quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 2


Capítulo 2

 

- Wirklich? De verdade? Deixaram-te consultar os arquivos ? Aber das ist wunderbar! Mas isso vai totalmente  contra a Ética da Medicina Moderna, pá!

- Pois. A Ética da Medicina Moderna pode não concordar com os métodos utilizados e impedir a consulta dos horrores e o seu estudo, mas quem está à frente dos arquivos não é a Ética. E não resistiu aos encantos do método do papel: verde, verdinho! A cor irrecusável !

- Jura! Quanto tempo os tiveste na tua mão? O Josef foi conclusivo?

- Muito tempo. Impressionante o número de óbitos, mutilações, incapacitados permanentes que saíram daqueles campos de concentração. A frieza nua e crua com que relata os procedimentos laboratoriais. Mas sim, Doktor Josef foi muito conclusivo. Claro que direccionei a minha atenção para os que considerou com apetência especial para as artes, os criativos. E juntamente com os dados que temos das experiências que estamos a realizar já podemos declarar com toda a certeza.

- Mas… conta pormenores. Como é que ele fez?

- Serrou crânios, quebrou-os, destilou sangue, dissecou encéfalos. Tudo a quente, com os desgraçados meio-vivos e a espernear. Retirou amostras de tecido. Descreveu o cheiro nauseabundo do vapor exalado dos miolos ainda com vida. Aplicou químicos. E em comparação com os sujeito-controle, os ditos normais, concluiu que as anormalidades estruturais mais comuns no grupo alvo são: aumento do sistema ventricular e sulcos proeminentes no córtex; tamanho temporal e hipocampal diminuído; aumento no tamanho dos gânglios basais; diminuição do tamanho do cérebro. Uma carnificina foi o que foi, mas valeu a pena.

-Eh, pá! Mas isso bate tudo certo com a técnica de imagem estrutural que temos vindo a fazer na nossa amostra de tecido voluntário. Falo dos génios, claro.

-Foi exactamente isso que eu pensei! Mas ainda há mais: o fluxo sanguíneo e a utilização da glicose, também Josef os declarou anormais no córtex pré-frontal.

-Unglaublich! Não dá para acreditar! A técnica de imagem funcional comprova isso mesmo nas mentes dos visionários que temos à experiência.

- É pena que milhares tivessem de ser cobaias, de sofrer e morrer, para que hoje pudéssemos  confirmar , com dados concretos da anatomia humana , estes resultados que observamos agora. Mas…se aconteceu , p’ra quê não permitir a sua consulta? Pelo menos, não terão sido torturados e mortos em vão.

-Compreendo, em parte, doutor. Estou em pulgas! Mas, de facto, é um pouco estranho perceber que estou a rejubilar em cima da violação do direito à vida. Se me serrasses o crânio e dissecasses os miolos, de certeza que não ficaria muito feliz. Dá para entender a história da Ética. Convenhamos: matar uns para salvar outros é estúpido. Número por número, mais vale estar quietos… assim, pensando a quente no assunto. Além de que pode abrir precedentes.

- O Josef não matou uns para salvar outros. A morte foi apenas mais um caminho necessário à satisfação dos porquês instalados no seu intelecto. Puro egoísmo. Pura procura de amenização da sua própria dor. Conseguir encontrar respostas efectivas para as suas perguntas. Abrir precedentes? É um pouco difícil. Hoje em dia, as intervenções médicas que não sejam para fins de diagnóstico, prevenção, tratamento, cura ou imunização são excluídas em todas as circunstâncias. E o paciente, mesmo quando voluntário, é sempre informado sobre as possíveis consequências negativas da experiência.

- Oh! , não é bem assim. Nem parece que és o homem do papel verde. Estranho estarmos aqui a reflectir, a pensar com os nossos cérebros vivos e em plenas funções sobre os resultados de experiências feitas em cérebros roubados ( martelada a martelada, corte a corte, gota a gota ) da sua capacidade de pensar.

-Não penses. Se pensas muito matas a tua capacidade de destilação do sumo, de dissecação do que é verdadeiramente real. E não é com técnicas de imagem que chegamos lá. Precisamos de nos conspurcar no esvair do sangue e no golpear da massa branca. E, lembrando o Código de Nuremberga, as experiências devem ser realizadas somente com o consentimento dos pacientes, não devem causar dor desnecessária nem sofrimento, e deve haver plena certeza de que não vão levar o indivíduo à morte ou causar-lhe invalidez. Isto em teoria, claro. Sem o verde à mistura! Ah,ah,ah,ah!

- Como vais explicar o acesso aos arquivos? Sabes que há uma proibição da lei internacional: experiências médicas relacionadas com genocídio estão inacessíveis.

- O problema não é meu. É de quem me deu o acesso. De qualquer das formas, com o ouro que temos entre mãos, qualquer problema judicial será resolvido na hora porque qualquer juiz quererá usufruir da nossa descoberta. Duvidas?

-Não. Tens toda a razão. Venha o ouro! Der Gold!

 

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