quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Capítulo 17


Capítulo 17

 

                Tudo era algodão, branco e almofadado. Tudo era algodão. Lindo. Só faltava avistar um anjo ou até mesmo Deus. Quem sabe? Um buraco? O que é aquilo? O oceano em tons de azul e esmeralda, uma paisagem crispada e encrostada de negro em redor, xisto. Camadas de rochas frias e duras, outrora lava quente e mole. O tempo. O trabalhar do tempo. A marca do tempo no buraco. Rectângulos em puzzle de múltiplas cores, cores vivas: telha, girassol, verde. Tantos rectângulos coloridos. Imensos rectângulos à descida no planar do país do amor. Os cadeados na ponte. As chaves no rio. As flores. Os nus em redor. Magnificentes estátuas vivas - de gentes de outros tempos, mortas. Gigantescas e pomposas esculturas despidas de mundo, vestidas de dor. A cidade do amor.

-Acho que estou a exagerar na dose. Sinto-me tão zonza; com os olhos tão pesados. E esta viagem de camioneta não me está a fazer nada bem. Que enjoo! Ainda vou ter um colapso. Já há quatro horas na estrada, cruzes! Esta  falta de ar que nunca mais passa. Que aflição. Raios partam o tórax  que não obedece. E o diafragma que não sobe e o ar que não entra. Há três semanas a tomar aquela porcaria e não há maneira de melhorar. Dois alprazolam e meio por dia. Quase a dormir. E o ar que não entra. Que desespero.

                -Sabes que a medicação ajuda, Maria. Mas o verdadeiro problema está na tua cabeça. Entro, não entro, no avião? Entraste. Entro, não entro, no metro? Entraste. Afinal, não é nada de especial. Tantos anos a evitá-los. Tanto filme. Não vou conseguir respirar, não vou poder abrir uma janela; vou sentir-me apertada, fechada. Lá em cima não posso abrir uma janela! Debaixo do chão é escuro, apertado. E a falta de ar. Afinal, nem lá em cima, nem lá em baixo, é apertado. Afinal, há muita claridade. Afinal, sentes o ar fresco a correr e respiras. A tua cabeça é que é apertada e fechada e escura. É  aí que tens de abrir a janela: as janelas. E as portas. E tudo mais que houver para abrir. É já Abril. Abril: abrir. Percebes? Começa. Já começaste? Agora continua.

                -Comecei, pois,  com a muleta. Sempre com a muleta: as pastilhas. Sou uma triste, é o que é. Espera. Tenho de respirar. Não consigo. Devagarinho, Maria, vá. Devagarinho. Como aquela aluna te explicou. Aquela que sofre de ansiedade crónica. “Inspire e expire devagarinho, Setora. E, se tiver um saco de papel, melhor.” Inspira, vá. Agora expira para o saco. Torna a inspirar. Sentes-te melhor? Nem por isso. O músculo do peito não obedece. Não sobe, nem desce. Porra! Vou levantar-me. Vou dobrar-me sobre mim mesma e deixar as mãos a balançar, quase a tocar no chão. Agora inspira. Pronto. Conseguiste! O ar entrou bem fundo e chegou a todos os poros que tinha de chegar. Sentiste-o? Sim. Que alívio. Tenho ar para mais cinco minutos.

                -Essa posição resulta sempre, Maria. Não é? Bem. Nem sempre. Mas quase sempre. Ao fim de alguns minutos largos de sufoco, resulta. Como? A distribuir balões e a mandar enchê-los a caminho do Parlamento Europeu? Estou lixada. Se nem ar tenho para mim, vou ter para os balões! Não me parece boa ideia, mas eles é que são os organizadores; eles lá sabem. Se um rebenta vai pôr aquela segurança toda em sentido. Um ataque terrorista! Help! Enfim. Sinceramente. Há gente que não pensa.

                - Lá estás tu com os teus medos. É por isso que não consegues respirar, não é? Parlamento Europeu e tal…ataques terroristas. O teu pavor perante situações de risco, situações que não podes controlar, perante a morte. As tuas fobias todas explicam-se à luz deste sentimento comum: algo deixar de estar nas tuas mãos; não seres tu a controlar a situação. Ora pensa lá bem: multidões, fogo de artifício, elevadores, aviões, metropolitanos, alturas,  cancro, velocidade, amores não correspondidos, cidades amplamente divulgadas e centros nevrálgicos do mundo. Em Bruxelas há 90% de hipóteses de ocorrer um atentado, é o coração da Europa. Se bem que de sentimentos relativos ao coração nada tenha. Minto. Tem os chocolates. E nem os vi.

                -Sim, sim. Já conheço de cor essa ladainha. Não tens mais nada p’ra me dizer? Algo novo? Uma verdadeira novidade. É disso que eu preciso. De coisas velhas, caquécticas, usadas, remexidas, conspurcadas, definhadas, já estou eu farta. Algo novo. Vá! Tenho de me dobrar outra vez. Inspira. Expira. Que alívio! Veio-me à memória a operação às amígdalas; tinha os meus seis anos. Para me dar a anestesia a enfermeira sentou-me no colo dela, prendeu as minhas mãos nas dela, entrelaçou os meus pés nos dela e, de repente, um funil na minha boca. Que aflição! Foi a primeira vez que me lembro de me ter faltado o ar: uma coisa fresca a entrar pela garganta abaixo (mesmo fresca); um ar que não servia aos pulmões, um desespero, um estrebuchar e…tudo escuro, o vazio, o nada. A primeira vez que me senti violentada. A primeira vez que morri.

                - Oh!, esquece isso. Manda lá para o fundo do baú . Queres algo novo? Deixa lá pensar. Já há quatro dias que vives algo completamente novo. Novidade atrás de novidade e nem por isso pareces satisfeita. Viagem de avião, conhecer gente de oito países, falar quatro línguas (todas misturadas que nem uma caldeirada porque do outro lado não as sabem e não as querem falar), viagem de metro. Conheceres a imponência de um império que os livros de história não conseguem, nas suas imagens, fidelizar; olhar, com esses teus olhos gigantes, para as paisagens miraculosamente agrícolas de dois países diferentes do teu. E nem assim ficas satisfeita. O problema és tu. Já sabias. Mas agora ficaste com a completa certeza. Vais ter de criar uma verdadeira revolução dentro de ti. Não há lugar no mundo que te resolva de ti. De que te adianta teres todos os outros, e tudo em teu redor, se não te tens a ti?

                - Isso dos outros não saberem falar línguas estrangeiras, ou não quererem, é verdade. É uma autêntica desilusão. E uma dor de cabeça tentar falar com erros para que me percebam. Fazer todo o percurso para trás, à caranguejo. Regressar ao início, ao nada saber: precisamente por sentir que o outro lado não se esforça por cá chegar, ao fim. Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé. E nem só isso. Os miúdos apresentaram o trabalho melhor concebido e melhor alicerçado em termos de multimédia. Foram excelentes na apresentação numa língua que não a sua. É preciso recordar que eles se intitulavam os “inaptos”: um gago, uma surda, uma afónica e dois imigrantes. Eu acrescento: e uma multifóbica.  E os “inaptos” foram eleitos os melhores no seu país. E não vamos esquecer que, não fora a equipa que nos acompanha, a do nosso país, nenhum trabalho seria devidamente apresentado. Fomos nós que preparámos toda a parte de multimédia. Os outros não sabiam: fichas, fios, cabos, computadores, software, projectores, todo um mundo a desligar. Nem a organização estava minimamente preocupada. Mais uma vez pediram-nos para abdicar da parte multimédia, para passar uma esponja em todo o mérito e fazer apenas uma apresentação oral, sem suporte técnico. Mais uma vez o caranguejo. Afinal, o que é que se passa? Sempre pensei que a minha terra e as gentes da minha terra fossem menos sabedoras e conhecedoras do que os outros das outras terras. O que dizem nas notícias é que lá fora é que estão os génios. Lá fora é que sabem tudo. Nós somos uns ignorantes. Mas agora eu estou lá fora. E apercebo-me que lá fora pouco sabem. Nem sequer se dão ao trabalho de saber. Não precisam. Têm os criados de lá dentro. Têm os desenrascados e os perfeccionistas de lá dentro. Têm os trabalhadores, os escravos, de lá dentro.

                -Sabes, Maria, os de lá dentro são sábios, são prestáveis, são grandes. Mas falta-lhes uma coisa importante. Essa, que só os de lá fora têm: o estatuto. E quem tem o estatuto não precisa de se esforçar, nem sequer de trabalhar. Tem o estatuto, tem quem trabalhe p’ra eles, tem o rendimento garantido, tem o poder nas mãos. Tem a pequenez de espírito, a preguiça incutida, o mete-nojo na alma, mas o trabalho feito e o rendimento garantido. E o de lá fora ganha sempre, ganha sempre. Mesmo que o trabalho do de lá dentro seja o top da excelência, o de lá fora ganha sempre. De uma maneira ou de outra, ganha. Seja porque tem o estatuto e a competição já está ganha mesmo antes de haver competição. Se pensarmos bem nem podemos chamar de competição. É um tapar da peneira. É um bode expiatório para recordar aos de lá dentro que os de lá fora são sempre os vencedores, sempre. Nem que seja (e principalmente porque é) à custa do trabalho, da inteligência, da genialidade, do mérito, da submissão dos de lá dentro. E tenho dito.

                -Estás inspirada, Maria. Já tiraste o relógio e o cinto? Olha que a segurança aqui é apertada. Não tinhas reparado? Afinal, já passámos pela máquina. O que estás tão atenta a ouvir?

                -Tchiu! Só um segundo! Inacreditável! Não posso crer no que estou a ouvir. E os nossos representantes? Não dizem nada? Se calhar não compreendem a língua.

- Estás a ser inocente. É claro que compreendem. Não querem é dizer. Pelo que vejo, nem tiraste o relógio nem o cinto. Diz tu.

-Não precisei. A máquina ainda não tem poder para captar o material deste tipo de relógio e de cinto. Vou dizer.

-Olha. Aquele olhar de lado da Drª. Abanou ligeiramente a cabeça quando te viu levantar. Senta-te. É p’ra não intervires. Parece que a máquina captou. Ela lá sabe. Tem mais experiência nisto da política. É melhor acalmares-te. Senta-te.

- Sentei. Está a ser difícil de engolir. Tu estás a ouvir o que estão a dizer sobre o nosso povo? Tu estás a ouvir bem , como eu estou a ouvir? Não sei se vou conseguir segurar-me. Fervo toda cá dentro. É uma injustiça o que dizem: tudo falso. Uma realidade completamente diferente da que vivemos. Estão a humilhar-nos o mais que podem, sem dó nem piedade e na base de falsidades. É Deus. Podia estar tudo sossegado. Não. Tinham de nos enxovalhar. Logo hoje que estou aqui, logo agora que entrei. Nem era suposto eu estar aqui. Mas estou. É Deus. Deus está a forçar-me a tomar uma atitude. Já percebi porque tinha de entrar num avião. Já percebi porque tinha de vir onde vêm os terroristas. Já percebi. Está na hora do meu tipo de terrorismo, do tipo de terrorismo de Deus: o da verdade, da justiça e do amor. É o relógio. Está na hora. E é o cinto: estou farta de o apertar. Está na hora de o tirar. Vou falar. Levantei-me.

-Excuse me! May I speak? Desculpe, posso falar. (Engasgou-se. Do outro lado, não estava à espera, mas deu-me a palavra). Do you understand English? O deputado respondeu que sim e que não havia problema porque tinha o tradutor, o assistente. Então comecei. E foi assim, perante a assistência de oito países e mais alguns:

“Chamo-me Maria. Já há cerca de meia-hora que ouço, daquele lado dali, uma série de intervenções relativas ao meu país e à sua gente totalmente desfasadas da realidade e, por isso,  falsas. Chamo-me Maria, vivo nesse país,  do qual tanto falam, há 36  anos. Se me ouvirem, ficam a saber o que é viver nesse país, e ser alma e sangue desse país no contexto da União Europeia. E vou falar com o meu coração porque sinto-me triste, ofendida e magoada com o que ouvi. Vou falar com o meu coração. Não se sintam ofendidos. Ouçam apenas alguém que fala com o coração. O povo do meu país é trabalhador. É um povo que se sente enganado e sacrificado pelos seus governantes, pelas políticas da União Europeia, pelo rumo capitalista que a época e o mundo insistem em seguir. Mais uma vez, não se ofendam. Mas são vocês, as pessoas importantes, os políticos, que podem mudar a direcção da corrente. E p’ra mim, para os 99% da população mundial que não têm o poder decisório, a crise é fácil de resolver. A solução está na palavra: partilha. Quando uma minoria deixar de ser gananciosa e deixar de zelar apenas pelos seus próprios interesses, quando essa minoria, que detém o poder, decidir que é hora de pensar efectivamente no que aquela estátua demonstra lá fora, na união, na partilha, no espírito de comunhão e interajuda, tudo se resolve bem para todos. É falso dizerem que não queremos trabalhar. Nós somos um povo sacrificado em trabalho. Não fazemos outra coisa senão trabalhar; mesmo quando as políticas europeias de cotas nos limitam nesse trabalho. Se servimos para entrar na União Europeia, se servimos para ter uma moeda única, porque é que não servimos para usufruir de salários mínimos comuns, níveis de vida comuns? A impressão que dá, é que entramos para nos anularem dos mercados, para acabarem com a concorrência, e nos explorarem os recursos. Para nos colocarem uma pedra em cima e nos sugarem.  A agricultura é praticamente inexistente, actualmente, no nosso país. Eu fiquei perplexa com os enormes campos coloridos que vi pelo caminho. No meu país já não há destas paisagens. É tudo árido. É tudo seco. Foram criados subsídios para desincentivar os agricultores de cultivar, de produzir leite. Foi dada uma esmola aos pobres que se agarraram a ela como se lhes tivesse saído o euromilhões; e em troca foi-lhes decretado que não cultivassem. É a política do não. Há alguma lógica nisto? Termos os recursos, as terras, a mão-de-obra, a sabedoria; pagarem-nos para não rentabilizarmos o que somos é uma violência. Apesar de sermos um país rodeado de mar a toda a volta, estamos limitados na nossa pesca. O país vizinho pesca mais nas nossas águas do que nós. A indústria têxtil morreu na minha cidade. Uma indústria outrora em ampla expansão: agora monumentos, de um cinzento sujo, desertos de gente e vida. Era evidente que, ao fim de alguns anos, não teríamos competitividade para acompanhar os restantes países. Essa ajuda financeira que virá daqui, deste centro político, é uma ajuda que não sinto como tal. É uma dívida a ser-nos paga, uma dívida de longa data por nos terem impedido de crescer, de evoluir. Por causa da nossa inactividade, muitos países da união lucraram nas suas produções. É fácil chegar aqui e dizer que determinado povo não trabalha e não sabe gerir o dinheiro. É fácil dizer que determinado povo não merece ser ajudado. Mas pensem bem nas circunstâncias que divergem amplamente entre países que pertencem a uma mesma união. Pensem bem nas políticas que partem daqui e que são aplicadas, quase que a dedo cirúrgico, em cada nação. Pensem bem nas desigualdades criadas, nos grandes fossos em todas as áreas. Pensem bem se, de facto, temos união só p’ra alguns. Para os outros, há servidão. As nossas famílias, na actualidade, ou trabalham de sol a sol (dois e três empregos diários) para conseguir cumprir os seus compromissos bancários, manter a sua casa e ter comida na mesa, ou emigram para o efeito. Ou nem sequer conseguem emprego. Há famílias inteiras divididas, em que, apesar de viverem na mesma casa, pais não têm tempo nem humor para conversar com os seus filhos. Outras estão com os seus elementos espalhados pelo mundo para sobreviver. São famílias criadas à distância. Temos toda uma geração ao abandono. E muitas famílias estão a passar fome. É esta a nossa participação na união. De quem é a culpa, se o povo trabalha e quer trabalhar, mas cortam-lhe as pernas? De quem é a culpa, se o povo trabalha e mata-se a trabalhar, mas não recebe o salário justo pelo seu trabalho? É do poder decisório, é daqui. Não se ofendam. Mas não sejamos hipócritas. A culpa está na distorção de valores. Nas más práticas. Na má fé. No egoísmo. No cada um por si. Nessa selvajaria que é a política bancária. No roubo consentido. Nos juros macabros. Na política suja. Na ganância desmedida de alguns. Se o povo tem dívidas, não é culpa do povo; é culpa do polvo que nunca está satisfeito com o montante do roubo. O problema não está nos humildes trabalhadores, como querem amplamente fazer crer. Não no seu sacrifício diário. Não na sua fome e nas suas dores de costas. Estamos a sofrer uma espécie de ocupação territorial; só que, hoje em dia, as armas não são as espadas nem os canhões, nem sequer são óbvias. São armas dissimuladas. Ultimamente até são claramente declaradas. É a psicologia do vai com todos, do formigueiro. E, porque um aceita ser ofensivamente roubado no dízimo que tem de pagar ao banco, os outros têm de alinhar. Pelo empréstimo concedido para um bem, pagar de juros cinco vezes mais do que se paga por esse bem é um escândalo. Multiplicar essa factura por biliões torna-se uma catástrofe à escala global. E os biliões aceitarem, passarem fome, escravizarem-se no trabalho, destruírem a sua saúde, sentirem-se culpados e ainda fazerem  vénia à meia-dúzia que comete essa atrocidade, é uma imbecilidade. Somos pobres, somos humildes, somos até ignorantes, mas alguns de nós esforçaram-se no estudo, no empenho, no aperfeiçoamento (os poucos, a quem foi dada a oportunidade); alguns de nós conseguem pensar e ver, mediante os conhecimentos que têm. E esses, de todos os ofendidos, têm a obrigação maior de falar. Mesmo que se saibam pequenos e impotentes, como é o caso. Falei.”

-E o que disse o deputado?

-Ficou a olhar para mim uns segundos largos, surpreso. Senti um olhar de admiração. De “não posso crer que pessoas assim ainda existam”; de “não se vê políticos a falar assim”. Até o tradutor ficou abismado e sem pio. Na verdade, acho que toda a assistência ficou repentinamente silenciosa: nem um tossir, nem um remexer de bolsa ou de telemóvel. Até eu fiquei muda perante mim própria. No final, tirámos fotografias. O tradutor deu-me os parabéns em nome do deputado e disse-me:“if one has the occasion one must take advantage of it, your word was heard” (se alguém tem a oportunidade, esse alguém deve aproveitá-la; a sua palavra foi ouvida). E alguns dos responsáveis de outros países vieram dar-me um enorme abraço bem apertado. Não me conheciam de lado algum a não ser daquele contexto e deram-me alguns dos abraços da minha vida. Disseram-me ao ouvido: “nós sentimos exactamente o mesmo; no nosso país tudo se passa assim como disse; parabéns pela coragem”.

-No entanto, o deputado colocou-te uma questão no final. Mesmo antes da fotografia. Lembras-te?

-Lembro. Mas percebi que não gostou da resposta. Desviou o assunto e terminou a sessão.

-Era sobre a movimentação político/social  em torno da esquizofrenia. Perguntou-te o que pensavas a respeito.

-E eu respondi: “Sou esquizofrénica e não o aconselho a ninguém. Cada um nasce como nasce, deve aceitar-se como tal. Não sou a favor de tratamentos antinaturais: ingestão de drogas, indução de desgostos e implante de genes”.

-E respondeste bem. Foste tu própria. E o deputado comentou: “Agora percebo porque consideram a esquizofrenia um dom.”

- Agora percebi porque a Susana insistiu tanto para que entrasse no avião e acompanhasse os nossos 60 alunos ao exterior. Apesar de eu ter dito que não, a seguir veio o pedido para que me responsabilizasse pelo projecto do Parlamento. Eu recusei esse trabalho. Já tinha a minha vida assoberbada de projectos e trabalho. Voltaram a pedir: não havia ninguém para orientar os alunos. Não iriam poder participar. Acabei por aceder. Disse: se forem eleitos os melhores, não entro no avião. É preciso alguém que vá, na minha vez, representar-nos no estrangeiro. Na minha ideia nunca venceríamos. Eu não tinha experiência alguma e as outras escolas tinham mais traquejo. Mas, na hora H, os meus miúdos, os “inaptos”, foram mesmo eleitos os melhores. E eu pensei: estou lixada, agora tenho de entrar no avião. Eu, a inapta - mor.

-Pois é. Já te conheces bem. Já sabes que não  abandonas o barco a meio. E por amor fazes tudo. Por amor aos alunos, para que não desmotivassem, lá te meteste na falta de ar, nas pastilhas, e entraste no avião. Também por amor aos teus filhos: querias que te vissem como uma mãe corajosa e exemplar. Não quiseste que herdassem os teus medos. E foste. E vieste. E agora compreendeste. Por amor aos teus,  ao teu país, vieste. Foi Deus.

Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."

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