Capítulo 8
-Granja, leste
o artigo que saiu na “Nature” sobre a mais recente descoberta científica aqui
no nosso país? Temos investigadores de ponta ali na zona centro. Descobriram
algo que vai revolucionar o planeta.
-Sr. Ministro
da Saúde, p’ra estar com esse entusiasmo todo é porque já está a pensar em
obter dividendos do assunto. Mas diga lá: que inovadora descoberta é essa?
-É que não
tenhas a menor dúvida. Isto é um vento que vai mudar a corrente para uma nova direcção.
E eu faço questão de estar dentro desse barco, bem lá na frente, na proa. O
mundo não será o mesmo, a partir de hoje, a partir deste artigo.
- Correia, que
diz esse artigo? Vá: estou curioso. É sobre quê?
-
Esquizofrenia. Deixou de ser considerada doença e passou a ser entendida pelos
especialistas como sendo dom.
- Cruzes!
Estamos a entrar no campo do sobrenatural, é? Ora explica lá isso melhor.
-Não. Não tem
nada de sobrenatural nisto. Está tudo, cientificamente, muito bem fundamentado
e documentado. Ora presta atenção.
“ A origem genética da
esquizofrenia está no efeito conjunto de um número alargado de genes. Parte da
vulnerabilidade genética da esquizofrenia é partilhada pela síndrome bipolar.
Cada gene, individualmente, tem um efeito muito pequeno. Só a soma de todos os
genes é que determina o efeito geral. Há associações significativas num gene do
cromossoma 22, numa vasta região do cromossoma 6, e num gene localizado no
cromossoma 2.”
-Oh!, Correia!
Isso que estás a ler não comprova que é dom. Apenas indica a origem genética da
esquizofrenia.
-Não me
interrompa, Sr. Ministro da Administração Interna. A amostra, que reuniu dados
recolhidos ao longo de vários anos por diversos centros de investigação
europeus, envolveu 3322 europeus com esquizofrenia e 3587 pessoas no grupo de
controlo sem a doença. O estudo comparou ainda os resultados obtidos com
amostras de sujeitos bipolares, concluindo que uma boa parte das variações
genéticas são comuns às duas situações: esquizofrenia e bipolaridade.
- Correia,
avança, avança! Daqui a pouco começa o congresso e nem me adoçaste o bico.
Vamos lá! Despacha isso.
-Calma, isto
ainda tem muito que explicar. O congresso espera. Isto é mais importante. Ora,
desses europeus com esquizofrenia, foi observado um grupo mais restrito,
aqueles considerados criativos. Foram realizados, além dos testes médicos,
testes psicológicos, testes ao Q.I e foram observados os seus comportamentos no
terreno durante largos meses. Pelo que compreendi da leitura do artigo, foram
feitas entrevistas aos vários intervenientes no meio social onde se inserem. As
suas vidas foram minuciosamente analisadas, desde o momento em que nasceram até
à presente data. Uma análise em todas as vertentes: biológica, anatómica,
individual, social, económica, evolutiva. Colocaram-nos mediante circunstâncias específicas e gravaram as suas
reacções, analisando-as e estudando-as posteriormente.
- Por exemplo…
-Por exemplo,
referem dois dos sujeitos: Maria Sousa e Nuno Fernando Filho. Ambos
considerados extremamente criativos, direccionando essa capacidade para a
escrita. Ambos com um percurso intelectual e de estudos bem consolidado. Ambos
com curso superior na área das letras. Ambos com enorme sentido de humanidade.
Ambos esquizofrénicos dotados de clarividência. Não se conhecem, mas mediante o
mesmo teste tiveram a mesmíssima reacção.
-E o teste,
Correia? Qual foi o teste?
- Ora,
colocaram-nos dentro de um quarto vazio, só com uma mesa ao centro e uma
cadeira. Apenas uma luz branca no tecto, e muito branda. Não havia
rigorosamente nada nas paredes. Era o vazio autêntico. Não lhes disseram quanto
tempo iriam lá ficar e observaram o seu comportamento. O que é que tu farias?
- Sentar-me-ia
na cadeira e, ao fim de algum tempo, dormiria um sono com a cabeça pousada em
cima da mesa.
- Granja, isso
seria o que eu faria também. Mas eles não. Primeiro deram voltas e mais voltas
à mesa. Não se sentaram uma única vez. Enquanto davam voltas falavam para si
próprios como se estivessem a falar com alguém. Gesticulavam. Coçavam a cara.
De vez em quando, paravam, assim, de repente. Colocavam a mão sobre a boca.
Coçavam o nariz. Continuavam a rodar a mesa e a falar, bem como a gesticular.
Olhavam a toda a volta do quarto, faseadamente. Ora para uma parede, ora para
outra. Por fim, deitaram-se sobre a mesa, de barriga para o ar. Colocaram as
mãos sobre o estômago, entrelaçaram uma perna sobre a outra e olharam para o tecto.
Com os olhos bem abertos ficaram nessa posição horas, sem se mover, quase sem
pestanejar. De vez em quando, sorriam. Muitas vezes sorriram. A dada altura,
levantaram a mão e movimentaram o dedo indicador no sentido do e contra o
relógio, dava a sensação de que estariam a escrever.
- Qual foi a
explicação que deram, Correia, quando lhes foi perguntado o que falavam? Com
quem falavam? Porque sorriam? E o que estariam a escrever?
- Nuno disse que falou com personagens dos seus
livros, ora um velho sem nome, ora uma sofrida Maria. Maria disse que falava
com outra de si própria. Tiveram conversas relacionadas com o seu próprio
comportamento e pensamentos. Sorriam porque decidiram sonhar de olhos abertos
com algo que os fizesse sentir bem, algo de muito positivo. Ambos decidiram
sonhar com pares românticos. Ambos escreveram no vazio, vezes sem conta, a
palavra AMO-TE. Dizem que a dirigiam, primeiro, a si próprios: AMO-TE. Ao
próprio ego. Explicaram ainda que enquanto sonham e escrevem não pensam,
abstraem-se de tudo o que é negativo, da realidade nua e crua, que dão sentido
às suas vidas e que o tempo, no quarto vazio a meia-luz, não foi perdido. Mais
tarde, em casa, passaram para o papel toda aquela experiência e criaram uma
realidade positiva a partir dela. Acreditam que a sua clarividência está aí: na
capacidade de desenvolverem a imaginação, através do isolamento no vazio. Acreditam
que o acto criativo acontece pela projecção na escrita, pelo poder da palavra.
Estão certos de, assim, conseguirem alterar o real, o concreto e positivamente.
- E os
investigadores, Correia? A que conclusões chegaram?
- Granja,
presta lá muita atenção a isto, agora. Tal como a de Cristo, começa, neste
preciso momento, uma nova era. Os esquizofrénicos criativos precisam de
colmatar o vazio e a negatividade com actividade cerebral. Dormir, para eles,
seria impensável; pois, dormindo, não estariam a produzir, seria pura perda de
tempo. Além de que não conseguiriam. Perante situações problemáticas, têm
necessidade de racionalizar, de exercitar o intelecto, de ocupar a mente, de estar
plenamente activos no andar de cima. Um quarto vazio e o desconhecimento do
tempo que lá iriam ficar são situações problemáticas. Com a tendência que ambos
têm (havendo brechas no espaço e no tempo) para a negatividade, não tiveram
outra solução senão distrair o cérebro, produzindo, ficcionando uma realidade
extra numa outra dimensão. Os investigadores acreditam que aquelas personagens
e conversas se tornaram, de facto, reais. Existiram, de facto, numa outra
dimensão. Tudo o que o pensamento deles projectou no vazio, ocorreu em pleno: o
sonhar acordado, o falar com e escutar alguém, o escrever no ar. Uma realidade
extra criada pela capacidade extra de ficcionar na não existência ou de
suplantar a negatividade enchendo as brechas do vazio com o que o intelecto
decide. E o que o intelecto cria, ao ser criado, pensado, torna-se real, ainda que não seja observado a olho nu e
palpável. Há um espaço e um tempo extra-sensorial ao qual um cérebro
esquizofrénico , potenciado pelo exercício intelectual de uma vida, consegue
chegar. Aí, comunica-se realmente, e até de forma apurada e mais eficiente;
embora aparentemente sem palavras, nem voz, nem objectos concretos, nem
matéria.
- Telepatia ?
Estás a falar de telepatia?
- kind of.
Mais ou menos. Clarividência e comunicação entre intelectos sem a necessidade
de passarem pelo filtro da matéria. Por vezes (foi comprovado na investigação
também) até chegar a esse patamar percorrem um caminho que passa por ir
abandonando a matéria. Na natureza tudo é energia. A matéria é energia
condensada; a energia é matéria em estado radiante. Tudo é energia em graus
variados de densidade. Os esquizofrénicos estudados deixaram a linguagem e o
sentido óbvio das palavras completamente de parte e foram comunicando através
de sinais: imagens soltas dentro de imagens, pormenores em fotografias;
silêncios dentro das palavras; o subtexto, palavras dentro de palavras,
sentidos diversos dentro de sentidos óbvios; sons específicos que encaminham
para contextos subentendidos; símbolos, a linguagem pela linguagem, a linguagem
com vida própria, energia em estado bruto.
- Eh! Já estás
a complicar, Correia. Olha que eu não sou clarividente, nem esquizofrénico. Há
conceitos que não atinjo.
-Ok, ok ,
Granja! O importante a reter nisto é que, de facto, a esquizofrenia, que até aqui
era considerada doença, com os resultados bem documentados e cientificamente comprovados
dos investigadores , os de agora e os do passado, passou a ser vista pela
comunidade científica como um dom. O esquizofrénico criativo, cujo intelecto
foi potenciado, ao longo da vida, com estudo e aprendizagem constantes, com
exercício cerebral baseado no trabalho e no empenho académico, tem o que os
investigadores denominam por sétimo sentido. Mas para conseguir ter o insight,
a noção do mesmo, precisa de grandes doses de modéstia, abertura mental,
sentido de ética e generosidade. Para discernir, em si mesmo, completa lucidez
da autêntica capacidade de sabedoria, necessita de um desenvolvimento
espiritual que exige trabalho no esforço do aprimoramento da consciência; tem
de haver um crescimento interno no sentido da ampliação do amor, da maturidade
da alma e um respeito inabalável pelo próximo.
-Sétimo
sentido, Correia?
-Sim, sétimo
sentido. O sexto é a intuição, que o esquizofrénico também possui amplamente
desenvolvido. O sétimo é a clarividência.
- O
congresso, Correia: o congresso !
-O congresso
espera, Granja. Queres ouvir ou não?
-Sim, sim.
Continua. Afinal, hoje não vamos palestrar. Então diz lá: sétimo sentido.
- Pois bem, o
sétimo sentido. A clarividência que os esquizofrénicos criativos possuem.
Clarividência. Do latim “clarus” (claro) “videre” ( ver), ou seja, a capacidade
supranormal e parapsíquica de perceber imagens independentemente do sentido
normal da visão. Essa capacidade é anímica e natural. De acordo com os
investigadores, reside na potencialidade de exercitação dos chacras (dos
centros de energia) frontal e coronário, que estão conectados às duas
principais glândulas do sistema endócrino: a pineal (epífise) e a pituitária
(hipófise). Contudo o potencial clarividente é uma faculdade anímica, vem da
própria alma. Até aqui, compreendes, Granja?
-Mais ou
menos, no geral. Mas continua, Correia, continua.
-Os cientistas
desmistificam o significado da palavra vidência. Dizem que vidência é a visão
normal, a percepção visual natural. Explicam que para vermos alguma coisa
precisamos da reflexão da luz em cima desse algo. Sem luz não conseguimos ver.
Se as partículas luminosas incidirem sobre algo transparente (o vidro ou a água),
essas partículas serão refractadas, atravessarão os objectos, daí que se torne
difícil percebê-los através da visão normal. Mas eles estão lá. Tanto estão que,
por vezes, as pessoas e os animais batem violentamente com o corpo neles porque,
precisamente, não os conseguiram ver.
- Verdade, Correia.
Tantas vezes bati com a cabeça no vidro.
- Pois. Agora,
se o objecto é opaco, a luz é absorvida, e o objecto torna-se visível. Portanto
é tudo uma conjugação de factores físicos e químicos. Os cientistas garantem
que há toda uma realidade concreta que existe, está ali perante os nossos
olhos, mas, nós, seres humanos normais, não a conseguimos ver. O esquizofrénico
criativo e clarividente consegue porque não vê com os olhos, mas sim com os
chacras frontal e coronário. E quando quer ver ainda mais longe faz meditação:
fecha os olhos, roda-os para dentro e para cima, na direcção da testa, dos
chacras, e a clarividência dá-se de imediato. Um cego esquizofrénico criativo
pode ser clarividente. Os melhores momentos de clarividência dão-se nos estados
alterados de consciência, momentos entre o sono e o despertar, entre o sono e a
vigília. Estás a acompanhar, Granja?
-Sim, sim.
Continua.
-O
esquizofrénico clarividente consegue ver a aura do ser humano. Ela existe, mas
não é vista por nós porque, precisamente, é atravessada pela luz. Ficou
comprovado, mesmo através de fotos kirlian, que o esquizofrénico consegue ver a
aura nas suas três dimensões: a do corpo físico, a do corpo extrafísico (alma,
emoções) e a do corpo mental (pensamentos). Ele vê uma espécie de campo
magnético em torno do corpo físico, um corpo luminoso mesclado por várias
cores, camadas vibratórias, sopros de ar. Sabes que “aura” no latim significa
sopro de ar?
- Não sabia,
Correia. Estou fascinado com esses resultados. Com esse sétimo sentido.
- Ficou
comprovado que o esquizofrénico criativo é uma pessoa que percebe algo à
distância, goza de uma “clarividência viajora”, a sua percepção como que se
subdivide: uma parte está centrada no próprio corpo, a outra observa “in loco”
o acontecimento de algo. Esse “in loco” (no local) tem a ver com o espaço, mas
também viaja no tempo.
-Como assim,
Correia?
-Já explico
melhor. Os investigadores concluíram que o grupo alvo estudado gozava de
clarividência no momento presente, mas têm a capacidade de retro-cognição, isto
é, conseguem viajar, mentalmente, no tempo, para o passado da sua vida, ou de
vidas anteriores à sua. Observaram fenómenos psicométricos também, ou seja,
além de perceberem as suas próprias memórias, também têm potencial para
perceber as dos outros, pessoas, objectos e ambiente. Concluíram que o
esquizofrénico criativo goza, acima de tudo, da capacidade de precognição,
comummente conhecida como premonição. Adivinham, contextualizando, e até mesmo
criando, actos e acontecimentos futuros . E aqui, Granja, é que está a Nova
Era, o ouro.
- Ah! Percebi.
Hummmmmm!
-Temos todo o
interesse em direccionar esquizofrénicos clarividentes para as altas e mais
importantes posições na sociedade. Os melhores postos de trabalho terão de ser
dados a esquizofrénicos: as posições de destaque na política, na economia, na
medicina, na arte, no desporto terão de ser atribuídos a esquizofrénicos. Só
assim é que o país evolui, só assim é que o poder regressa às nossas mãos.
-E nós,
Correia? Não somos esquizofrénicos! Vamos varrer as ruas e arrumar carros, é?
- Calma,
Granja. Pelo que li, há a hipótese de nos tornarmos esquizofrénicos.
-Há? Como?
-Teremos de
aguardar um pouco, porque ainda estão em fase de pesquisa e testes
laboratoriais. Mas afigura-se a hipótese de clonagem dos genes responsáveis
pela esquizofrenia e de posterior implante em todos os que desejem tornar-se
clarividentes por essa via.
-Ui! Que loucura, homem! Que
loucura! Tu estás louco! Louco!
Conceição Sousa in "Tala, enquanto cura e nasce. Porque o milagre é acreditar."
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