Capítulo 21
Chapéus de
cano alto e negros fraques bem engomados; as plumas femininas a pender no verde
macio do veludo; colares - incontáveis pérolas de todos os tons e tamanhos -
imersos nos colos franzinos; enjoadas cigarrilhas concentradas no aperto dos
corpetes; vestidos, desnudados de costas, na seda do seduzido; rendas no cio
por sobre os olhos em devaneio e a todo o vapor. E a música que jaz em morse
ritmada: breves e secas pancadas de fôlego cortadas. No Charleston, o trote da
dança, a frenética passada dos ritmos laterais e circulares, o glamour do
estar. A boémia em frenesim no Café Parisien ao som dos Marconi. Art Nouveau
nos ornamentos : as cores vivas, as curvas sinuosas das fachadas, os imponentes
móveis, joias em camafeu e deslumbrantes
vitrais. La Belle Epoque : respira-se cultura cosmopolita, elites intelectuais
e artísticas, burguesia em opulência e derrocada. Cabarés, Cancans e Cinema : a
reinvenção da diversão. Vive-se Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Balzac. É a
hora verde. A náusea na alegre
disposição do absinto que, gota a gota, entranha-se na pele do que te sinto.
-
Amo-te, Ophelia! Acredita-me. Amo-te mais do que este mundo e o outro e todos
os meus encrespados eus juntos. Amo-te mais do que toda a eufórica engrenagem
na casa das máquinas. Amo-te mais do que todo o eflúvio emanado do recém extinto carvão nos
fornos e caldeiras deste barco e de
todos os barcos em redor. Amo-te, amor. Acredita-me. Acreditas-me?
-Sim,
meu poeta do sol poente, mon Prince Charmant. Minha adocicada gota esmeralda na
língua da ocasião. Desaperta-me o vestido, querido, sim?
-Amo-te,
minha doce fada verde. Amo-te mais do que o anis, o funcho, o torrão de açúcar
e o láudano. Amo-te mais do que todos os opióides em ebulição cá dentro.
Crês-me, ma Fée Verte? Crês-me?
-Oui,
monsieur. Despe-me o corpete, mon cher. Está tudo a andar à roda. Nem me seguro
nos tornozelos de que tanto o Chanel gosta. Eu sabia que deveria ter-me
alimentado melhor. Despe-me o corpete, mon cher. Despe-me de mim, mon amour.
Masculiniza-me.
-Pára,
Nuno. Pára. Vais ficar de rastos. Sabes que isso da retro-cognição esvai-te de
toda a tua energia, transforma-te num apagão vaporizado. Pára, Nuno.
-Cala-te,
velho. Está bom. Agora está bom. Não voltes a interromper-me. Maria, Maria,
Maria, vá…de onde é que te conheço? De que época? Por favor, mon amour, retorna
lá, ao barco, ma Fée Verte, retorna… já estou a ver a espiral, oh!, anda…as
hélices do Olympic, oh!, anda, mon amour…
-Non,
ne s’arrêtent pas. Não pares, Bernardo, não pares, oh!, meu doce poeta do
mundo, meu fantasma louco e moribundo, mon amour, vient…
-Ophelia…
“
tum-tum-tum-tum-tum-tum: o pulsar deste momento no carvão do que te sou:
máquina febril de alento –
tormento separando águas, mar adentro.
shshshshshshshshsh:
a todo o vapor navego nas rotas da colisão;
demarco-me do
território vítreo – no inóspito e redundante não.
Sei-te de outro,
comiserada nas hostes da fachada em redor,
cerram-te noutro,
nos trajectos imperiais do alicerçado amor.
Tum-tum-tum-tum-tum-tum:
é minha a célere turbina que te inova:
insana a loucura
que te faz querer ser dor e de sobra.
Shshshshshshshshsh:
a todo o vapor rasgo essas rendas – fendas
em teu corpo de
cal, o sal que a língua percorre e deixa
ao rubro.
E só em mim despes
o tudo que és: nem só pele, sangue e rum;
E só em ti morro
de todos os eus p’ra me ser um em vez de
nenhum”
(o Poeta do Sol Poente)
-Oh!, amor,
acorda! Ma vie, acorda. Diz-me o que faço? És tu quem eu quero, mon Prince
Charmant. Não permitas que volte para
ele. Não me entregues de novo à morte, não. Diz que me queres, meu Poeta do Sol
Poente. Diz que me desejas. Diz que só a mim almejas.
-Ophelia,
sabes que não tenho morada certa. Sabes-me um boémio, de embarcação em
embarcação, de terra em terra, de estalagem em estalagem. Sabes que te anseio,
sim. És toda a minha vida e toda a minha morte, ma Fée Verte. És tudo. E dói
porque sei que não te abandonas, sei que não te despojas de todo o luxo, de
todo o estatuto, de teus filhos, por mim.
-Despojo, sim.
Diz-me que é isso que queres. Diz-me: Ophelia despoja-te e entrega-te a mim.
Não dizes. Nunca dizes. Isso sim, dói.
-Não deveria
dizer, Ophelia. Não deveria pedir. Se é o que sentes, não o deverias rogar. Se
o rogas em vez de o fazer é porque não o sentes. Já deveria estar feito. Não te
mintas. Não tens coragem de abandonar o império, de lhe entregar os teus
filhos, de te enlameares nos corredores da época. Não tens coragem.
-Tens razão.
Não tenho coragem de aviltar o que de mais meu sinto: os meus filhos. Meu belo
Poeta do Sol Poente, não posso abandonar o sangue do meu sangue; não posso
desertar aquele olhar de esperança que em mim pousa. E que mãe lhes iria dizer
que os ama? Que mãe os iria afagar na hora de deitar? Que mãe iria ampará-los
na queda do sonhar? Que mãe? Oh!, que dor!Não os posso entregar ao pai.
Desculpa-me, mon Prince Charmant. Desculpa-nos. Em outra vida, talvez.
-Nuno, acorda,
querido. Nuno…
-Ophelia…
-Que Ofélia?
Joana, pastel. Joana. Ouve lá! Quem é a Ofélia?
-Deixa-me
estar, mon amour. Deixa, volta para ele, para os teus filhos. Vai e não voltes.
-Que estás
para aí a dizer, Nuno? Filhos? Ainda não nasceu. Está aqui, dentro de mim.
Volto para quem? Quem é a Ofélia? Olha, apagou. Desgraçado. Quem é a Ofélia?
“Está tudo em alvoroço, meus senhores. Tudo
em alvoroço. Foi-lhes mostrada a cenoura e tudo correu atrás da dita. Tudo.
Quem viu que não lhe conseguia chegar, decidiu, que nem um jumento, por
interposta pessoa, a alcançar. Foi dito que a cenoura valia mais do que o ouro:
o próprio. Foi dito que era parco o tempo para deitar mão à referida, à
alaranjada – dourada, salvo seja. E tudo aproveitou o tudo que era ofertado -
uma pechincha, meu senhor! Uma barganha! Nem na China consegue um negócio
assim. Aproveite. Não tem verba? Não importa. Eu arranjo quem lhe empreste a
quantia. Eu arranjo, Sr. Mete os Pés pelas Mãos Investidor. É lucro garantido.
Dinheiro fácil para ostentar nos corredores cosmopolitas da capital, dinheiro
fácil. Com o pouco que tem compra mais dinheiro aos bancos. Compre! Compre! Que
o preço do dinheiro está barato: compre! Compra tanso – não vou dizer-te que
daqui a uns dias alteram as regras do jogo e tu pagas o triplo e de bico
calado. É o engole e cala. Especulação? Não. Que palavra mais feia. Não.
Especular? Nunca. Compra as acções. Estão uma pechincha, e no minuto a seguir
valer-te-ão o teu império. Já é teu, tanso. Não vês? O império do interior das
pipas a caminho do Nilo. É todo teu. E o dito chegou ao quinto dia útil da
semana, chegou de surpresa - e de toda a maneira que não estavas à espera - ó
ganancioso …o dito chegou aos dias vinte e quatro de Outubro de 1929.Mas não
chegou só p’ra ti, egoísta! Pensavas que era só teu? Chegou em grande: não num
manto dourado (como se previa) mas num imenso manto negro. Crash! Um estrondoso
embate na cega avidez de cada um. E em vez dos milhões, as ruínas, palerma! As
falências em cadeia, a contracção da
economia, a paralisia nas actividades e o desemprego. Rua, idiota! Rua! Não
fazes cá falta alguma. Sem o teu espólio? Quem te mandou investir na miragem da
cenoura? Eu? A tua sede de estatuto. A tua perniciosa ambição .E já lá vão 10.
E agora o caos: A Grande Depressão. Só se fala nisso, só se sente isso : A
Grande Depressão. A guerra. Já não bastava a fome. Agora o medo de ser eu. Não.
Nunca. Eu não sou esse. Não! Esse não é: eu. Provo, sim, que esse não é eu. A
mim não me apanham num campo de concentração. Oh!, vizinho! Ajude lá aí. Deixe
esconder-me na sua cave, por baixo do cadafalso. Deixe esconder-me e traga-me o
pão e o vinho. Seja meu irmão. Tudo culpa da ganância e daquilo a que o ser
humano não dá a mínima importância: a vida – neste caso a humana. O direito a
existir com dignidade. O direito a ser: como tu tens o direito a ser. Quem tu
pensas que és p’ra te achares no direito de decidir da minha vida ou da minha
morte? Quem tu pensas que és sangue, pele, carne e osso? Matas-me agora? Oui
,monsieur. Um dia - e é essa a minha alegria -vais saber o que é matar-te a ti.
Não te escapas: pele, carne, sangue e osso. Apodrecimento, putrefacção e pó,
dizem.”
-Não,
Bernardo! Não, não, não. Pela tua vida, e se me tens amor, não. Não publiques
esse artigo. Não agora, não neste momento. Sabes que te matam. Eles matam-te.
Já mataram muitos outros por menos, só por existirem (como dizes). Por favor,
amor: rasga isso, queima. Não publiques.
-Ophelia!
Pouco me importa o que vão fazer com este corpo, pouco me importa! Estou farto,
farto de tudo ver e nada fazer. Estou farto da hipocrisia em redor. Estou
farto. Até de ti estou farto. Agora vão ver.
-Esconde,
Bernardo. Olha que eles ouvem-te. Estamos no “Galactic”. Eles conhecem-me. Sou
a mulher do político. Olha eles a virem para cá. Eu não devia ter vindo. Oh!,
não! O meu marido! Foge Bernardo! Foge! Matam-te! Matam-nos.
-Nuno, sou eu
a Joana. Oh!, amor, estás a preocupar-me. Não dizes coisa com coisa. Acorda,
querido, acorda.
-
Mata , mata, mata de uma vez!
-Nuno!
Sou eu, a Joana. Vá : olha p’ra mim. Isso passa. Daqui a pouco, isso passa.
Então? Já me vês? Já estás cá? Já voltaste de lá?
-Joana…que
aconteceu? Onde estou? Joana…
-Estás
na nossa casa, querido. A nossa casa nova para receber o nosso bebé, amor.
Lembras-te?
-Ah!,
sim…
-Tiveste
um daqueles transes que te dão de quando em vez…aqueles esquisitos, em que não
dizes coisa com coisa…falavas em matar, filhos e…uma Ofélia…
-Ophelia
?
-Sim.
Quem é?
-Boa
pergunta, Joana. Quem é?
-Oh!,
esquece. Estás bem? Vou terminar de preparar o jantar. Vai refrescar-te, vai.
-Já
sei de onde a conheço, velho. Já sei de onde conheço, a Maria.
-Eu
vi. Uma tragédia ,foi o que foi.
-É
forte, velho. É forte. É de outros tempos, tal como supunha. Eu nem posso crer
que morri por amor, por amor a ela, à
Maria, à Ophelia. E morrer por uma causa também vem de outros tempos.
Compreendo-me melhor, agora. E o que faço com isto?
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