-Ela está
estranha. Não sei. Está diferente. Estou a ficar assustado - confidenciou
Francisco ao telemóvel.
- Maria, logo
não faças jantar para mim. Vou jogar à bola.
- Outra vez?
Não é surpresa. Já não ia fazer e não. Agora chamam-lhe jogar à bola… amanha-te
quando chegares.
- Sempre com
as piadinhas. Porque é que estás a falar-me assim? Fiz-te algum mal? É certo
que já nem me fazes o jantar, e não é de agora.
-Assim, como?
Estou a falar normalmente. E não. Tu nunca me fazes mal. Cansei das vezes que
nos preparei o jantar e acabei por comer sozinha. Deitar comida fora não é o
meu estilo. E tu? Quantas vezes me preparaste o jantar? Nem olhas para os
dedos, não é? Se houvesse o dedo zero, talvez olhasses para o contar. Demais a
mais, já vens jantado. E não te ponhas a fazer essa cara. Estou farta desses
trejeitos de enjoado. O que tu és causa-me, naturalmente, vómitos. E, acredita,
que não faço por isso. Já estás a virar-me as costas? Pois, é sempre a mesma
merda. Todos estes anos resumidos num virar de costas. Casei com uma parede,
que novidade! E o que é que se faz quando há uma parede a mais no local ao qual
chamamos de casa?
- Ouve lá! O
que é que tu tens? Que mal é que eu te fiz? Trata-te!
- Tchau! Boa
viagem. Parte uma perna. De preferência, a do meio.
-Já viste o
que estás a dizer? Tens de ter tento nessa língua. Olha que Deus castiga-te.
- Deus que vá
para o raio que o parta!
Francisco
ficou aterrado. Maria, tão crente. Maria, que obriga os filhos a ir à catequese
e à missa, dizer uma barbaridade
daquelas? Não é ela. Há algo a passar-se. Tem de ter mais cuidado. E o que é
que ela quis dizer com aquela pergunta: “- O que é que se faz quando há uma
parede a mais no local ao qual chamamos de casa?”
Sem comentários:
Enviar um comentário