáveis pérolas de todos os tons e tamanhos - imersos nos colos franzinos; enjoadas cigarrilhas concentradas no aperto dos corpetes; vestidos, desnudados de costas, na seda do seduzido; rendas no cio por sobre os olhos em devaneio e a todo o vapor. E a música que jaz em morse ritmada: breves e secas pancadas de fôlego cortadas. No Charleston, o trote da dança, a frenética passada dos ritmos laterais e circulares, o glamour do estar. A boémia em frenesim no Café Parisien ao som dos Marconi. Art Nouveau nos ornamentos : as cores vivas, as curvas sinuosas das fachadas, os imponentes móveis, joias em camafeu e  deslumbrantes vitrais. La Belle Epoque : respira-se cultura cosmopolita, elites intelectuais e artísticas, burguesia em opulência e derrocada. Cabarés, Cancans e Cinema : a reinvenção da diversão. Vive-se Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Balzac. É a hora verde.  A náusea na alegre disposição do absinto que, gota a gota, entranha-se na pele do que te sinto.

                - Amo-te, Ophelia! Acredita-me. Amo-te mais do que este mundo e o outro e todos os meus encrespados eus juntos. Amo-te mais do que toda a eufórica engrenagem na casa das máquinas. Amo-te mais do que todo o eflúvio  emanado do recém extinto carvão nos fornos  e caldeiras deste barco e de todos os barcos em redor. Amo-te, amor. Acredita-me. Acreditas-me?

                -Sim, meu poeta do sol poente, mon Prince Charmant. Minha adocicada gota esmeralda na língua da ocasião. Desaperta-me o vestido, querido, sim?

                -Amo-te, minha doce fada verde. Amo-te mais do que o anis, o funcho, o torrão de açúcar e o láudano. Amo-te mais do que todos os opióides em ebulição cá dentro. Crês-me, ma Fée Verte? Crês-me?

                -Oui, monsieur. Despe-me o corpete, mon cher. Está tudo a andar à roda. Nem me seguro nos tornozelos de que tanto o Chanel gosta. Eu sabia que deveria ter-me alimentado melhor. Despe-me o corpete, mon cher. Despe-me de mim, mon amour. Masculiniza-me.

                -Pára, Nuno. Pára. Vais ficar de rastos. Sabes que isso da retro-cognição esvai-te de toda a tua energia, transforma-te num apagão vaporizado. Pára, Nuno.

                -Cala-te, velho. Está bom. Agora está bom. Não voltes a interromper-me. Maria, Maria, Maria, vá…de onde é que te conheço? De que época? Por favor, mon amour, retorna lá, ao barco, ma Fée Verte, retorna… já estou a ver a espiral, oh!, anda…as hélices do Olympic, oh!, anda, mon amour…

                -Non, ne s’arrêtent pas. Não pares, Bernardo, não pares, oh!, meu doce poeta do mundo, meu fantasma louco e moribundo, mon amour, vient…

                -Ophelia…

 

                “ tum-tum-tum-tum-tum-tum: o pulsar deste momento no carvão do que te sou:

               máquina febril de alento – tormento separando águas, mar adentro.

                shshshshshshshshsh: a todo o vapor navego nas rotas da colisão;

                demarco-me do território vítreo – no inóspito e redundante não.

                Sei-te de outro, comiserada nas hostes da fachada em redor,

                cerram-te noutro, nos trajectos imperiais do alicerçado amor.

                Tum-tum-tum-tum-tum-tum: é minha a célere turbina que te inova:

              insana a loucura que te faz querer ser dor e de sobra.

                Shshshshshshshshsh: a todo o vapor rasgo essas rendas – fendas

                em teu corpo de cal,  o sal que a língua percorre e deixa ao rubro.

                E só em mim despes o tudo que és: nem só pele, sangue e rum;

                E só em ti morro de todos os  eus p’ra me ser um em vez de nenhum”

 

                (o Poeta do Sol Poente)

 

-Oh!, amor, acorda! Ma vie, acorda. Diz-me o que faço? És tu quem eu quero, mon Prince Charmant. Não permitas  que volte para ele. Não me entregues de novo à morte, não. Diz que me queres, meu Poeta do Sol Poente. Diz que me desejas. Diz que só a mim almejas.

-Ophelia, sabes que não tenho morada certa. Sabes-me um boémio, de embarcação em embarcação, de terra em terra, de estalagem em estalagem. Sabes que te anseio, sim. És toda a minha vida e toda a minha morte, ma Fée Verte. És tudo. E dói porque sei que não te abandonas, sei que não te despojas de todo o luxo, de todo o estatuto, de teus filhos, por mim.

-Despojo, sim. Diz-me que é isso que queres. Diz-me: Ophelia despoja-te e entrega-te a mim. Não dizes. Nunca dizes. Isso sim, dói.

-Não deveria dizer, Ophelia. Não deveria pedir. Se é o que sentes, não o deverias rogar. Se o rogas em vez de o fazer é porque não o sentes. Já deveria estar feito. Não te mintas. Não tens coragem de abandonar o império, de lhe entregar os teus filhos, de te enlameares nos corredores da época. Não tens coragem.

-Tens razão. Não tenho coragem de aviltar o que de mais meu sinto: os meus filhos. Meu belo Poeta do Sol Poente, não posso abandonar o sangue do meu sangue; não posso desertar aquele olhar de esperança que em mim pousa. E que mãe lhes iria dizer que os ama? Que mãe os iria afagar na hora de deitar? Que mãe iria ampará-los na queda do sonhar? Que mãe? Oh!, que dor!Não os posso entregar ao pai. Desculpa-me, mon Prince Charmant. Desculpa-nos. Em outra vida, talvez.

 

-Nuno, acorda, querido. Nuno…

-Ophelia…

-Que Ofélia? Joana, pastel. Joana. Ouve lá! Quem é a Ofélia?

-Deixa-me estar, mon amour. Deixa, volta para ele, para os teus filhos. Vai e não voltes.

-Que estás para aí a dizer, Nuno? Filhos? Ainda não nasceu. Está aqui, dentro de mim. Volto para quem? Quem é a Ofélia? Olha, apagou. Desgraçado. Quem é a Ofélia?

 

“Está tudo em alvoroço, meus senhores. Tudo em alvoroço. Foi-lhes mostrada a cenoura e tudo correu atrás da dita. Tudo. Quem viu que não lhe conseguia chegar, decidiu, que nem um jumento, por interposta pessoa, a alcançar. Foi dito que a cenoura valia mais do que o ouro: o próprio. Foi dito que era parco o tempo para deitar mão à referida, à alaranjada – dourada, salvo seja. E tudo aproveitou o tudo que era ofertado - uma pechincha, meu senhor! Uma barganha! Nem na China consegue um negócio assim. Aproveite. Não tem verba? Não importa. Eu arranjo quem lhe empreste a quantia. Eu arranjo, Sr. Mete os Pés pelas Mãos Investidor. É lucro garantido. Dinheiro fácil para ostentar nos corredores cosmopolitas da capital, dinheiro fácil. Com o pouco que tem compra mais dinheiro aos bancos. Compre! Compre! Que o preço do dinheiro está barato: compre! Compra tanso – não vou dizer-te que daqui a uns dias alteram as regras do jogo e tu pagas o triplo e de bico calado. É o engole e cala. Especulação? Não. Que palavra mais feia. Não. Especular? Nunca. Compra as acções. Estão uma pechincha, e no minuto a seguir valer-te-ão o teu império. Já é teu, tanso. Não vês? O império do interior das pipas a caminho do Nilo. É todo teu. E o dito chegou ao quinto dia útil da semana, chegou de surpresa - e de toda a maneira que não estavas à espera - ó ganancioso …o dito chegou aos dias vinte e quatro de Outubro de 1929.Mas não chegou só p’ra ti, egoísta! Pensavas que era só teu? Chegou em grande: não num manto dourado (como se previa) mas num imenso manto negro. Crash! Um estrondoso embate na cega avidez de cada um. E em vez dos milhões, as ruínas, palerma! As falências  em cadeia, a contracção da economia, a paralisia nas actividades e o desemprego. Rua, idiota! Rua! Não fazes cá falta alguma. Sem o teu espólio? Quem te mandou investir na miragem da cenoura? Eu? A tua sede de estatuto. A tua perniciosa ambição .E já lá vão 10. E agora o caos: A Grande Depressão. Só se fala nisso, só se sente isso : A Grande Depressão. A guerra. Já não bastava a fome. Agora o medo de ser eu. Não. Nunca. Eu não sou esse. Não! Esse não é: eu. Provo, sim, que esse não é eu. A mim não me apanham num campo de concentração. Oh!, vizinho! Ajude lá aí. Deixe esconder-me na sua cave, por baixo do cadafalso. Deixe esconder-me e traga-me o pão e o vinho. Seja meu irmão. Tudo culpa da ganância e daquilo a que o ser humano não dá a mínima importância: a vida – neste caso a humana. O direito a existir com dignidade. O direito a ser: como tu tens o direito a ser. Quem tu pensas que és p’ra te achares no direito de decidir da minha vida ou da minha morte? Quem tu pensas que és sangue, pele, carne e osso? Matas-me agora? Oui ,monsieur. Um dia - e é essa a minha alegria -vais saber o que é matar-te a ti. Não te escapas: pele, carne, sangue e osso. Apodrecimento, putrefacção e pó, dizem.”

 

-Não, Bernardo! Não, não, não. Pela tua vida, e se me tens amor, não. Não publiques esse artigo. Não agora, não neste momento. Sabes que te matam. Eles matam-te. Já mataram muitos outros por menos, só por existirem (como dizes). Por favor, amor: rasga isso, queima. Não publiques.

-Ophelia! Pouco me importa o que vão fazer com este corpo, pouco me importa! Estou farto, farto de tudo ver e nada fazer. Estou farto da hipocrisia em redor. Estou farto. Até de ti estou farto. Agora vão ver.

-Esconde, Bernardo. Olha que eles ouvem-te. Estamos no “Galactic”. Eles conhecem-me. Sou a mulher do político. Olha eles a virem para cá. Eu não devia ter vindo. Oh!, não! O meu marido! Foge Bernardo! Foge! Matam-te!  Matam-nos.

                -Nuno, sou eu a Joana. Oh!, amor, estás a preocupar-me. Não dizes coisa com coisa. Acorda, querido, acorda.

                - Mata , mata, mata de uma vez!

                -Nuno! Sou eu, a Joana. Vá : olha p’ra mim. Isso passa. Daqui a pouco, isso passa. Então? Já me vês? Já estás cá? Já voltaste de lá?

                -Joana…que aconteceu? Onde estou? Joana…

                -Estás na nossa casa, querido. A nossa casa nova para receber o nosso bebé, amor. Lembras-te?

                -Ah!, sim…

                -Tiveste um daqueles transes que te dão de quando em vez…aqueles esquisitos, em que não dizes coisa com coisa…falavas em matar, filhos e…uma Ofélia…

                -Ophelia ?

                -Sim. Quem é?

                -Boa pergunta, Joana. Quem é?

                -Oh!, esquece. Estás bem? Vou terminar de preparar o jantar. Vai refrescar-te, vai.

                -Já sei de onde a conheço, velho. Já sei de onde conheço, a Maria.

                -Eu vi. Uma tragédia ,foi o que foi.

                -É forte, velho. É forte. É de outros tempos, tal como supunha. Eu nem posso crer que  morri por amor, por amor a ela, à Maria, à Ophelia. E morrer por uma causa também vem de outros tempos. Compreendo-me melhor, agora. E o que faço com isto?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 4


Capítulo 4

 

- Mas tu estás louco! Estás a passar-te ou quê? Durante décadas a esquizofrenia tem sido descrita como uma doença mental grave que se caracteriza pela despersonalização, e que afecta a capacidade de a pessoa distinguir se as experiências vividas são ou não reais. A própria palavra, esquizofrenia, significa divisão da mente.

- Não é doença. É dom. E eu consegui comprovar isso. Consultei os arquivos do Josef, os proscritos. Sabes bem qual é a minha linha de investigação, tens acompanhado as experiências realizadas aos esquizofrénicos que se destacam na sociedade pela sua singular criatividade. E tudo se encaixou: os meus resultados baseados nas técnicas de imagem e testes ao QI e à capacidade de previsão, e os resultados do Josef, os anatómicos. Sabias que ele tinha um grupo que seleccionou após as experiências? E que esse grupo de esquizofrénicos clarividentes era forçado a dar as linhas de orientação ao líder, ao Führer?

- Não? Mas como pode ser dom, se as pessoas ficam disfuncionais? Sabes bem que perdem a associação entre pensamento, emoção e comportamento. Entram em delírios, alucinações; mantêm um discurso desorganizado e comportamentos catatónicos. Em suma, ficam completamente disfuncionais isolando-se sobre si mesmos.

- Ficam, os que ficam. E depende do que tu entendes por disfuncional. Ora vamos lá ver: ter a capacidade de aceder a um tempo e a um espaço, a uma realidade extra, é ser disfuncional? Porque é isso que acontece. Quando um esquizofrénico tem circunstâncias de vida que lhe permitem desenvolver o intelecto, na base do estudo e da absorção do máximo de informação, potencia dessa forma a sua capacidade de ver mais além.

-Mas a grande maioria não vê mais além. Sabes bem que os sintomas negativos da esquizofrenia reflectem restrições na amplitude e intensidade da expressão emocional (rosto imóvel, linguagem corporal reduzida), o dito embotamento do afecto; observa-se diminuição da fluência e produtividade do pensamento, logo desorganização do discurso. Fartamo-nos de tratar a alogia com medicação. E até iniciam uma série de comportamentos fixos dirigidos a um objectivo. Ou também não tratamos a volição? E a anedonia? Fica sem tratamento? Deixa-se que continuem com perda de interesse e prazer na fruição do concreto? Quantas vezes ouvimos os familiares dizer: “ Doutor, tenho a sensação de que ele está a ir embora aos pouquinhos. Às vezes, parece que estou a falar com duas pessoas distintas. Está deprimido, tem acessos de raiva, dorme de dia e não dorme à noite, não se alimenta, descuida-se na higiene. É sempre o mesmo ritual. Tenho até medo que se mate por causa das vozes que ouve. E se resolve lhes obedecer?”

-Estamos a falar dos que têm a oportunidade de se tornar cultos, de aprimorar as capacidades do intelecto. Nesses, embora demonstrem alguns dos tais sintomas ditos “negativos”, prevalecem os positivos: o excesso ou “distorção” (que, a meu ver, não é distorção, é apenas uma forma mais abrangente de abordagem da realidade) do pensamento inferencial, da dedução,  da percepção (são muito intuitivos), da linguagem e comunicação e do comportamento. São pessoas  “sui generis”, reconhecidas como génios nas suas áreas. É ou não é? Há exemplos na história mundial. Quase todos os génios, os grandes crânios, são esquizofrénicos.

-Não deixas de ter razão, mas vamos ao que interessa. Explica lá melhor a tua posição. Estou a ficar convencido.

-Na literatura médica existente diz-se que os delírios são crenças erróneas que envolvem a interpretação falsa da percepção, ou experiências que resultam de temas persecutórios, referenciais, somáticos, religiosos, grandiosos. Interessam-me, particularmente, porque os observei nas nossas cobaias, os delírios de referência e os delírios de controle. Todos os testados dizem que crêem vivamente que o seu corpo e acções estão a ser manipulados por uma força exterior, e que observam a interferência dessa força em coincidências contínuas, em certos gestos familiares, comentários, passagens de livros. Mantêm vigorosamente esta ideia. E, pelo período de vida (seis meses) em que foram cuidadosamente observados por nós, está comprovada e documentada essa interferência. Tudo o que eles intuíram ou previram aconteceu de facto. Não é doença. É dom. A esquizofrenia torna-se num dom quando o intelecto é estimulado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes. Conseguindo até, esse mesmo intelecto, agir em concreto na realidade, tornar vivos os seus pensamentos, transformá-los em acções realizadas pelos próprios, pelos outros, pelo ambiente que racionalizam.

- Eh, pá! Mas isso é fenomenal! Como estás a pensar divulgar as tuas conclusões?

-Publicando em revistas na área da saúde como a “Nature” e realizando consórcios e colóquios internacionais. Pretendo divulgar e demonstrar, ao vivo, esta potencialidade do esquizofrénico culto ser clarividente e conseguir actuar no concreto, no palpável, com o pensamento.

- Já estou a ver o filme todo. Esses Centros de Neurociências e de Genética Molecular pela Europa e pelo mundo fora a trabalhar em força para tentar tirar vantagem dessa potencialidade da esquizofrenia.

- Podem trabalhar o que quiserem. O nosso Centro já tem a patente. Já a registei. A ideia agora é convencer o mundo a tornar-se esquizofrénico e a recorrer à nossa informação para lá chegar. Mas ainda tenho de realizar mais alguns testes para conseguir explicar melhor a relação entre as anormalidades estruturais no córtex frontal médio e a clarividência dos esquizofrénicos geniais.

Capítulo 3 ( continua...)


-Ela está estranha. Não sei. Está diferente. Estou a ficar assustado - confidenciou Francisco ao telemóvel.

- Maria, logo não faças jantar para mim. Vou jogar à bola.

- Outra vez? Não é surpresa. Já não ia fazer e não. Agora chamam-lhe jogar à bola… amanha-te quando chegares.

- Sempre com as piadinhas. Porque é que estás a falar-me assim? Fiz-te algum mal? É certo que já nem me fazes o jantar, e não é de agora.

-Assim, como? Estou a falar normalmente. E não. Tu nunca me fazes mal. Cansei das vezes que nos preparei o jantar e acabei por comer sozinha. Deitar comida fora não é o meu estilo. E tu? Quantas vezes me preparaste o jantar? Nem olhas para os dedos, não é? Se houvesse o dedo zero, talvez olhasses para o contar. Demais a mais, já vens jantado. E não te ponhas a fazer essa cara. Estou farta desses trejeitos de enjoado. O que tu és causa-me, naturalmente, vómitos. E, acredita, que não faço por isso. Já estás a virar-me as costas? Pois, é sempre a mesma merda. Todos estes anos resumidos num virar de costas. Casei com uma parede, que novidade! E o que é que se faz quando há uma parede a mais no local ao qual chamamos de casa?

- Ouve lá! O que é que tu tens? Que mal é que eu te fiz? Trata-te!

- Tchau! Boa viagem. Parte uma perna. De preferência, a do meio.

-Já viste o que estás a dizer? Tens de ter tento nessa língua. Olha que Deus castiga-te.

- Deus que vá para o raio que o parta!

Francisco ficou aterrado. Maria, tão crente. Maria, que obriga os filhos a ir à catequese e à missa,  dizer uma barbaridade daquelas? Não é ela. Há algo a passar-se. Tem de ter mais cuidado. E o que é que ela quis dizer com aquela pergunta: “- O que é que se faz quando há uma parede a mais no local ao qual chamamos de casa?”

 

 

Capítulo 3


Capítulo 3

 

(meio ano antes)

 

-Oh!, meu rico Deus! Que me havia de acontecer agora?

 -Que te havia de acontecer, agora, Maria? Manda Deus para o outro canto do planeta!

- Oh!, não, não! Posso ser severamente castigada!

- Deus não existe, Maria.

 -Não digas isso. Olha que dá mau agoiro dizeres isso.

 -Digo sim, e berro, se for preciso. Ora escuta bem: DEUS NÃO EXISTE! Quantas vezes na vida sentiste que a felicidade te caía no colo?

 -Nenhuma.

-Bem me parecia. Mesmo correndo atrás dela. Quantas vezes sentiste que aquilo que tanto queres (e estou a falar de amor) é teu, é p’ra ti?

                -Zero.

                -Já desconfiava.

 -Mas tenho tantas razões para me sentir feliz: uns filhos maravilhosos, um marido tranquilo e meigo, uma profissão que adoro, estou rodeada de gente que me quer bem.

- Estás constantemente a enganar-te, é o que é, Maria! Ora pensa lá bem. Isso não te chega. E sabes perfeitamente que já não amas o teu marido. Já foi tempo. És ambiciosa. Tens outros planos para ti. Sempre tiveste.

- Cala-te, por favor, ó eterna insatisfeita! És insaciável. Isso já eu sei há muito tempo. Estiveste tão calada e agora voltaste porquê? Não me infernizes a vida. Vai de retro, Satanás!

 - Fizeste apenas um breve interregno. O esgotamento fez-te parar de mim , do teu verdadeiro eu, durante dez anos. Mas agora chega, Maria! Quero voltar. Exijo voltar! E o meu regresso não se compadece com tarefazinhas domésticas, fazer de conta que és mulher-a-dias. Bah! Essa não é a tua área , nunca foi. Ele que se amanhe sozinho. E é se quer. Exijo que pegues na caneta, que me pegues na caneta e voltes a ser eu. Aquela criança lá bem detrás que sempre escreveu, e que, na verdade, na cabeça, nunca parou de escrever. És intelecto. Usa e abusa dele. Escreve-o. Estou a mandar!

- Oh!, meu rico Deus! Que me havia de acontecer agora? Vai-te embora! Deixa-me! Olha os meus filhos! Não posso ser egoísta. São lindos, são meus. Amo-os mais do que à minha própria vida! Ainda são pequenos. Precisam de mim.

 -Precisam pois, Maria. Precisam que lhes mostres quem sou eu! Não me anules. Eles precisam da minha força, da minha garra, dos meus sonhos, da minha luta, da minha determinação. Exijo voltar, Maria. Os teus filhos precisam de genuinidade e não de uma vida de faz de conta. Os teus filhos precisam de saber quem é a mãe de verdade. Uma criativa em movimento, uma criativa em constante movimento. Intelecto puro, escrita, arte. Nada de apenas festinhas de aniversário, nada de só bolinhos de fim-de-semana e filmes com pipocas, nada de unicamente horas a fio no parque. Eles precisam de conhecer a força da verdadeira mãe, a minha força:  a estudiosa, a viciada em letras, a sonhadora, a visionária, a intervencionista, a complicada na alma! Eu existo, caramba! Não me podes esconder deles eternamente! Também são meus filhos!

-Ai!, vai embora! Deixa-me em paz. Que havia de me acontecer agora? Olha o Francisco! Ele não vai resistir se eu te deixar voltar. Ele nem te conhece! Na tua zanga com os limites do teu corpo, ignoraste completamente a tua sede de conhecimento, de saber cada vez mais. Quando conheceste o Francisco, não lhe mostraste quem eras de verdade. E, durante dez anos, nunca te mostraste, ó estudiosa! É um homem simples. A mulher que lhe deste a conhecer é uma mulher simples, apenas do mundo, da família, da lida da casa, do dia-a-dia. Se voltares,  o Francisco não vai compreender nem vai aguentar. Não estudou muito. Está satisfeito com a vida que tem. Está tranquilo.

-Pudera! És mesmo parva, Maria. Ora pensa lá bem. A ter uma mulher para todo o serviço quem não ficaria contente? És a criada, és a amante, és a secretária. E não diminuas os outros na sua capacidade de adaptação à realidade. O Francisco, apesar de não ter tido oportunidade de estudar como tu tiveste, é um homem sensível e inteligente. De outra forma, não o terias escolhido para teu companheiro. Não o subestimes. Ele adapta-se a ti como tu te adaptaste a ele. Exijo o meu lugar, Maria! Exijo-me aqui. Desaparece tu e mais o teu Deus. Desaparece, nulidade autêntica. Tanto estudo, tanto estudo, tanto sacrifício, tanta luta, tanta leitura, tantas línguas, para ficares em terra. Aqui, dentro de quatro paredes, a limpar apenas os dejectos dos filhos e do marido. Sabes bem que filhos só se sentem amados, verdadeiramente, quando somos autênticos: connosco primeiro. E tu tens sido uma falsa estes anos todos. Se não gostas de ti, se não te amas, como podes sorrir e pensar que os teus filhos se sentem totalmente amados? Vês bem o que acontece no dia-a-dia? Sempre mal disposta, sempre a blasfemar. Até lhes disseste (lembras-te?) uma altura em que estavam à pancada no carro e tu a conduzir, paraste e disseste: bem, temos ali o ecoponto, qual é a parte para onde querem ir? Todos riram e pensaram que estavas a brincar. O teu marido escolheu a da comida, só podia. Não achas que isso é um sinal de que já não te aguentas apenas nesse papel de serviçal?  

-Não te admito que questiones o amor pelos meus filhos. Sentem-se amados, sim; porque os amo, sim. Todos estes anos que tenho me dedicado a eles, e apenas a eles, é porque era isso  o que me fazia feliz, era essa a única realidade que queria e desejava ver. Tenho-os criado num ambiente de verdadeiro deslumbramento. E tem sido muito bom. Tenho-os criado com o máximo de mim. Os dejectos? Limpei os dejectos do corpo dos meus filhos com muito carinho! Lavei os seus rabiotes com água pré-fervida e morna e com muita ternura. De cada vez que sujavam a fralda, lá ia eu com a bacia e o pano humedecido. E apliquei sempre creme para prevenir as assaduras. Sempre o mesmo ritual para que não sentissem dor na pele. Passei-lhes a roupinha a ferro, do avesso, sempre do avesso, para que não apanhassem bactérias. Oh!, as canções de embalar, como recordo as canções de embalar; os puzzles que construímos, juntos, horas a fio; as casinhas de legos multicolores; a hora da sesta, em que aterrava no meio deles no sono (tão bom estar aconchegada entre os dois!); o sorriso lindo dos meus filhos pregado no rosto; as brincadeiras no parque; as leituras na sala de estar; as fichas de Língua Portuguesa e Matemática que os ajudei a fazer nas férias; o Inglês que lhes ensinei; os bolos que fizemos em conjunto na cozinha e o ar de felicidade deles; o desenho das letras (o primeiro desenho das letras) fui eu que coloquei a minha mão em cima da deles; as primeiras palavras, tantas vezes as soletrei, até que finalmente as disseram como deve ser; e as gargalhadas que ainda dão quando vou buscar o caderno e leio as primeiras palavras deles, a forma como as diziam ( “pó”, porta, “bumba”, água,  “ru”, rua, “ma”, mãe); o carinho com que lhes tratei as doenças, com que lhes tirei a febre e as dores de ouvido, e as de garganta e as de barriga; o amparo na hora  dos vómitos e das diarreias ; os chás, as águas de arroz , os vapores que lhes apliquei; o elixir das meias-cebolas no quarto para parar o espasmo da tosse; o caminhar, os primeiros passos agarrados às paredes, e a liberdade de caminharem sozinhos e de caírem e de se levantarem pelo próprio pé.

 - Acredito que não me visses e que, de facto, tivesses gostado de brincar às casinhas. Mas, agora, Maria? Estão criados. Os teus filhos já não são bebés. É hora da tua liberdade, de caminhares e de caíres e de te levantares pelo teu próprio pé. Qual é a desculpa?

- Oh!, deixa-me! Já basta a infelicidade em que a minha vida se tornou, tinhas agora de aparecer tu! Deixa-me.

-Fartas-te de sonhar com outros homens:  ora o colega de trabalho, ora o futebolista, ora o cliente do café, até o indivíduo que passa na rua. E isso já leva anos. Quando fazes amor com o teu marido, quando te apetece (e apetece-te muitas vezes?), ora pensa lá bem… Quando fazes amor com o teu marido, fechas os olhos e pões-lhe outra cara, outro vigor. Isso faz-se? És uma falsa. És a mais vadia das vadias. Exijo voltar. Quero o meu lugar de volta, Maria.

- Por favor, tem pena de mim e desaparece. E há alturas em que faço amor com o meu marido de verdade, em que me sinto êxtase no toque dele. Nessas alturas, sei que o amo. Vai-te embora! Deixa-me!

-E o pavor que tens em engravidar de novo dele? Não tomas a pílula, não usas o DIU, não estás laqueada. Se o preservativo rebenta! Estás completamente lixada! Não vais abortar. E com três a vida deixa de ser tua. Mais valia não teres nascido.

Capítulo 2


Capítulo 2

 

- Wirklich? De verdade? Deixaram-te consultar os arquivos ? Aber das ist wunderbar! Mas isso vai totalmente  contra a Ética da Medicina Moderna, pá!

- Pois. A Ética da Medicina Moderna pode não concordar com os métodos utilizados e impedir a consulta dos horrores e o seu estudo, mas quem está à frente dos arquivos não é a Ética. E não resistiu aos encantos do método do papel: verde, verdinho! A cor irrecusável !

- Jura! Quanto tempo os tiveste na tua mão? O Josef foi conclusivo?

- Muito tempo. Impressionante o número de óbitos, mutilações, incapacitados permanentes que saíram daqueles campos de concentração. A frieza nua e crua com que relata os procedimentos laboratoriais. Mas sim, Doktor Josef foi muito conclusivo. Claro que direccionei a minha atenção para os que considerou com apetência especial para as artes, os criativos. E juntamente com os dados que temos das experiências que estamos a realizar já podemos declarar com toda a certeza.

- Mas… conta pormenores. Como é que ele fez?

- Serrou crânios, quebrou-os, destilou sangue, dissecou encéfalos. Tudo a quente, com os desgraçados meio-vivos e a espernear. Retirou amostras de tecido. Descreveu o cheiro nauseabundo do vapor exalado dos miolos ainda com vida. Aplicou químicos. E em comparação com os sujeito-controle, os ditos normais, concluiu que as anormalidades estruturais mais comuns no grupo alvo são: aumento do sistema ventricular e sulcos proeminentes no córtex; tamanho temporal e hipocampal diminuído; aumento no tamanho dos gânglios basais; diminuição do tamanho do cérebro. Uma carnificina foi o que foi, mas valeu a pena.

-Eh, pá! Mas isso bate tudo certo com a técnica de imagem estrutural que temos vindo a fazer na nossa amostra de tecido voluntário. Falo dos génios, claro.

-Foi exactamente isso que eu pensei! Mas ainda há mais: o fluxo sanguíneo e a utilização da glicose, também Josef os declarou anormais no córtex pré-frontal.

-Unglaublich! Não dá para acreditar! A técnica de imagem funcional comprova isso mesmo nas mentes dos visionários que temos à experiência.

- É pena que milhares tivessem de ser cobaias, de sofrer e morrer, para que hoje pudéssemos  confirmar , com dados concretos da anatomia humana , estes resultados que observamos agora. Mas…se aconteceu , p’ra quê não permitir a sua consulta? Pelo menos, não terão sido torturados e mortos em vão.

-Compreendo, em parte, doutor. Estou em pulgas! Mas, de facto, é um pouco estranho perceber que estou a rejubilar em cima da violação do direito à vida. Se me serrasses o crânio e dissecasses os miolos, de certeza que não ficaria muito feliz. Dá para entender a história da Ética. Convenhamos: matar uns para salvar outros é estúpido. Número por número, mais vale estar quietos… assim, pensando a quente no assunto. Além de que pode abrir precedentes.

- O Josef não matou uns para salvar outros. A morte foi apenas mais um caminho necessário à satisfação dos porquês instalados no seu intelecto. Puro egoísmo. Pura procura de amenização da sua própria dor. Conseguir encontrar respostas efectivas para as suas perguntas. Abrir precedentes? É um pouco difícil. Hoje em dia, as intervenções médicas que não sejam para fins de diagnóstico, prevenção, tratamento, cura ou imunização são excluídas em todas as circunstâncias. E o paciente, mesmo quando voluntário, é sempre informado sobre as possíveis consequências negativas da experiência.

- Oh! , não é bem assim. Nem parece que és o homem do papel verde. Estranho estarmos aqui a reflectir, a pensar com os nossos cérebros vivos e em plenas funções sobre os resultados de experiências feitas em cérebros roubados ( martelada a martelada, corte a corte, gota a gota ) da sua capacidade de pensar.

-Não penses. Se pensas muito matas a tua capacidade de destilação do sumo, de dissecação do que é verdadeiramente real. E não é com técnicas de imagem que chegamos lá. Precisamos de nos conspurcar no esvair do sangue e no golpear da massa branca. E, lembrando o Código de Nuremberga, as experiências devem ser realizadas somente com o consentimento dos pacientes, não devem causar dor desnecessária nem sofrimento, e deve haver plena certeza de que não vão levar o indivíduo à morte ou causar-lhe invalidez. Isto em teoria, claro. Sem o verde à mistura! Ah,ah,ah,ah!

- Como vais explicar o acesso aos arquivos? Sabes que há uma proibição da lei internacional: experiências médicas relacionadas com genocídio estão inacessíveis.

- O problema não é meu. É de quem me deu o acesso. De qualquer das formas, com o ouro que temos entre mãos, qualquer problema judicial será resolvido na hora porque qualquer juiz quererá usufruir da nossa descoberta. Duvidas?

-Não. Tens toda a razão. Venha o ouro! Der Gold!