(2 semanas antes)
-É melhor
vires ao quarto. Quero falar contigo.
Ele nem sequer
a olhou. Previra que aquilo estaria para acontecer. Já há quatro semanas que
ela não o deixava tocar em parte alguma do corpo. Ele bem que tentava. Ela
encostava-se o mais possível na berma da cama, quase caía até.
Irónico…sentia-se vestir, agora, na berma da cama, a pele daquilo que ele
sempre foi. Estaria ele com frio? Com o mesmo frio enregelado que, durante anos,
ela sentiu? Estaria ele necessitado do abraço que raramente lhe deu por dentro
dos lençóis, embora partilhassem a mesma cama há mais de uma década? E à mesma
pergunta, sempre a mesma resposta, mas agora em vozes invertidas:
- Que tens?
- Deixa-me
estar.
Ele seguiu-a
até ao quarto. Os miúdos na sala, entretidos. Um Domingo. Supostamente um
alegre dia passado em família. Ele seguiu-a, cabisbaixo. Já sabia que tinha
chegado o derradeiro segundo. Sabia que era o fim. No percurso, recordou tudo
desde o início. O encontro casual no café, a dança sedutora na discoteca, o
altar, o nascimento dos dois filhos. As queixas dela. As constantes queixas
dela:
- Porque
quando sais nunca me dás um beijo. Porque, aparte as parcas noites em que
queres saciar a tua vontade de sexo, nunca me dás mimo. Encostas-te sempre o
mais p’ra lá. Porque a minha vida é um vazio autêntico. Um vazio ensurdecedor:
ensurdece até a dor! Porque há meses que não me mandas uma mensagem, há meses
que não dizes que me amas. Porque estou sempre sozinha. Estou só, meu amor.
Sinto frio, muito frio. Tremo…de medo também. Temo. Temo-nos.
E os avisos.
Lembrou-se repentinamente dos avisos:
- Por ora, é
hora de sofrer. Um dia chegará a minha hora. Nesse dia, eu vou saber. Ora!
E chegou o
dia. Ele sentiu a lança golpeá-lo no peito. Chegou a hora. Porque é que nunca a
ouvi? Perdi-a. Ainda nem falou, mas já sei que a perdi. Soam-me na cabeça as
palavras daquele poema dela colado na porta do frigorífico: “E o amor, em que
te descobri, só o encontrei no dia em que te perdi. Agora sim, agora sei que só
em nós nos somos.” Percebi, agora mesmo, que comecei a amar-te. Decidi, agora
mesmo, que não vou desistir de ti. Só não sei se ainda venho a tempo.
- Fecha a
porta. Quero falar contigo.
Lentamente, de
olhos ainda no chão, fechei a porta.
- Senta.
Sentei.
- Acabou, Francisco.
Acabou. Não consigo viver mais uma vida de faz-de-conta. Sempre soube quem tu
és. Ensinaram-me a fingir quem estou. E, por vezes, no silêncio que te dou, não
imaginas o ruído que, cá dentro, sou. Tenho estado toda a minha vida sozinha.
Mesmo no casamento, e com filhos, é sozinha que tenho estado. E sabes que mais?
Sozinha é que estou bem. Quero estar só. Na verdade, apaixonei-me perdidamente
por ele. Aquele que tu sabes. Não há volta a dar. Não há condições para
continuar. Nem sei sequer se ele me quer, mas não importa. Sei bem o que quero.
E o que quero é paz, tranquilidade, estar sozinha – nem que passe o resto dos
meus dias só. É isso que quero.
Tirei a
aliança, coloquei-a na mão dela. Doía. Doía muito. Já tinha reparado, na
cozinha, quando ela pousou o leite e a manteiga na mesa, na marca branca e
funda no dedo dela. Aí, eu soube. Aí, eu tive a certeza. Segurei-me p’ra não me
desfazer em lágrimas na frente dela. Odeio-a. Ainda tive forças para dizer.
-És tu que
vais contar aos meninos.
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