Capítulo 2
- Wirklich? De
verdade? Deixaram-te consultar os arquivos ? Aber das ist wunderbar! Mas isso
vai totalmente contra a Ética da
Medicina Moderna, pá!
- Pois. A
Ética da Medicina Moderna pode não concordar com os métodos utilizados e
impedir a consulta dos horrores e o seu estudo, mas quem está à frente dos
arquivos não é a Ética. E não resistiu aos encantos do método do papel: verde,
verdinho! A cor irrecusável !
- Jura! Quanto
tempo os tiveste na tua mão? O Josef foi conclusivo?
- Muito tempo.
Impressionante o número de óbitos, mutilações, incapacitados permanentes que
saíram daqueles campos de concentração. A frieza nua e crua com que relata os
procedimentos laboratoriais. Mas sim, Doktor Josef foi muito conclusivo. Claro
que direccionei a minha atenção para os que considerou com apetência especial
para as artes, os criativos. E juntamente com os dados que temos das
experiências que estamos a realizar já podemos declarar com toda a certeza.
- Mas… conta
pormenores. Como é que ele fez?
- Serrou
crânios, quebrou-os, destilou sangue, dissecou encéfalos. Tudo a quente, com os
desgraçados meio-vivos e a espernear. Retirou amostras de tecido. Descreveu o
cheiro nauseabundo do vapor exalado dos miolos ainda com vida. Aplicou
químicos. E em comparação com os sujeito-controle, os ditos normais, concluiu
que as anormalidades estruturais mais comuns no grupo alvo são: aumento do
sistema ventricular e sulcos proeminentes no córtex; tamanho temporal e
hipocampal diminuído; aumento no tamanho dos gânglios basais; diminuição do
tamanho do cérebro. Uma carnificina foi o que foi, mas valeu a pena.
-Eh, pá! Mas
isso bate tudo certo com a técnica de imagem estrutural que temos vindo a fazer
na nossa amostra de tecido voluntário. Falo dos génios, claro.
-Foi exactamente
isso que eu pensei! Mas ainda há mais: o fluxo sanguíneo e a utilização da
glicose, também Josef os declarou anormais no córtex pré-frontal.
-Unglaublich!
Não dá para acreditar! A técnica de imagem funcional comprova isso mesmo nas
mentes dos visionários que temos à experiência.
- É pena que milhares
tivessem de ser cobaias, de sofrer e morrer, para que hoje pudéssemos confirmar , com dados concretos da anatomia
humana , estes resultados que observamos agora. Mas…se aconteceu , p’ra quê não
permitir a sua consulta? Pelo menos, não terão sido torturados e mortos em vão.
-Compreendo,
em parte, doutor. Estou em pulgas! Mas, de facto, é um pouco estranho perceber
que estou a rejubilar em cima da violação do direito à vida. Se me serrasses o
crânio e dissecasses os miolos, de certeza que não ficaria muito feliz. Dá para
entender a história da Ética. Convenhamos: matar uns para salvar outros é estúpido.
Número por número, mais vale estar quietos… assim, pensando a quente no
assunto. Além de que pode abrir precedentes.
- O Josef não
matou uns para salvar outros. A morte foi apenas mais um caminho necessário à
satisfação dos porquês instalados no seu intelecto. Puro egoísmo. Pura procura
de amenização da sua própria dor. Conseguir encontrar respostas efectivas para
as suas perguntas. Abrir precedentes? É um pouco difícil. Hoje em dia, as
intervenções médicas que não sejam para fins de diagnóstico, prevenção,
tratamento, cura ou imunização são excluídas em todas as circunstâncias. E o
paciente, mesmo quando voluntário, é sempre informado sobre as possíveis
consequências negativas da experiência.
- Oh! , não é
bem assim. Nem parece que és o homem do papel verde. Estranho estarmos aqui a reflectir,
a pensar com os nossos cérebros vivos e em plenas funções sobre os resultados
de experiências feitas em cérebros roubados ( martelada a martelada, corte a
corte, gota a gota ) da sua capacidade de pensar.
-Não penses.
Se pensas muito matas a tua capacidade de destilação do sumo, de dissecação do
que é verdadeiramente real. E não é com técnicas de imagem que chegamos lá.
Precisamos de nos conspurcar no esvair do sangue e no golpear da massa branca. E,
lembrando o Código de Nuremberga, as experiências devem ser realizadas somente
com o consentimento dos pacientes, não devem causar dor desnecessária nem
sofrimento, e deve haver plena certeza de que não vão levar o indivíduo à morte
ou causar-lhe invalidez. Isto em teoria, claro. Sem o verde à mistura! Ah,ah,ah,ah!
- Como vais
explicar o acesso aos arquivos? Sabes que há uma proibição da lei
internacional: experiências médicas relacionadas com genocídio estão
inacessíveis.
- O problema
não é meu. É de quem me deu o acesso. De qualquer das formas, com o ouro que
temos entre mãos, qualquer problema judicial será resolvido na hora porque
qualquer juiz quererá usufruir da nossa descoberta. Duvidas?
-Não. Tens
toda a razão. Venha o ouro! Der Gold!
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