terça-feira, 4 de novembro de 2014

Capítulo 1


Quarenta quilómetros de completo, total e desesperante inferno. A pior das piores viagens de toda a sua desértica e entediante existência. Chovia torrencialmente, e de forma continuada, entre o rosto (já deformado) e o  coração, agora dilacerado, e não mais expectante. As lágrimas fumegavam ao embater na saia escancarada e primaveril, queimavam como lanças perdidas por dentro da pele e escarafunchavam, ainda mais, a carne a sangrar em farrapos. A torrente rodopiante de desgosto teimava em jorrar. Ainda com o timbre ferido do violino a soar no seu ouvido, e a tristeza daquele olhar (já sem óculos) profundo e baço a invadir-lhe a alma, proferia, a si própria, recordando o momento da retirada das lentes na direcção da mesa estática.

- Assim é difícil conduzir, porra! Ainda te vais matar! Os olhos não têm limpa pára-brisas. Acalma-te! Há-de passar. Há-de passar. Não há-de ser nada. Há-de passar. Acalma-te, por favor, acalma-te!

                Mas o choro não queria ir embora. O choro adorava-a, idolatrava-a e mantinha-se um bom cão de guarda. E ela precisava desesperadamente de um cão de guarda. Estava cega e precisava desesperadamente de chorar. Sufocava inundada em lágrimas de dor. Necessitava urgentemente de expulsar aquela dor pelos olhos cansados. Quereria morrer? A conduzir e a expulsar a dor pelos olhos cansados. Ai!, como gostaria de ser conduzida. Estava farta de ser a condutora, sempre a condutora. Por uma vez, na vida, a conduzida. Mais uma vez, a conduzir e a expulsar a dor pelos olhos exaustos de vida. Já de si cega, ainda mais cega ficaria. Quereria morrer? Talvez assim o aperto no peito se diluísse em fragmentos dispersos. Talvez assim não doesse tanto. Um pedaço ali, outro bocado acolá, um estilhaço mais além. De certeza que assim não doeria tanto. E aquela frase a latejar na íris:

“- Sim, fico feliz que vá.”

Uma a uma aquelas malditas letras cravaram-se no ecrã do coração.

                Eram tantas as coincidências, tantas as afinidades, tão acertados os ponteiros do relógio. Parecia que todo o universo se havia conjugado para – e até mesmo congeminado – aquele fim. E ela foi. Esqueceu tudo. Num hiato temporal indefinido de loucura, esqueceu tudo: filhos, marido, profissão, realidade, e foi. A prioridade estava ali. O seu amor estava lá. Ela correu atrás do amor, e foi.

                Mimou o seu corpo com um bom creme hidratante, levemente aromatizado, uma espécie de preliminar do que estaria por vir. Isto, após um longo perfumado e relaxante banho de imersão, onde se tocou, ao de leve, vezes sem fim. Já há uma eternidade que não se tocava assim, nem no corpo nem na alma. Sempre de sorriso nos lábios: aqueles sorrisos que entram e permanecem, ou que sempre estiveram, mas que nunca quiseram se mostrar; aqueles sorrisos extensões de encantamento dos contos de fadas; aqueles sorrisos que, ao fim de algumas horas, massacram as articulações ingénuas na infância dos maxilares.

                E foi assim que foi. Na direcção de lá, na direcção do seu amor.

 Na direcção de cá, infelizmente, era outra a expressão. Muita dor, na constatação da ausência do amor. Nem se pode dizer perda, dado nunca ter havido ganho.

Colocou um verniz, descontando o tempo que merecem ser mimadas as unhas também; apreciou, sorridente, o brilho em que ficaram as suas mãos. Colocou um gancho, também ele reluzente, no cabelo previamente alisado às mãos da magnífica massagem da cabeleireira. Apanhou apenas parte do cabelo, o suficiente para que o fino rosto ficasse completamente livre e exposto, como que a dizer:

 - Aqui estou eu! Tens-me. Faz o que quiseres comigo.

 E ele fez: no parque de estacionamento.

 Mais uma coincidência. No parque de estacionamento, a 40km da partida, à chegada,  ali estavam os dois: ele e ela. E mais um. A outra.

 Ora foda-se! Não é que trazia a outra no lugar da recém-morta. A outra. A vontade foi rodopiar 360 graus, fazer um flashback, andar para trás, entrar no carro e sair de traseiras, como um fantasma; recuar no tempo sem ser vista. Voar com mais essa coincidência - a da marca do carro - em todas as direcções, menos naquela. Mas agora, que estava ali, teria de engolir o nó. E de suportar e suportar. Tu aguentas.

E aguentou. Aguentou toda a frieza que lhe foi dirigida. O virar de costas. A conversa animada e contínua com a outra, com “Esta é a Joana”. Nem um passo de aproximação, nem um olhar de “que bom que aqui estás!” durante toda a sessão de apresentação do livro “Segundos Permitidos” de um outro autor que não eles. E a ironia do título da obra. Esse, que também lhe pareceu um sinal do Além para que fosse. Não teria ela naquela hora, em que viu a divulgação do evento na rede social, publicado um poema da sua autoria (de Maria Sousa) que rezava algures assim: “permite-te entrar e por segundos ficar”. Um sinal - pensou. É verdade que a mágoa, o ciúme e a revolta que sentiu eram de tal forma intensos que decidiu enfiar-se propositadamente no canto oposto ao deles, se bem que na frente, sempre nos lugares da frente. Para que ele apreciasse bem o espectáculo do “sim, fico feliz que vá”. Cabeça erguida e hirta, pescoço disfuncional no movimento de rotação (durante toda a sessão paraplégico) – defesa à dor de os saber ali, aos dois. Joana inspirava-lhe carinho. Sentiu igualmente o olhar de surpresa e resignação dela quando foram apresentadas, sentiu-a cabisbaixa, derrotada, sentiu-a “estou lixada”, e entristeceu-se por ser a causa da dor dela. Ele não estaria melhor quando as apresentou. Foi uma sensação estranha: todo um discurso (sem o ser) tenso sob olhares perplexos no silêncio das lavagens de carros.

Algo, interiormente, lhe dizia que iria ser assim. Infelizmente, as suas intuições são premonições: confirmam-se sempre. Nem sabe bem como ainda se deixa iludir por estados extra-intuições, pelo lado de fora. Parva. Trinta e seis anos de existência são experiência suficiente para não se deixar iludir pelo lado de fora. Na verdade, a intuição menor também lhe conta a outra história. É uma intuição pequenina, mas não deixa de ser intuição. Ela diz: se te mostrares, se lutares, vais acabar por vencer, vais acabar por conquistá-lo, vais até deixá-lo de rastos a pedir que nem um mendigo para te possuir, para seres dele, para ele te ser. E era essa - é essa que ela ainda ouve. Essa parva dessa intuição menor, essa pré-premonição. You wish!

Uma pessoa que escreve daquela forma não é uma pessoa. Tens de entender isso de uma vez por todas. Uma pessoa que escreve daquela forma é algo parecido a um alien – está a milhões de anos de luz do planeta Terra. Uma pessoa que se “multifaceta” daquela forma não é uma pessoa, é um monstro da realidade na ficção, ou um monstro da ficção na realidade. Bebe, come e dispõe da vida dos outros, bem como da sua. Está próximo de Deus. É Deus. É mais Deus que tu. Muito mais. Também está próximo do Diabo, é verdade. Não queiras, não ouses tentar compreender uma pessoa que escreve daquela forma. Não ouses tentar compreender o Olimpo. Não ouses tentar compreender Nuno Fernando Filho - o nome que está na boca do mundo. Não ouses. Por que ousas? És parva. Totalmente parva. Atiras-te para o abismo. Um abismo onde serás pára-quedas roto de ti mesma.

Infelizmente, ela apaixonou-se perdidamente por um monstro da realidade na ficção, ou da ficção na realidade. Estará (quem sabe? De certeza!) a ser escrita por ele. É apenas mais uma das suas “marionetadas” personagens reais em ambulante ficção. Ela sabe que ele sente um prazer malévolo em “marionetar”. Quer ver até onde a consegue levar. E ela, ainda por cima, paga para ver – não o final. Sabe, porque a sua intuição menor lhe diz, que vai autodestruir-se a meio. Presume. Embora pressinta e queira saber até onde, na história escrita por ele, aguenta.

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