quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 3


Capítulo 3

 

(meio ano antes)

 

-Oh!, meu rico Deus! Que me havia de acontecer agora?

 -Que te havia de acontecer, agora, Maria? Manda Deus para o outro canto do planeta!

- Oh!, não, não! Posso ser severamente castigada!

- Deus não existe, Maria.

 -Não digas isso. Olha que dá mau agoiro dizeres isso.

 -Digo sim, e berro, se for preciso. Ora escuta bem: DEUS NÃO EXISTE! Quantas vezes na vida sentiste que a felicidade te caía no colo?

 -Nenhuma.

-Bem me parecia. Mesmo correndo atrás dela. Quantas vezes sentiste que aquilo que tanto queres (e estou a falar de amor) é teu, é p’ra ti?

                -Zero.

                -Já desconfiava.

 -Mas tenho tantas razões para me sentir feliz: uns filhos maravilhosos, um marido tranquilo e meigo, uma profissão que adoro, estou rodeada de gente que me quer bem.

- Estás constantemente a enganar-te, é o que é, Maria! Ora pensa lá bem. Isso não te chega. E sabes perfeitamente que já não amas o teu marido. Já foi tempo. És ambiciosa. Tens outros planos para ti. Sempre tiveste.

- Cala-te, por favor, ó eterna insatisfeita! És insaciável. Isso já eu sei há muito tempo. Estiveste tão calada e agora voltaste porquê? Não me infernizes a vida. Vai de retro, Satanás!

 - Fizeste apenas um breve interregno. O esgotamento fez-te parar de mim , do teu verdadeiro eu, durante dez anos. Mas agora chega, Maria! Quero voltar. Exijo voltar! E o meu regresso não se compadece com tarefazinhas domésticas, fazer de conta que és mulher-a-dias. Bah! Essa não é a tua área , nunca foi. Ele que se amanhe sozinho. E é se quer. Exijo que pegues na caneta, que me pegues na caneta e voltes a ser eu. Aquela criança lá bem detrás que sempre escreveu, e que, na verdade, na cabeça, nunca parou de escrever. És intelecto. Usa e abusa dele. Escreve-o. Estou a mandar!

- Oh!, meu rico Deus! Que me havia de acontecer agora? Vai-te embora! Deixa-me! Olha os meus filhos! Não posso ser egoísta. São lindos, são meus. Amo-os mais do que à minha própria vida! Ainda são pequenos. Precisam de mim.

 -Precisam pois, Maria. Precisam que lhes mostres quem sou eu! Não me anules. Eles precisam da minha força, da minha garra, dos meus sonhos, da minha luta, da minha determinação. Exijo voltar, Maria. Os teus filhos precisam de genuinidade e não de uma vida de faz de conta. Os teus filhos precisam de saber quem é a mãe de verdade. Uma criativa em movimento, uma criativa em constante movimento. Intelecto puro, escrita, arte. Nada de apenas festinhas de aniversário, nada de só bolinhos de fim-de-semana e filmes com pipocas, nada de unicamente horas a fio no parque. Eles precisam de conhecer a força da verdadeira mãe, a minha força:  a estudiosa, a viciada em letras, a sonhadora, a visionária, a intervencionista, a complicada na alma! Eu existo, caramba! Não me podes esconder deles eternamente! Também são meus filhos!

-Ai!, vai embora! Deixa-me em paz. Que havia de me acontecer agora? Olha o Francisco! Ele não vai resistir se eu te deixar voltar. Ele nem te conhece! Na tua zanga com os limites do teu corpo, ignoraste completamente a tua sede de conhecimento, de saber cada vez mais. Quando conheceste o Francisco, não lhe mostraste quem eras de verdade. E, durante dez anos, nunca te mostraste, ó estudiosa! É um homem simples. A mulher que lhe deste a conhecer é uma mulher simples, apenas do mundo, da família, da lida da casa, do dia-a-dia. Se voltares,  o Francisco não vai compreender nem vai aguentar. Não estudou muito. Está satisfeito com a vida que tem. Está tranquilo.

-Pudera! És mesmo parva, Maria. Ora pensa lá bem. A ter uma mulher para todo o serviço quem não ficaria contente? És a criada, és a amante, és a secretária. E não diminuas os outros na sua capacidade de adaptação à realidade. O Francisco, apesar de não ter tido oportunidade de estudar como tu tiveste, é um homem sensível e inteligente. De outra forma, não o terias escolhido para teu companheiro. Não o subestimes. Ele adapta-se a ti como tu te adaptaste a ele. Exijo o meu lugar, Maria! Exijo-me aqui. Desaparece tu e mais o teu Deus. Desaparece, nulidade autêntica. Tanto estudo, tanto estudo, tanto sacrifício, tanta luta, tanta leitura, tantas línguas, para ficares em terra. Aqui, dentro de quatro paredes, a limpar apenas os dejectos dos filhos e do marido. Sabes bem que filhos só se sentem amados, verdadeiramente, quando somos autênticos: connosco primeiro. E tu tens sido uma falsa estes anos todos. Se não gostas de ti, se não te amas, como podes sorrir e pensar que os teus filhos se sentem totalmente amados? Vês bem o que acontece no dia-a-dia? Sempre mal disposta, sempre a blasfemar. Até lhes disseste (lembras-te?) uma altura em que estavam à pancada no carro e tu a conduzir, paraste e disseste: bem, temos ali o ecoponto, qual é a parte para onde querem ir? Todos riram e pensaram que estavas a brincar. O teu marido escolheu a da comida, só podia. Não achas que isso é um sinal de que já não te aguentas apenas nesse papel de serviçal?  

-Não te admito que questiones o amor pelos meus filhos. Sentem-se amados, sim; porque os amo, sim. Todos estes anos que tenho me dedicado a eles, e apenas a eles, é porque era isso  o que me fazia feliz, era essa a única realidade que queria e desejava ver. Tenho-os criado num ambiente de verdadeiro deslumbramento. E tem sido muito bom. Tenho-os criado com o máximo de mim. Os dejectos? Limpei os dejectos do corpo dos meus filhos com muito carinho! Lavei os seus rabiotes com água pré-fervida e morna e com muita ternura. De cada vez que sujavam a fralda, lá ia eu com a bacia e o pano humedecido. E apliquei sempre creme para prevenir as assaduras. Sempre o mesmo ritual para que não sentissem dor na pele. Passei-lhes a roupinha a ferro, do avesso, sempre do avesso, para que não apanhassem bactérias. Oh!, as canções de embalar, como recordo as canções de embalar; os puzzles que construímos, juntos, horas a fio; as casinhas de legos multicolores; a hora da sesta, em que aterrava no meio deles no sono (tão bom estar aconchegada entre os dois!); o sorriso lindo dos meus filhos pregado no rosto; as brincadeiras no parque; as leituras na sala de estar; as fichas de Língua Portuguesa e Matemática que os ajudei a fazer nas férias; o Inglês que lhes ensinei; os bolos que fizemos em conjunto na cozinha e o ar de felicidade deles; o desenho das letras (o primeiro desenho das letras) fui eu que coloquei a minha mão em cima da deles; as primeiras palavras, tantas vezes as soletrei, até que finalmente as disseram como deve ser; e as gargalhadas que ainda dão quando vou buscar o caderno e leio as primeiras palavras deles, a forma como as diziam ( “pó”, porta, “bumba”, água,  “ru”, rua, “ma”, mãe); o carinho com que lhes tratei as doenças, com que lhes tirei a febre e as dores de ouvido, e as de garganta e as de barriga; o amparo na hora  dos vómitos e das diarreias ; os chás, as águas de arroz , os vapores que lhes apliquei; o elixir das meias-cebolas no quarto para parar o espasmo da tosse; o caminhar, os primeiros passos agarrados às paredes, e a liberdade de caminharem sozinhos e de caírem e de se levantarem pelo próprio pé.

 - Acredito que não me visses e que, de facto, tivesses gostado de brincar às casinhas. Mas, agora, Maria? Estão criados. Os teus filhos já não são bebés. É hora da tua liberdade, de caminhares e de caíres e de te levantares pelo teu próprio pé. Qual é a desculpa?

- Oh!, deixa-me! Já basta a infelicidade em que a minha vida se tornou, tinhas agora de aparecer tu! Deixa-me.

-Fartas-te de sonhar com outros homens:  ora o colega de trabalho, ora o futebolista, ora o cliente do café, até o indivíduo que passa na rua. E isso já leva anos. Quando fazes amor com o teu marido, quando te apetece (e apetece-te muitas vezes?), ora pensa lá bem… Quando fazes amor com o teu marido, fechas os olhos e pões-lhe outra cara, outro vigor. Isso faz-se? És uma falsa. És a mais vadia das vadias. Exijo voltar. Quero o meu lugar de volta, Maria.

- Por favor, tem pena de mim e desaparece. E há alturas em que faço amor com o meu marido de verdade, em que me sinto êxtase no toque dele. Nessas alturas, sei que o amo. Vai-te embora! Deixa-me!

-E o pavor que tens em engravidar de novo dele? Não tomas a pílula, não usas o DIU, não estás laqueada. Se o preservativo rebenta! Estás completamente lixada! Não vais abortar. E com três a vida deixa de ser tua. Mais valia não teres nascido.

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