quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Capítulo 1 ( e continua...)


Olho para ti, meu amor, e sei que te amo. Isto é amor, eu sei.

Choras. Choras porque te faço chorar. A minha face é um deserto árido e seco ao ver-te chorar. Mas, por dentro da pele, as lágrimas embarcam alucinadas e aceleram a corrente sanguínea: as carótidas quase explodem de tanto bombearem. Dói. Dói muito ver-te definhar, ouvir-te soluçar, sentir-te assim: acabado. Dói muito intuir que, sem mim, morres. Como queria não ter esse efeito por sobre ti. Eu sei que te mato. E choro quando não estás.

                É um beco sem saída – para ti, pelo menos; logo para mim. Choro porque te amo um amor doce e tranquilo, um amor sustentado, um amor água. Choro porque me equilibras na corda da minha irreverência. Choro porque sei que te acabo, a ti, pai dos meus filhos. Choro porque queria sentir fogo a arder dentro de mim quando olho para ti – e não sinto. Choro quando  (que nem os de um animal abandonado) teus olhos me perseguem, pregados ao meu rosto, suplicantes, aflitivamente obcecados e suplicantes. Choro porque não te recuso, porque não recuso a tua dor e porque afago o teu tormento. Beijo-te suavemente toda a pele, toco-te com os lábios na alma, unilateralmente; amenizo a dor de sentires que não te quero como querias que eu te quisesse. Um amor sustentado, tranquilo. Um amor água. Sabe-me bem o teu toque, sabe-me bem o deslizar dorido da tua língua, sabe-me bem o acarinhar da tua mordedura na dor do meu corpo, na dor que sinto por não ser a do outro. O lamber-me no lado de fora, por toda eu, no lado de fora. Sabe-me bem o teu amor água, todo ele húmido: lágrimas, saliva, suor, fluidos, sémen. Sabe-me bem.

                Mas por que raios é que o lado de dentro pede um amor fogo? O que mais desejo é um amor doente, insano, obsessivo, carnal, esotérico, quântico, intemporal. Mas é um amor árido e seco o que me dão, o que me dou. É para o amor árido e seco, intranquilo, não sustentado que demencialmente olho.  Anseio o toque, o beijo, a humidade, os fluidos, o vulcão, a erupção, o magma, a chama, da onda a rebentação.

                Almas que se tocam sem corpos? Não presta. Quero tudo. Quero os corpos também. Necessito urgentemente dos corpos colados, suados, amassados, rebolados, sujos, conspurcados. Sou física, toda física. Quero corpos. Quero que me abençoem com o amor físico. Não me basta sentir o amar. Têm de me dar o amor. Quero que me craves na pele – selvaticamente. Quero que me dês o melhor dos melhores dos amores húmidos; que me chores no ventre as dores da tua alma; que me aferroes na nuca o brasão erecto da posse do tempo e do ser; que me trilhes nas nádegas a urgência em estar; que me sugues nos seios o leite materno que te foi negado; que me vivas bebendo-me toda, literalmente bebendo-me toda. Bebe-me. Mas bebe-me de verdade e saboreia cada verter de mim, entranha-o no teu corpo. Quero que me sorvas, no rasgar selvático do corpo, na alma. Que me penetres a aura. Quero absorver-te no mais fundo de mim. Quero a tua alma. Dá-ma. Quero que te ejacules-me, lá, na névoa da intuição e te concretizes premonição, cá. É isto viver. É só isto que resta do viver: nada. Eu aí. Tu aqui. Nós. Nós, concepção. Nós, criação. Nós, gestação. Nós, parição. Nós, obra. Nós, em fruto de carne e pele e osso, união. Quero um filho teu. Quero um filho nosso, enquanto posso. Enquanto estou.

 

 

 

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