Olho para ti, meu amor, e sei que
te amo. Isto é amor, eu sei.
Choras. Choras
porque te faço chorar. A minha face é um deserto árido e seco ao ver-te chorar.
Mas, por dentro da pele, as lágrimas embarcam alucinadas e aceleram a corrente
sanguínea: as carótidas quase explodem de tanto bombearem. Dói. Dói muito ver-te
definhar, ouvir-te soluçar, sentir-te assim: acabado. Dói muito intuir que, sem
mim, morres. Como queria não ter esse efeito por sobre ti. Eu sei que te mato.
E choro quando não estás.
É
um beco sem saída – para ti, pelo menos; logo para mim. Choro porque te amo um
amor doce e tranquilo, um amor sustentado, um amor água. Choro porque me
equilibras na corda da minha irreverência. Choro porque sei que te acabo, a ti,
pai dos meus filhos. Choro porque queria sentir fogo a arder dentro de mim
quando olho para ti – e não sinto. Choro quando
(que nem os de um animal abandonado) teus olhos me perseguem, pregados
ao meu rosto, suplicantes, aflitivamente obcecados e suplicantes. Choro porque
não te recuso, porque não recuso a tua dor e porque afago o teu tormento. Beijo-te
suavemente toda a pele, toco-te com os lábios na alma, unilateralmente; amenizo
a dor de sentires que não te quero como querias que eu te quisesse. Um amor
sustentado, tranquilo. Um amor água. Sabe-me bem o teu toque, sabe-me bem o
deslizar dorido da tua língua, sabe-me bem o acarinhar da tua mordedura na dor
do meu corpo, na dor que sinto por não ser a do outro. O lamber-me no lado de
fora, por toda eu, no lado de fora. Sabe-me bem o teu amor água, todo ele
húmido: lágrimas, saliva, suor, fluidos, sémen. Sabe-me bem.
Mas
por que raios é que o lado de dentro pede um amor fogo? O que mais desejo é um
amor doente, insano, obsessivo, carnal, esotérico, quântico, intemporal. Mas é
um amor árido e seco o que me dão, o que me dou. É para o amor árido e seco,
intranquilo, não sustentado que demencialmente olho. Anseio o toque, o beijo, a humidade, os fluidos,
o vulcão, a erupção, o magma, a chama, da onda a rebentação.
Almas
que se tocam sem corpos? Não presta. Quero tudo. Quero os corpos também. Necessito
urgentemente dos corpos colados, suados, amassados, rebolados, sujos,
conspurcados. Sou física, toda física. Quero corpos. Quero que me abençoem com
o amor físico. Não me basta sentir o amar. Têm de me dar o amor. Quero que me
craves na pele – selvaticamente. Quero que me dês o melhor dos melhores dos
amores húmidos; que me chores no ventre as dores da tua alma; que me aferroes
na nuca o brasão erecto da posse do tempo e do ser; que me trilhes nas nádegas
a urgência em estar; que me sugues nos seios o leite materno que te foi negado;
que me vivas bebendo-me toda, literalmente bebendo-me toda. Bebe-me. Mas bebe-me
de verdade e saboreia cada verter de mim, entranha-o no teu corpo. Quero que me
sorvas, no rasgar selvático do corpo, na alma. Que me penetres a aura. Quero
absorver-te no mais fundo de mim. Quero a tua alma. Dá-ma. Quero que te
ejacules-me, lá, na névoa da intuição e te concretizes premonição, cá. É isto
viver. É só isto que resta do viver: nada. Eu aí. Tu aqui. Nós. Nós, concepção.
Nós, criação. Nós, gestação. Nós, parição. Nós, obra. Nós, em fruto de carne e
pele e osso, união. Quero um filho teu. Quero um filho nosso, enquanto posso.
Enquanto estou.
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