quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Capítulo 21


Capítulo 21

 

Chapéus de cano alto e negros fraques bem engomados; as plumas femininas a pender no verde macio do veludo; colares - incontáveis pérolas de todos os tons e tamanhos - imersos nos colos franzinos; enjoadas cigarrilhas concentradas no aperto dos corpetes; vestidos, desnudados de costas, na seda do seduzido; rendas no cio por sobre os olhos em devaneio e a todo o vapor. E a música que jaz em morse ritmada: breves e secas pancadas de fôlego cortadas. No Charleston, o trote da dança, a frenética passada dos ritmos laterais e circulares, o glamour do estar. A boémia em frenesim no Café Parisien ao som dos Marconi. Art Nouveau nos ornamentos : as cores vivas, as curvas sinuosas das fachadas, os imponentes móveis, joias em camafeu e  deslumbrantes vitrais. La Belle Epoque : respira-se cultura cosmopolita, elites intelectuais e artísticas, burguesia em opulência e derrocada. Cabarés, Cancans e Cinema : a reinvenção da diversão. Vive-se Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e Balzac. É a hora verde.  A náusea na alegre disposição do absinto que, gota a gota, entranha-se na pele do que te sinto.

                - Amo-te, Ophelia! Acredita-me. Amo-te mais do que este mundo e o outro e todos os meus encrespados eus juntos. Amo-te mais do que toda a eufórica engrenagem na casa das máquinas. Amo-te mais do que todo o eflúvio  emanado do recém extinto carvão nos fornos  e caldeiras deste barco e de todos os barcos em redor. Amo-te, amor. Acredita-me. Acreditas-me?

                -Sim, meu poeta do sol poente, mon Prince Charmant. Minha adocicada gota esmeralda na língua da ocasião. Desaperta-me o vestido, querido, sim?

                -Amo-te, minha doce fada verde. Amo-te mais do que o anis, o funcho, o torrão de açúcar e o láudano. Amo-te mais do que todos os opióides em ebulição cá dentro. Crês-me, ma Fée Verte? Crês-me?

                -Oui, monsieur. Despe-me o corpete, mon cher. Está tudo a andar à roda. Nem me seguro nos tornozelos de que tanto o Chanel gosta. Eu sabia que deveria ter-me alimentado melhor. Despe-me o corpete, mon cher. Despe-me de mim, mon amour. Masculiniza-me.

                -Pára, Nuno. Pára. Vais ficar de rastos. Sabes que isso da retro-cognição esvai-te de toda a tua energia, transforma-te num apagão vaporizado. Pára, Nuno.

                -Cala-te, velho. Está bom. Agora está bom. Não voltes a interromper-me. Maria, Maria, Maria, vá…de onde é que te conheço? De que época? Por favor, mon amour, retorna lá, ao barco, ma Fée Verte, retorna… já estou a ver a espiral, oh!, anda…as hélices do Olympic, oh!, anda, mon amour…

                -Non, ne s’arrêtent pas. Não pares, Bernardo, não pares, oh!, meu doce poeta do mundo, meu fantasma louco e moribundo, mon amour, vient…

                -Ophelia…

 

                “ tum-tum-tum-tum-tum-tum: o pulsar deste momento no carvão do que te sou:

               máquina febril de alento – tormento separando águas, mar adentro.

                shshshshshshshshsh: a todo o vapor navego nas rotas da colisão;

                demarco-me do território vítreo – no inóspito e redundante não.

                Sei-te de outro, comiserada nas hostes da fachada em redor,

                cerram-te noutro, nos trajectos imperiais do alicerçado amor.

                Tum-tum-tum-tum-tum-tum: é minha a célere turbina que te inova:

              insana a loucura que te faz querer ser dor e de sobra.

                Shshshshshshshshsh: a todo o vapor rasgo essas rendas – fendas

                em teu corpo de cal,  o sal que a língua percorre e deixa ao rubro.

                E só em mim despes o tudo que és: nem só pele, sangue e rum;

                E só em ti morro de todos os  eus p’ra me ser um em vez de nenhum”

 

                (o Poeta do Sol Poente)

 

-Oh!, amor, acorda! Ma vie, acorda. Diz-me o que faço? És tu quem eu quero, mon Prince Charmant. Não permitas  que volte para ele. Não me entregues de novo à morte, não. Diz que me queres, meu Poeta do Sol Poente. Diz que me desejas. Diz que só a mim almejas.

-Ophelia, sabes que não tenho morada certa. Sabes-me um boémio, de embarcação em embarcação, de terra em terra, de estalagem em estalagem. Sabes que te anseio, sim. És toda a minha vida e toda a minha morte, ma Fée Verte. És tudo. E dói porque sei que não te abandonas, sei que não te despojas de todo o luxo, de todo o estatuto, de teus filhos, por mim.

-Despojo, sim. Diz-me que é isso que queres. Diz-me: Ophelia despoja-te e entrega-te a mim. Não dizes. Nunca dizes. Isso sim, dói.

-Não deveria dizer, Ophelia. Não deveria pedir. Se é o que sentes, não o deverias rogar. Se o rogas em vez de o fazer é porque não o sentes. Já deveria estar feito. Não te mintas. Não tens coragem de abandonar o império, de lhe entregar os teus filhos, de te enlameares nos corredores da época. Não tens coragem.

-Tens razão. Não tenho coragem de aviltar o que de mais meu sinto: os meus filhos. Meu belo Poeta do Sol Poente, não posso abandonar o sangue do meu sangue; não posso desertar aquele olhar de esperança que em mim pousa. E que mãe lhes iria dizer que os ama? Que mãe os iria afagar na hora de deitar? Que mãe iria ampará-los na queda do sonhar? Que mãe? Oh!, que dor!Não os posso entregar ao pai. Desculpa-me, mon Prince Charmant. Desculpa-nos. Em outra vida, talvez.

 

-Nuno, acorda, querido. Nuno…

-Ophelia…

-Que Ofélia? Joana, pastel. Joana. Ouve lá! Quem é a Ofélia?

-Deixa-me estar, mon amour. Deixa, volta para ele, para os teus filhos. Vai e não voltes.

-Que estás para aí a dizer, Nuno? Filhos? Ainda não nasceu. Está aqui, dentro de mim. Volto para quem? Quem é a Ofélia? Olha, apagou. Desgraçado. Quem é a Ofélia?

 

“Está tudo em alvoroço, meus senhores. Tudo em alvoroço. Foi-lhes mostrada a cenoura e tudo correu atrás da dita. Tudo. Quem viu que não lhe conseguia chegar, decidiu, que nem um jumento, por interposta pessoa, a alcançar. Foi dito que a cenoura valia mais do que o ouro: o próprio. Foi dito que era parco o tempo para deitar mão à referida, à alaranjada – dourada, salvo seja. E tudo aproveitou o tudo que era ofertado - uma pechincha, meu senhor! Uma barganha! Nem na China consegue um negócio assim. Aproveite. Não tem verba? Não importa. Eu arranjo quem lhe empreste a quantia. Eu arranjo, Sr. Mete os Pés pelas Mãos Investidor. É lucro garantido. Dinheiro fácil para ostentar nos corredores cosmopolitas da capital, dinheiro fácil. Com o pouco que tem compra mais dinheiro aos bancos. Compre! Compre! Que o preço do dinheiro está barato: compre! Compra tanso – não vou dizer-te que daqui a uns dias alteram as regras do jogo e tu pagas o triplo e de bico calado. É o engole e cala. Especulação? Não. Que palavra mais feia. Não. Especular? Nunca. Compra as acções. Estão uma pechincha, e no minuto a seguir valer-te-ão o teu império. Já é teu, tanso. Não vês? O império do interior das pipas a caminho do Nilo. É todo teu. E o dito chegou ao quinto dia útil da semana, chegou de surpresa - e de toda a maneira que não estavas à espera - ó ganancioso …o dito chegou aos dias vinte e quatro de Outubro de 1929.Mas não chegou só p’ra ti, egoísta! Pensavas que era só teu? Chegou em grande: não num manto dourado (como se previa) mas num imenso manto negro. Crash! Um estrondoso embate na cega avidez de cada um. E em vez dos milhões, as ruínas, palerma! As falências  em cadeia, a contracção da economia, a paralisia nas actividades e o desemprego. Rua, idiota! Rua! Não fazes cá falta alguma. Sem o teu espólio? Quem te mandou investir na miragem da cenoura? Eu? A tua sede de estatuto. A tua perniciosa ambição .E já lá vão 10. E agora o caos: A Grande Depressão. Só se fala nisso, só se sente isso : A Grande Depressão. A guerra. Já não bastava a fome. Agora o medo de ser eu. Não. Nunca. Eu não sou esse. Não! Esse não é: eu. Provo, sim, que esse não é eu. A mim não me apanham num campo de concentração. Oh!, vizinho! Ajude lá aí. Deixe esconder-me na sua cave, por baixo do cadafalso. Deixe esconder-me e traga-me o pão e o vinho. Seja meu irmão. Tudo culpa da ganância e daquilo a que o ser humano não dá a mínima importância: a vida – neste caso a humana. O direito a existir com dignidade. O direito a ser: como tu tens o direito a ser. Quem tu pensas que és p’ra te achares no direito de decidir da minha vida ou da minha morte? Quem tu pensas que és sangue, pele, carne e osso? Matas-me agora? Oui ,monsieur. Um dia - e é essa a minha alegria -vais saber o que é matar-te a ti. Não te escapas: pele, carne, sangue e osso. Apodrecimento, putrefacção e pó, dizem.”

 

-Não, Bernardo! Não, não, não. Pela tua vida, e se me tens amor, não. Não publiques esse artigo. Não agora, não neste momento. Sabes que te matam. Eles matam-te. Já mataram muitos outros por menos, só por existirem (como dizes). Por favor, amor: rasga isso, queima. Não publiques.

-Ophelia! Pouco me importa o que vão fazer com este corpo, pouco me importa! Estou farto, farto de tudo ver e nada fazer. Estou farto da hipocrisia em redor. Estou farto. Até de ti estou farto. Agora vão ver.

-Esconde, Bernardo. Olha que eles ouvem-te. Estamos no “Galactic”. Eles conhecem-me. Sou a mulher do político. Olha eles a virem para cá. Eu não devia ter vindo. Oh!, não! O meu marido! Foge Bernardo! Foge! Matam-te!  Matam-nos.

                -Nuno, sou eu a Joana. Oh!, amor, estás a preocupar-me. Não dizes coisa com coisa. Acorda, querido, acorda.

                - Mata , mata, mata de uma vez!

                -Nuno! Sou eu, a Joana. Vá : olha p’ra mim. Isso passa. Daqui a pouco, isso passa. Então? Já me vês? Já estás cá? Já voltaste de lá?

                -Joana…que aconteceu? Onde estou? Joana…

                -Estás na nossa casa, querido. A nossa casa nova para receber o nosso bebé, amor. Lembras-te?

                -Ah!, sim…

                -Tiveste um daqueles transes que te dão de quando em vez…aqueles esquisitos, em que não dizes coisa com coisa…falavas em matar, filhos e…uma Ofélia…

                -Ophelia ?

                -Sim. Quem é?

                -Boa pergunta, Joana. Quem é?

                -Oh!, esquece. Estás bem? Vou terminar de preparar o jantar. Vai refrescar-te, vai.

                -Já sei de onde a conheço, velho. Já sei de onde conheço, a Maria.

                -Eu vi. Uma tragédia ,foi o que foi.

                -É forte, velho. É forte. É de outros tempos, tal como supunha. Eu nem posso crer que  morri por amor, por amor a ela, à Maria, à Ophelia. E morrer por uma causa também vem de outros tempos. Compreendo-me melhor, agora. E o que faço com isto?

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