Capítulo 3
(meio ano antes)
-Oh!, meu rico
Deus! Que me havia de acontecer agora?
-Que te havia de acontecer, agora, Maria?
Manda Deus para o outro canto do planeta!
- Oh!, não,
não! Posso ser severamente castigada!
- Deus não
existe, Maria.
-Não digas isso. Olha que dá mau agoiro
dizeres isso.
-Digo sim, e berro, se for preciso. Ora escuta
bem: DEUS NÃO EXISTE! Quantas vezes na vida sentiste que a felicidade te caía
no colo?
-Nenhuma.
-Bem me
parecia. Mesmo correndo atrás dela. Quantas vezes sentiste que aquilo que tanto
queres (e estou a falar de amor) é teu, é p’ra ti?
-Zero.
-Já
desconfiava.
-Mas tenho tantas razões para me sentir feliz:
uns filhos maravilhosos, um marido tranquilo e meigo, uma profissão que adoro,
estou rodeada de gente que me quer bem.
- Estás
constantemente a enganar-te, é o que é, Maria! Ora pensa lá bem. Isso não te
chega. E sabes perfeitamente que já não amas o teu marido. Já foi tempo. És
ambiciosa. Tens outros planos para ti. Sempre tiveste.
- Cala-te, por
favor, ó eterna insatisfeita! És insaciável. Isso já eu sei há muito tempo.
Estiveste tão calada e agora voltaste porquê? Não me infernizes a vida. Vai de
retro, Satanás!
- Fizeste apenas um breve interregno. O
esgotamento fez-te parar de mim , do teu verdadeiro eu, durante dez anos. Mas agora
chega, Maria! Quero voltar. Exijo voltar! E o meu regresso não se compadece com
tarefazinhas domésticas, fazer de conta que és mulher-a-dias. Bah! Essa não é a
tua área , nunca foi. Ele que se amanhe sozinho. E é se quer. Exijo que pegues
na caneta, que me pegues na caneta e voltes a ser eu. Aquela criança lá bem
detrás que sempre escreveu, e que, na verdade, na cabeça, nunca parou de
escrever. És intelecto. Usa e abusa dele. Escreve-o. Estou a mandar!
- Oh!, meu
rico Deus! Que me havia de acontecer agora? Vai-te embora! Deixa-me! Olha os
meus filhos! Não posso ser egoísta. São lindos, são meus. Amo-os mais do que à
minha própria vida! Ainda são pequenos. Precisam de mim.
-Precisam pois, Maria. Precisam que lhes
mostres quem sou eu! Não me anules. Eles precisam da minha força, da minha
garra, dos meus sonhos, da minha luta, da minha determinação. Exijo voltar,
Maria. Os teus filhos precisam de genuinidade e não de uma vida de faz de
conta. Os teus filhos precisam de saber quem é a mãe de verdade. Uma criativa
em movimento, uma criativa em constante movimento. Intelecto puro, escrita,
arte. Nada de apenas festinhas de aniversário, nada de só bolinhos de
fim-de-semana e filmes com pipocas, nada de unicamente horas a fio no parque.
Eles precisam de conhecer a força da verdadeira mãe, a minha força: a estudiosa, a viciada em letras, a sonhadora,
a visionária, a intervencionista, a complicada na alma! Eu existo, caramba! Não
me podes esconder deles eternamente! Também são meus filhos!
-Ai!, vai
embora! Deixa-me em paz. Que havia de me acontecer agora? Olha o Francisco! Ele
não vai resistir se eu te deixar voltar. Ele nem te conhece! Na tua zanga com
os limites do teu corpo, ignoraste completamente a tua sede de conhecimento, de
saber cada vez mais. Quando conheceste o Francisco, não lhe mostraste quem eras
de verdade. E, durante dez anos, nunca te mostraste, ó estudiosa! É um homem
simples. A mulher que lhe deste a conhecer é uma mulher simples, apenas do
mundo, da família, da lida da casa, do dia-a-dia. Se voltares, o Francisco não vai compreender nem vai
aguentar. Não estudou muito. Está satisfeito com a vida que tem. Está
tranquilo.
-Pudera! És
mesmo parva, Maria. Ora pensa lá bem. A ter uma mulher para todo o serviço quem
não ficaria contente? És a criada, és a amante, és a secretária. E não diminuas
os outros na sua capacidade de adaptação à realidade. O Francisco, apesar de
não ter tido oportunidade de estudar como tu tiveste, é um homem sensível e
inteligente. De outra forma, não o terias escolhido para teu companheiro. Não o
subestimes. Ele adapta-se a ti como tu te adaptaste a ele. Exijo o meu lugar,
Maria! Exijo-me aqui. Desaparece tu e mais o teu Deus. Desaparece, nulidade
autêntica. Tanto estudo, tanto estudo, tanto sacrifício, tanta luta, tanta
leitura, tantas línguas, para ficares em terra. Aqui, dentro de quatro paredes,
a limpar apenas os dejectos dos filhos e do marido. Sabes bem que filhos só se
sentem amados, verdadeiramente, quando somos autênticos: connosco primeiro. E
tu tens sido uma falsa estes anos todos. Se não gostas de ti, se não te amas,
como podes sorrir e pensar que os teus filhos se sentem totalmente amados? Vês
bem o que acontece no dia-a-dia? Sempre mal disposta, sempre a blasfemar. Até
lhes disseste (lembras-te?) uma altura em que estavam à pancada no carro e tu a
conduzir, paraste e disseste: bem, temos ali o ecoponto, qual é a parte para
onde querem ir? Todos riram e pensaram que estavas a brincar. O teu marido
escolheu a da comida, só podia. Não achas que isso é um sinal de que já não te
aguentas apenas nesse papel de serviçal?
-Não te admito
que questiones o amor pelos meus filhos. Sentem-se amados, sim; porque os amo,
sim. Todos estes anos que tenho me dedicado a eles, e apenas a eles, é porque
era isso o que me fazia feliz, era essa
a única realidade que queria e desejava ver. Tenho-os criado num ambiente de
verdadeiro deslumbramento. E tem sido muito bom. Tenho-os criado com o máximo
de mim. Os dejectos? Limpei os dejectos do corpo dos meus filhos com muito
carinho! Lavei os seus rabiotes com água pré-fervida e morna e com muita
ternura. De cada vez que sujavam a fralda, lá ia eu com a bacia e o pano
humedecido. E apliquei sempre creme para prevenir as assaduras. Sempre o mesmo
ritual para que não sentissem dor na pele. Passei-lhes a roupinha a ferro, do
avesso, sempre do avesso, para que não apanhassem bactérias. Oh!, as canções de
embalar, como recordo as canções de embalar; os puzzles que construímos, juntos,
horas a fio; as casinhas de legos multicolores; a hora da sesta, em que
aterrava no meio deles no sono (tão bom estar aconchegada entre os dois!); o
sorriso lindo dos meus filhos pregado no rosto; as brincadeiras no parque; as
leituras na sala de estar; as fichas de Língua Portuguesa e Matemática que os
ajudei a fazer nas férias; o Inglês que lhes ensinei; os bolos que fizemos em
conjunto na cozinha e o ar de felicidade deles; o desenho das letras (o
primeiro desenho das letras) fui eu que coloquei a minha mão em cima da deles;
as primeiras palavras, tantas vezes as soletrei, até que finalmente as disseram
como deve ser; e as gargalhadas que ainda dão quando vou buscar o caderno e
leio as primeiras palavras deles, a forma como as diziam ( “pó”, porta, “bumba”,
água, “ru”, rua, “ma”, mãe); o carinho
com que lhes tratei as doenças, com que lhes tirei a febre e as dores de
ouvido, e as de garganta e as de barriga; o amparo na hora dos vómitos e das diarreias ; os chás, as
águas de arroz , os vapores que lhes apliquei; o elixir das meias-cebolas no
quarto para parar o espasmo da tosse; o caminhar, os primeiros passos agarrados
às paredes, e a liberdade de caminharem sozinhos e de caírem e de se levantarem
pelo próprio pé.
- Acredito que não me visses e que, de facto,
tivesses gostado de brincar às casinhas. Mas, agora, Maria? Estão criados. Os
teus filhos já não são bebés. É hora da tua liberdade, de caminhares e de caíres
e de te levantares pelo teu próprio pé. Qual é a desculpa?
- Oh!,
deixa-me! Já basta a infelicidade em que a minha vida se tornou, tinhas agora
de aparecer tu! Deixa-me.
-Fartas-te de
sonhar com outros homens: ora o colega
de trabalho, ora o futebolista, ora o cliente do café, até o indivíduo que
passa na rua. E isso já leva anos. Quando fazes amor com o teu marido, quando
te apetece (e apetece-te muitas vezes?), ora pensa lá bem… Quando fazes amor
com o teu marido, fechas os olhos e pões-lhe outra cara, outro vigor. Isso
faz-se? És uma falsa. És a mais vadia das vadias. Exijo voltar. Quero o meu
lugar de volta, Maria.
- Por favor,
tem pena de mim e desaparece. E há alturas em que faço amor com o meu marido de
verdade, em que me sinto êxtase no toque dele. Nessas alturas, sei que o amo.
Vai-te embora! Deixa-me!
-E o pavor que
tens em engravidar de novo dele? Não tomas a pílula, não usas o DIU, não estás
laqueada. Se o preservativo rebenta! Estás completamente lixada! Não vais
abortar. E com três a vida deixa de ser tua. Mais valia não teres nascido.
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