Capítulo 17
Tudo
era algodão, branco e almofadado. Tudo era algodão. Lindo. Só faltava avistar
um anjo ou até mesmo Deus. Quem sabe? Um buraco? O que é aquilo? O oceano em
tons de azul e esmeralda, uma paisagem crispada e encrostada de negro em redor,
xisto. Camadas de rochas frias e duras, outrora lava quente e mole. O tempo. O
trabalhar do tempo. A marca do tempo no buraco. Rectângulos em puzzle de
múltiplas cores, cores vivas: telha, girassol, verde. Tantos rectângulos
coloridos. Imensos rectângulos à descida no planar do país do amor. Os cadeados
na ponte. As chaves no rio. As flores. Os nus em redor. Magnificentes estátuas
vivas - de gentes de outros tempos, mortas. Gigantescas e pomposas esculturas
despidas de mundo, vestidas de dor. A cidade do amor.
-Acho que
estou a exagerar na dose. Sinto-me tão zonza; com os olhos tão pesados. E esta
viagem de camioneta não me está a fazer nada bem. Que enjoo! Ainda vou ter um
colapso. Já há quatro horas na estrada, cruzes! Esta falta de ar que nunca mais passa. Que aflição.
Raios partam o tórax que não obedece. E
o diafragma que não sobe e o ar que não entra. Há três semanas a tomar aquela
porcaria e não há maneira de melhorar. Dois alprazolam e meio por dia. Quase a
dormir. E o ar que não entra. Que desespero.
-Sabes
que a medicação ajuda, Maria. Mas o verdadeiro problema está na tua cabeça.
Entro, não entro, no avião? Entraste. Entro, não entro, no metro? Entraste.
Afinal, não é nada de especial. Tantos anos a evitá-los. Tanto filme. Não vou
conseguir respirar, não vou poder abrir uma janela; vou sentir-me apertada,
fechada. Lá em cima não posso abrir uma janela! Debaixo do chão é escuro,
apertado. E a falta de ar. Afinal, nem lá em cima, nem lá em baixo, é apertado.
Afinal, há muita claridade. Afinal, sentes o ar fresco a correr e respiras. A
tua cabeça é que é apertada e fechada e escura. É aí que tens de abrir a janela: as janelas. E
as portas. E tudo mais que houver para abrir. É já Abril. Abril: abrir.
Percebes? Começa. Já começaste? Agora continua.
-Comecei,
pois, com a muleta. Sempre com a muleta:
as pastilhas. Sou uma triste, é o que é. Espera. Tenho de respirar. Não
consigo. Devagarinho, Maria, vá. Devagarinho. Como aquela aluna te explicou.
Aquela que sofre de ansiedade crónica. “Inspire e expire devagarinho, Setora.
E, se tiver um saco de papel, melhor.” Inspira, vá. Agora expira para o saco.
Torna a inspirar. Sentes-te melhor? Nem por isso. O músculo do peito não
obedece. Não sobe, nem desce. Porra! Vou levantar-me. Vou dobrar-me sobre mim
mesma e deixar as mãos a balançar, quase a tocar no chão. Agora inspira.
Pronto. Conseguiste! O ar entrou bem fundo e chegou a todos os poros que tinha
de chegar. Sentiste-o? Sim. Que alívio. Tenho ar para mais cinco minutos.
-Essa
posição resulta sempre, Maria. Não é? Bem. Nem sempre. Mas quase sempre. Ao fim
de alguns minutos largos de sufoco, resulta. Como? A distribuir balões e a
mandar enchê-los a caminho do Parlamento Europeu? Estou lixada. Se nem ar tenho
para mim, vou ter para os balões! Não me parece boa ideia, mas eles é que são
os organizadores; eles lá sabem. Se um rebenta vai pôr aquela segurança toda em
sentido. Um ataque terrorista! Help! Enfim. Sinceramente. Há gente que não
pensa.
-
Lá estás tu com os teus medos. É por isso que não consegues respirar, não é?
Parlamento Europeu e tal…ataques terroristas. O teu pavor perante situações de
risco, situações que não podes controlar, perante a morte. As tuas fobias todas
explicam-se à luz deste sentimento comum: algo deixar de estar nas tuas mãos;
não seres tu a controlar a situação. Ora pensa lá bem: multidões, fogo de
artifício, elevadores, aviões, metropolitanos, alturas, cancro, velocidade, amores não
correspondidos, cidades amplamente divulgadas e centros nevrálgicos do mundo.
Em Bruxelas há 90% de hipóteses de ocorrer um atentado, é o coração da Europa. Se
bem que de sentimentos relativos ao coração nada tenha. Minto. Tem os
chocolates. E nem os vi.
-Sim,
sim. Já conheço de cor essa ladainha. Não tens mais nada p’ra me dizer? Algo
novo? Uma verdadeira novidade. É disso que eu preciso. De coisas velhas, caquécticas,
usadas, remexidas, conspurcadas, definhadas, já estou eu farta. Algo novo. Vá!
Tenho de me dobrar outra vez. Inspira. Expira. Que alívio! Veio-me à memória a
operação às amígdalas; tinha os meus seis anos. Para me dar a anestesia a
enfermeira sentou-me no colo dela, prendeu as minhas mãos nas dela, entrelaçou
os meus pés nos dela e, de repente, um funil na minha boca. Que aflição! Foi a
primeira vez que me lembro de me ter faltado o ar: uma coisa fresca a entrar
pela garganta abaixo (mesmo fresca); um ar que não servia aos pulmões, um
desespero, um estrebuchar e…tudo escuro, o vazio, o nada. A primeira vez que me
senti violentada. A primeira vez que morri.
-
Oh!, esquece isso. Manda lá para o fundo do baú . Queres algo novo? Deixa lá
pensar. Já há quatro dias que vives algo completamente novo. Novidade atrás de
novidade e nem por isso pareces satisfeita. Viagem de avião, conhecer gente de
oito países, falar quatro línguas (todas misturadas que nem uma caldeirada
porque do outro lado não as sabem e não as querem falar), viagem de metro.
Conheceres a imponência de um império que os livros de história não conseguem,
nas suas imagens, fidelizar; olhar, com esses teus olhos gigantes, para as
paisagens miraculosamente agrícolas de dois países diferentes do teu. E nem
assim ficas satisfeita. O problema és tu. Já sabias. Mas agora ficaste com a
completa certeza. Vais ter de criar uma verdadeira revolução dentro de ti. Não
há lugar no mundo que te resolva de ti. De que te adianta teres todos os
outros, e tudo em teu redor, se não te tens a ti?
-
Isso dos outros não saberem falar línguas estrangeiras, ou não quererem, é
verdade. É uma autêntica desilusão. E uma dor de cabeça tentar falar com erros
para que me percebam. Fazer todo o percurso para trás, à caranguejo. Regressar
ao início, ao nada saber: precisamente por sentir que o outro lado não se
esforça por cá chegar, ao fim. Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a
Maomé. E nem só isso. Os miúdos apresentaram o trabalho melhor concebido e
melhor alicerçado em termos de multimédia. Foram excelentes na apresentação
numa língua que não a sua. É preciso recordar que eles se intitulavam os
“inaptos”: um gago, uma surda, uma afónica e dois imigrantes. Eu acrescento: e
uma multifóbica. E os “inaptos” foram
eleitos os melhores no seu país. E não vamos esquecer que, não fora a equipa
que nos acompanha, a do nosso país, nenhum trabalho seria devidamente apresentado.
Fomos nós que preparámos toda a parte de multimédia. Os outros não sabiam:
fichas, fios, cabos, computadores, software, projectores, todo um mundo a
desligar. Nem a organização estava minimamente preocupada. Mais uma vez
pediram-nos para abdicar da parte multimédia, para passar uma esponja em todo o
mérito e fazer apenas uma apresentação oral, sem suporte técnico. Mais uma vez
o caranguejo. Afinal, o que é que se passa? Sempre pensei que a minha terra e
as gentes da minha terra fossem menos sabedoras e conhecedoras do que os outros
das outras terras. O que dizem nas notícias é que lá fora é que estão os
génios. Lá fora é que sabem tudo. Nós somos uns ignorantes. Mas agora eu estou
lá fora. E apercebo-me que lá fora pouco sabem. Nem sequer se dão ao trabalho
de saber. Não precisam. Têm os criados de lá dentro. Têm os desenrascados e os
perfeccionistas de lá dentro. Têm os trabalhadores, os escravos, de lá dentro.
-Sabes,
Maria, os de lá dentro são sábios, são prestáveis, são grandes. Mas falta-lhes
uma coisa importante. Essa, que só os de lá fora têm: o estatuto. E quem tem o
estatuto não precisa de se esforçar, nem sequer de trabalhar. Tem o estatuto,
tem quem trabalhe p’ra eles, tem o rendimento garantido, tem o poder nas mãos.
Tem a pequenez de espírito, a preguiça incutida, o mete-nojo na alma, mas o
trabalho feito e o rendimento garantido. E o de lá fora ganha sempre, ganha
sempre. Mesmo que o trabalho do de lá dentro seja o top da excelência, o de lá
fora ganha sempre. De uma maneira ou de outra, ganha. Seja porque tem o
estatuto e a competição já está ganha mesmo antes de haver competição. Se
pensarmos bem nem podemos chamar de competição. É um tapar da peneira. É um
bode expiatório para recordar aos de lá dentro que os de lá fora são sempre os
vencedores, sempre. Nem que seja (e principalmente porque é) à custa do
trabalho, da inteligência, da genialidade, do mérito, da submissão dos de lá
dentro. E tenho dito.
-Estás
inspirada, Maria. Já tiraste o relógio e o cinto? Olha que a segurança aqui é
apertada. Não tinhas reparado? Afinal, já passámos pela máquina. O que estás
tão atenta a ouvir?
-Tchiu!
Só um segundo! Inacreditável! Não posso crer no que estou a ouvir. E os nossos
representantes? Não dizem nada? Se calhar não compreendem a língua.
- Estás a ser
inocente. É claro que compreendem. Não querem é dizer. Pelo que vejo, nem
tiraste o relógio nem o cinto. Diz tu.
-Não precisei.
A máquina ainda não tem poder para captar o material deste tipo de relógio e de
cinto. Vou dizer.
-Olha. Aquele
olhar de lado da Drª. Abanou ligeiramente a cabeça quando te viu levantar.
Senta-te. É p’ra não intervires. Parece que a máquina captou. Ela lá sabe. Tem
mais experiência nisto da política. É melhor acalmares-te. Senta-te.
- Sentei. Está
a ser difícil de engolir. Tu estás a ouvir o que estão a dizer sobre o nosso
povo? Tu estás a ouvir bem , como eu estou a ouvir? Não sei se vou conseguir
segurar-me. Fervo toda cá dentro. É uma injustiça o que dizem: tudo falso. Uma
realidade completamente diferente da que vivemos. Estão a humilhar-nos o mais
que podem, sem dó nem piedade e na base de falsidades. É Deus. Podia estar tudo
sossegado. Não. Tinham de nos enxovalhar. Logo hoje que estou aqui, logo agora
que entrei. Nem era suposto eu estar aqui. Mas estou. É Deus. Deus está a
forçar-me a tomar uma atitude. Já percebi porque tinha de entrar num avião. Já
percebi porque tinha de vir onde vêm os terroristas. Já percebi. Está na hora
do meu tipo de terrorismo, do tipo de terrorismo de Deus: o da verdade, da
justiça e do amor. É o relógio. Está na hora. E é o cinto: estou farta de o
apertar. Está na hora de o tirar. Vou falar. Levantei-me.
-Excuse me! May I speak? Desculpe,
posso falar. (Engasgou-se. Do outro lado, não estava à espera, mas deu-me a
palavra). Do you understand English? O deputado respondeu que sim e que não
havia problema porque tinha o tradutor, o assistente. Então comecei. E foi
assim, perante a assistência de oito países e mais alguns:
“Chamo-me
Maria. Já há cerca de meia-hora que ouço, daquele lado dali, uma série de
intervenções relativas ao meu país e à sua gente totalmente desfasadas da
realidade e, por isso, falsas. Chamo-me
Maria, vivo nesse país, do qual tanto
falam, há 36 anos. Se me ouvirem, ficam
a saber o que é viver nesse país, e ser alma e sangue desse país no contexto da
União Europeia. E vou falar com o meu coração porque sinto-me triste, ofendida
e magoada com o que ouvi. Vou falar com o meu coração. Não se sintam ofendidos.
Ouçam apenas alguém que fala com o coração. O povo do meu país é trabalhador. É
um povo que se sente enganado e sacrificado pelos seus governantes, pelas
políticas da União Europeia, pelo rumo capitalista que a época e o mundo
insistem em seguir. Mais uma vez, não se ofendam. Mas são vocês, as pessoas
importantes, os políticos, que podem mudar a direcção da corrente. E p’ra mim,
para os 99% da população mundial que não têm o poder decisório, a crise é fácil
de resolver. A solução está na palavra: partilha. Quando uma minoria deixar de
ser gananciosa e deixar de zelar apenas pelos seus próprios interesses, quando
essa minoria, que detém o poder, decidir que é hora de pensar efectivamente no
que aquela estátua demonstra lá fora, na união, na partilha, no espírito de
comunhão e interajuda, tudo se resolve bem para todos. É falso dizerem que não
queremos trabalhar. Nós somos um povo sacrificado em trabalho. Não fazemos
outra coisa senão trabalhar; mesmo quando as políticas europeias de cotas nos limitam
nesse trabalho. Se servimos para entrar na União Europeia, se servimos para ter
uma moeda única, porque é que não servimos para usufruir de salários mínimos
comuns, níveis de vida comuns? A impressão que dá, é que entramos para nos
anularem dos mercados, para acabarem com a concorrência, e nos explorarem os
recursos. Para nos colocarem uma pedra em cima e nos sugarem. A agricultura é praticamente inexistente, actualmente,
no nosso país. Eu fiquei perplexa com os enormes campos coloridos que vi pelo
caminho. No meu país já não há destas paisagens. É tudo árido. É tudo seco.
Foram criados subsídios para desincentivar os agricultores de cultivar, de
produzir leite. Foi dada uma esmola aos pobres que se agarraram a ela como se
lhes tivesse saído o euromilhões; e em troca foi-lhes decretado que não
cultivassem. É a política do não. Há alguma lógica nisto? Termos os recursos,
as terras, a mão-de-obra, a sabedoria; pagarem-nos para não rentabilizarmos o
que somos é uma violência. Apesar de sermos um país rodeado de mar a toda a
volta, estamos limitados na nossa pesca. O país vizinho pesca mais nas nossas
águas do que nós. A indústria têxtil morreu na minha cidade. Uma indústria
outrora em ampla expansão: agora monumentos, de um cinzento sujo, desertos de
gente e vida. Era evidente que, ao fim de alguns anos, não teríamos
competitividade para acompanhar os restantes países. Essa ajuda financeira que
virá daqui, deste centro político, é uma ajuda que não sinto como tal. É uma
dívida a ser-nos paga, uma dívida de longa data por nos terem impedido de
crescer, de evoluir. Por causa da nossa inactividade, muitos países da união
lucraram nas suas produções. É fácil chegar aqui e dizer que determinado povo
não trabalha e não sabe gerir o dinheiro. É fácil dizer que determinado povo
não merece ser ajudado. Mas pensem bem nas circunstâncias que divergem
amplamente entre países que pertencem a uma mesma união. Pensem bem nas
políticas que partem daqui e que são aplicadas, quase que a dedo cirúrgico, em
cada nação. Pensem bem nas desigualdades criadas, nos grandes fossos em todas
as áreas. Pensem bem se, de facto, temos união só p’ra alguns. Para os outros,
há servidão. As nossas famílias, na actualidade, ou trabalham de sol a sol (dois
e três empregos diários) para conseguir cumprir os seus compromissos bancários,
manter a sua casa e ter comida na mesa, ou emigram para o efeito. Ou nem sequer
conseguem emprego. Há famílias inteiras divididas, em que, apesar de viverem na
mesma casa, pais não têm tempo nem humor para conversar com os seus filhos.
Outras estão com os seus elementos espalhados pelo mundo para sobreviver. São
famílias criadas à distância. Temos toda uma geração ao abandono. E muitas
famílias estão a passar fome. É esta a nossa participação na união. De quem é a
culpa, se o povo trabalha e quer trabalhar, mas cortam-lhe as pernas? De quem é
a culpa, se o povo trabalha e mata-se a trabalhar, mas não recebe o salário
justo pelo seu trabalho? É do poder decisório, é daqui. Não se ofendam. Mas não
sejamos hipócritas. A culpa está na distorção de valores. Nas más práticas. Na
má fé. No egoísmo. No cada um por si. Nessa selvajaria que é a política
bancária. No roubo consentido. Nos juros macabros. Na política suja. Na
ganância desmedida de alguns. Se o povo tem dívidas, não é culpa do povo; é
culpa do polvo que nunca está satisfeito com o montante do roubo. O problema
não está nos humildes trabalhadores, como querem amplamente fazer crer. Não no
seu sacrifício diário. Não na sua fome e nas suas dores de costas. Estamos a
sofrer uma espécie de ocupação territorial; só que, hoje em dia, as armas não
são as espadas nem os canhões, nem sequer são óbvias. São armas dissimuladas. Ultimamente
até são claramente declaradas. É a psicologia do vai com todos, do formigueiro.
E, porque um aceita ser ofensivamente roubado no dízimo que tem de pagar ao
banco, os outros têm de alinhar. Pelo empréstimo concedido para um bem, pagar
de juros cinco vezes mais do que se paga por esse bem é um escândalo.
Multiplicar essa factura por biliões torna-se uma catástrofe à escala global. E
os biliões aceitarem, passarem fome, escravizarem-se no trabalho, destruírem a
sua saúde, sentirem-se culpados e ainda fazerem
vénia à meia-dúzia que comete essa atrocidade, é uma imbecilidade. Somos
pobres, somos humildes, somos até ignorantes, mas alguns de nós esforçaram-se
no estudo, no empenho, no aperfeiçoamento (os poucos, a quem foi dada a
oportunidade); alguns de nós conseguem pensar e ver, mediante os conhecimentos
que têm. E esses, de todos os ofendidos, têm a obrigação maior de falar. Mesmo
que se saibam pequenos e impotentes, como é o caso. Falei.”
-E o que disse
o deputado?
-Ficou a olhar
para mim uns segundos largos, surpreso. Senti um olhar de admiração. De “não
posso crer que pessoas assim ainda existam”; de “não se vê políticos a falar
assim”. Até o tradutor ficou abismado e sem pio. Na verdade, acho que toda a
assistência ficou repentinamente silenciosa: nem um tossir, nem um remexer de
bolsa ou de telemóvel. Até eu fiquei muda perante mim própria. No final,
tirámos fotografias. O tradutor deu-me os parabéns em nome do deputado e disse-me:“if
one has the occasion one must take advantage of it, your word was heard” (se
alguém tem a oportunidade, esse alguém deve aproveitá-la; a sua palavra foi
ouvida). E alguns dos responsáveis de outros países vieram dar-me um enorme
abraço bem apertado. Não me conheciam de lado algum a não ser daquele contexto
e deram-me alguns dos abraços da minha vida. Disseram-me ao ouvido: “nós
sentimos exactamente o mesmo; no nosso país tudo se passa assim como disse;
parabéns pela coragem”.
-No entanto, o
deputado colocou-te uma questão no final. Mesmo antes da fotografia.
Lembras-te?
-Lembro. Mas
percebi que não gostou da resposta. Desviou o assunto e terminou a sessão.
-Era sobre a movimentação
político/social em torno da
esquizofrenia. Perguntou-te o que pensavas a respeito.
-E eu
respondi: “Sou esquizofrénica e não o aconselho a ninguém. Cada um nasce como
nasce, deve aceitar-se como tal. Não sou a favor de tratamentos antinaturais:
ingestão de drogas, indução de desgostos e implante de genes”.
-E respondeste
bem. Foste tu própria. E o deputado comentou: “Agora percebo porque consideram
a esquizofrenia um dom.”
- Agora
percebi porque a Susana insistiu tanto para que entrasse no avião e
acompanhasse os nossos 60 alunos ao exterior. Apesar de eu ter dito que não, a
seguir veio o pedido para que me responsabilizasse pelo projecto do Parlamento.
Eu recusei esse trabalho. Já tinha a minha vida assoberbada de projectos e
trabalho. Voltaram a pedir: não havia ninguém para orientar os alunos. Não
iriam poder participar. Acabei por aceder. Disse: se forem eleitos os melhores,
não entro no avião. É preciso alguém que vá, na minha vez, representar-nos no
estrangeiro. Na minha ideia nunca venceríamos. Eu não tinha experiência alguma
e as outras escolas tinham mais traquejo. Mas, na hora H, os meus miúdos, os
“inaptos”, foram mesmo eleitos os melhores. E eu pensei: estou lixada, agora
tenho de entrar no avião. Eu, a inapta - mor.
-Pois é. Já te
conheces bem. Já sabes que não abandonas
o barco a meio. E por amor fazes tudo. Por amor aos alunos, para que não
desmotivassem, lá te meteste na falta de ar, nas pastilhas, e entraste no
avião. Também por amor aos teus filhos: querias que te vissem como uma mãe
corajosa e exemplar. Não quiseste que herdassem os teus medos. E foste. E
vieste. E agora compreendeste. Por amor aos teus, ao teu país, vieste. Foi Deus.
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."
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