Capítulo 4
- Mas tu estás
louco! Estás a passar-te ou quê? Durante décadas a esquizofrenia tem sido
descrita como uma doença mental grave que se caracteriza pela
despersonalização, e que afecta a capacidade de a pessoa distinguir se as
experiências vividas são ou não reais. A própria palavra, esquizofrenia,
significa divisão da mente.
- Não é
doença. É dom. E eu consegui comprovar isso. Consultei os arquivos do Josef, os
proscritos. Sabes bem qual é a minha linha de investigação, tens acompanhado as
experiências realizadas aos esquizofrénicos que se destacam na sociedade pela
sua singular criatividade. E tudo se encaixou: os meus resultados baseados nas
técnicas de imagem e testes ao QI e à capacidade de previsão, e os resultados
do Josef, os anatómicos. Sabias que ele tinha um grupo que seleccionou após as
experiências? E que esse grupo de esquizofrénicos clarividentes era forçado a
dar as linhas de orientação ao líder, ao Führer?
- Não? Mas
como pode ser dom, se as pessoas ficam disfuncionais? Sabes bem que perdem a
associação entre pensamento, emoção e comportamento. Entram em delírios,
alucinações; mantêm um discurso desorganizado e comportamentos catatónicos. Em
suma, ficam completamente disfuncionais isolando-se sobre si mesmos.
- Ficam, os
que ficam. E depende do que tu entendes por disfuncional. Ora vamos lá ver: ter
a capacidade de aceder a um tempo e a um espaço, a uma realidade extra, é ser
disfuncional? Porque é isso que acontece. Quando um esquizofrénico tem
circunstâncias de vida que lhe permitem desenvolver o intelecto, na base do
estudo e da absorção do máximo de informação, potencia dessa forma a sua
capacidade de ver mais além.
-Mas a grande
maioria não vê mais além. Sabes bem que os sintomas negativos da esquizofrenia reflectem
restrições na amplitude e intensidade da expressão emocional (rosto imóvel,
linguagem corporal reduzida), o dito embotamento do afecto; observa-se
diminuição da fluência e produtividade do pensamento, logo desorganização do
discurso. Fartamo-nos de tratar a alogia com medicação. E até iniciam uma série
de comportamentos fixos dirigidos a um objectivo. Ou também não tratamos a
volição? E a anedonia? Fica sem tratamento? Deixa-se que continuem com perda de
interesse e prazer na fruição do concreto? Quantas vezes ouvimos os familiares
dizer: “ Doutor, tenho a sensação de que ele está a ir embora aos pouquinhos.
Às vezes, parece que estou a falar com duas pessoas distintas. Está deprimido,
tem acessos de raiva, dorme de dia e não dorme à noite, não se alimenta,
descuida-se na higiene. É sempre o mesmo ritual. Tenho até medo que se mate por
causa das vozes que ouve. E se resolve lhes obedecer?”
-Estamos a
falar dos que têm a oportunidade de se tornar cultos, de aprimorar as
capacidades do intelecto. Nesses, embora demonstrem alguns dos tais sintomas
ditos “negativos”, prevalecem os positivos: o excesso ou “distorção” (que, a
meu ver, não é distorção, é apenas uma forma mais abrangente de abordagem da realidade)
do pensamento inferencial, da dedução,
da percepção (são muito intuitivos), da linguagem e comunicação e do
comportamento. São pessoas “sui
generis”, reconhecidas como génios nas suas áreas. É ou não é? Há exemplos na
história mundial. Quase todos os génios, os grandes crânios, são
esquizofrénicos.
-Não deixas de
ter razão, mas vamos ao que interessa. Explica lá melhor a tua posição. Estou a
ficar convencido.
-Na literatura
médica existente diz-se que os delírios são crenças erróneas que envolvem a
interpretação falsa da percepção, ou experiências que resultam de temas
persecutórios, referenciais, somáticos, religiosos, grandiosos. Interessam-me,
particularmente, porque os observei nas nossas cobaias, os delírios de
referência e os delírios de controle. Todos os testados dizem que crêem
vivamente que o seu corpo e acções estão a ser manipulados por uma força
exterior, e que observam a interferência dessa força em coincidências
contínuas, em certos gestos familiares, comentários, passagens de livros.
Mantêm vigorosamente esta ideia. E, pelo período de vida (seis meses) em que
foram cuidadosamente observados por nós, está comprovada e documentada essa
interferência. Tudo o que eles intuíram ou previram aconteceu de facto. Não é
doença. É dom. A esquizofrenia torna-se num dom quando o intelecto é
estimulado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes. Conseguindo
até, esse mesmo intelecto, agir em concreto na realidade, tornar vivos os seus
pensamentos, transformá-los em acções realizadas pelos próprios, pelos outros,
pelo ambiente que racionalizam.
- Eh, pá! Mas
isso é fenomenal! Como estás a pensar divulgar as tuas conclusões?
-Publicando em
revistas na área da saúde como a “Nature” e realizando consórcios e colóquios
internacionais. Pretendo divulgar e demonstrar, ao vivo, esta potencialidade do
esquizofrénico culto ser clarividente e conseguir actuar no concreto, no
palpável, com o pensamento.
- Já estou a
ver o filme todo. Esses Centros de Neurociências e de Genética Molecular pela
Europa e pelo mundo fora a trabalhar em força para tentar tirar vantagem dessa
potencialidade da esquizofrenia.
- Podem
trabalhar o que quiserem. O nosso Centro já tem a patente. Já a registei. A
ideia agora é convencer o mundo a tornar-se esquizofrénico e a recorrer à nossa
informação para lá chegar. Mas ainda tenho de realizar mais alguns testes para
conseguir explicar melhor a relação entre as anormalidades estruturais no
córtex frontal médio e a clarividência dos esquizofrénicos geniais.
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