quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 4


Capítulo 4

 

- Mas tu estás louco! Estás a passar-te ou quê? Durante décadas a esquizofrenia tem sido descrita como uma doença mental grave que se caracteriza pela despersonalização, e que afecta a capacidade de a pessoa distinguir se as experiências vividas são ou não reais. A própria palavra, esquizofrenia, significa divisão da mente.

- Não é doença. É dom. E eu consegui comprovar isso. Consultei os arquivos do Josef, os proscritos. Sabes bem qual é a minha linha de investigação, tens acompanhado as experiências realizadas aos esquizofrénicos que se destacam na sociedade pela sua singular criatividade. E tudo se encaixou: os meus resultados baseados nas técnicas de imagem e testes ao QI e à capacidade de previsão, e os resultados do Josef, os anatómicos. Sabias que ele tinha um grupo que seleccionou após as experiências? E que esse grupo de esquizofrénicos clarividentes era forçado a dar as linhas de orientação ao líder, ao Führer?

- Não? Mas como pode ser dom, se as pessoas ficam disfuncionais? Sabes bem que perdem a associação entre pensamento, emoção e comportamento. Entram em delírios, alucinações; mantêm um discurso desorganizado e comportamentos catatónicos. Em suma, ficam completamente disfuncionais isolando-se sobre si mesmos.

- Ficam, os que ficam. E depende do que tu entendes por disfuncional. Ora vamos lá ver: ter a capacidade de aceder a um tempo e a um espaço, a uma realidade extra, é ser disfuncional? Porque é isso que acontece. Quando um esquizofrénico tem circunstâncias de vida que lhe permitem desenvolver o intelecto, na base do estudo e da absorção do máximo de informação, potencia dessa forma a sua capacidade de ver mais além.

-Mas a grande maioria não vê mais além. Sabes bem que os sintomas negativos da esquizofrenia reflectem restrições na amplitude e intensidade da expressão emocional (rosto imóvel, linguagem corporal reduzida), o dito embotamento do afecto; observa-se diminuição da fluência e produtividade do pensamento, logo desorganização do discurso. Fartamo-nos de tratar a alogia com medicação. E até iniciam uma série de comportamentos fixos dirigidos a um objectivo. Ou também não tratamos a volição? E a anedonia? Fica sem tratamento? Deixa-se que continuem com perda de interesse e prazer na fruição do concreto? Quantas vezes ouvimos os familiares dizer: “ Doutor, tenho a sensação de que ele está a ir embora aos pouquinhos. Às vezes, parece que estou a falar com duas pessoas distintas. Está deprimido, tem acessos de raiva, dorme de dia e não dorme à noite, não se alimenta, descuida-se na higiene. É sempre o mesmo ritual. Tenho até medo que se mate por causa das vozes que ouve. E se resolve lhes obedecer?”

-Estamos a falar dos que têm a oportunidade de se tornar cultos, de aprimorar as capacidades do intelecto. Nesses, embora demonstrem alguns dos tais sintomas ditos “negativos”, prevalecem os positivos: o excesso ou “distorção” (que, a meu ver, não é distorção, é apenas uma forma mais abrangente de abordagem da realidade) do pensamento inferencial, da dedução,  da percepção (são muito intuitivos), da linguagem e comunicação e do comportamento. São pessoas  “sui generis”, reconhecidas como génios nas suas áreas. É ou não é? Há exemplos na história mundial. Quase todos os génios, os grandes crânios, são esquizofrénicos.

-Não deixas de ter razão, mas vamos ao que interessa. Explica lá melhor a tua posição. Estou a ficar convencido.

-Na literatura médica existente diz-se que os delírios são crenças erróneas que envolvem a interpretação falsa da percepção, ou experiências que resultam de temas persecutórios, referenciais, somáticos, religiosos, grandiosos. Interessam-me, particularmente, porque os observei nas nossas cobaias, os delírios de referência e os delírios de controle. Todos os testados dizem que crêem vivamente que o seu corpo e acções estão a ser manipulados por uma força exterior, e que observam a interferência dessa força em coincidências contínuas, em certos gestos familiares, comentários, passagens de livros. Mantêm vigorosamente esta ideia. E, pelo período de vida (seis meses) em que foram cuidadosamente observados por nós, está comprovada e documentada essa interferência. Tudo o que eles intuíram ou previram aconteceu de facto. Não é doença. É dom. A esquizofrenia torna-se num dom quando o intelecto é estimulado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes. Conseguindo até, esse mesmo intelecto, agir em concreto na realidade, tornar vivos os seus pensamentos, transformá-los em acções realizadas pelos próprios, pelos outros, pelo ambiente que racionalizam.

- Eh, pá! Mas isso é fenomenal! Como estás a pensar divulgar as tuas conclusões?

-Publicando em revistas na área da saúde como a “Nature” e realizando consórcios e colóquios internacionais. Pretendo divulgar e demonstrar, ao vivo, esta potencialidade do esquizofrénico culto ser clarividente e conseguir actuar no concreto, no palpável, com o pensamento.

- Já estou a ver o filme todo. Esses Centros de Neurociências e de Genética Molecular pela Europa e pelo mundo fora a trabalhar em força para tentar tirar vantagem dessa potencialidade da esquizofrenia.

- Podem trabalhar o que quiserem. O nosso Centro já tem a patente. Já a registei. A ideia agora é convencer o mundo a tornar-se esquizofrénico e a recorrer à nossa informação para lá chegar. Mas ainda tenho de realizar mais alguns testes para conseguir explicar melhor a relação entre as anormalidades estruturais no córtex frontal médio e a clarividência dos esquizofrénicos geniais.

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