quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 3 ( continua...)


-Ela está estranha. Não sei. Está diferente. Estou a ficar assustado - confidenciou Francisco ao telemóvel.

- Maria, logo não faças jantar para mim. Vou jogar à bola.

- Outra vez? Não é surpresa. Já não ia fazer e não. Agora chamam-lhe jogar à bola… amanha-te quando chegares.

- Sempre com as piadinhas. Porque é que estás a falar-me assim? Fiz-te algum mal? É certo que já nem me fazes o jantar, e não é de agora.

-Assim, como? Estou a falar normalmente. E não. Tu nunca me fazes mal. Cansei das vezes que nos preparei o jantar e acabei por comer sozinha. Deitar comida fora não é o meu estilo. E tu? Quantas vezes me preparaste o jantar? Nem olhas para os dedos, não é? Se houvesse o dedo zero, talvez olhasses para o contar. Demais a mais, já vens jantado. E não te ponhas a fazer essa cara. Estou farta desses trejeitos de enjoado. O que tu és causa-me, naturalmente, vómitos. E, acredita, que não faço por isso. Já estás a virar-me as costas? Pois, é sempre a mesma merda. Todos estes anos resumidos num virar de costas. Casei com uma parede, que novidade! E o que é que se faz quando há uma parede a mais no local ao qual chamamos de casa?

- Ouve lá! O que é que tu tens? Que mal é que eu te fiz? Trata-te!

- Tchau! Boa viagem. Parte uma perna. De preferência, a do meio.

-Já viste o que estás a dizer? Tens de ter tento nessa língua. Olha que Deus castiga-te.

- Deus que vá para o raio que o parta!

Francisco ficou aterrado. Maria, tão crente. Maria, que obriga os filhos a ir à catequese e à missa,  dizer uma barbaridade daquelas? Não é ela. Há algo a passar-se. Tem de ter mais cuidado. E o que é que ela quis dizer com aquela pergunta: “- O que é que se faz quando há uma parede a mais no local ao qual chamamos de casa?”

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário